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Sobre respeitar e curtir cada fase do bebê, sem pular etapas e conquistas

Leo_pé_blog vida materna

No último sábado fui a um pequeno evento na Escola Vila Sofia, onde pessoas muito queridas falaram da educação que vem desde o berço e da importância de resgatarmos e percebermos o que realmente importa na criação dos nossos filhos. Especialmente nesses primeiros anos de vida deles, que são extraordinariamente intensos e que moldam o adulto que eles serão no futuro.

Eu já vinha refletindo sobre algumas questões a respeito disso, e esse reforço do que ouvimos por lá serviu para clarear ainda mais as coisas na minha cabeça. E é isso que eu gostaria de compartilhar com vocês hoje.

Desde a gravidez – e às vezes antes até – começamos a buscar informações sobre tudo que diz respeito a esse novo ser que em breve fará parte das nossas vidas. São inúmeros livros, sites, blogs e artigos que a gente lê, cada um indicando um tipo determinado de conduta, cada um com dicas diferentes sobre como agir e cuidar do nosso bebê. E ainda, temos os pitacos da mãe, da sogra, da avó, da tia, enfim, somos bombardeados de informações sobre o que um bebê precisa e isso gera uma confusão enorme na nossa cabeça.

Logo, nos vemos preocupados em estimular nossos filhos para que eles estejam sempre dentro do esperado para o seu desenvolvimento, num determinado período. Compramos os brinquedos mais recomendados para cada faixa etária e pensamos em mil e uma atividades de estimulação. Mas com tudo isso, esquecemos do básico, do simples, daquilo que é sutil e ao mesmo tempo tão necessário para o desenvolvimento dos bebês. Acabamos atropelando as fases, sempre à espera da próxima, sempre esperando que as coisas se tornem mais fáceis com o passar do tempo. Mas a gente perde demais com isso. Perdemos momentos, conquistas e sutilezas que vão acontecer uma única vez e que merecem ser registradas, pelo nossos olhos e pela nossa memória.

Segundo os princípios e a metodologia da pediatra húngara Emmi Pikler, bebês precisam de tempo, espaço e condiçãoTempo, para se desenvolver e aprender no seu próprio ritmo. Espaço adequado para movimentar-se livremente e de acordo com a sua vontade. E por fim, a condição para que tudo isso aconteça, ou seja, um ambiente seguro, cheio de cuidados e amor.

Os bebês nascem e precisam aprender absolutamente tudo. Precisam aprender a respirar, a sugar, a engolir, a ouvir, movimentar as diferentes partes do seu corpo, a dormir, enfim, todas as necessidades mais básicas de um ser humano. Estavam lá dentro do útero do mãe e de repente são apresentados ao mundo, com cores, sons, temperaturas e sensações diferentes do que estavam habituados. Ou seja, eles já têm um grande trabalho pela frente, não precisam de nada mais do que apoio e amor, e acima de tudo, de tempo. Do tempo deles.

Com a Mel, lembro da sensação de estar sempre à espera de que a próxima fase chegasse, estava sempre apressando – mesmo que só mentalmente – o desenvolvimento natural dela. E acho que deixei de curtir muita coisa por conta dessa ansiedade e do tanto de informação que chegava até mim a cada momento. Deixei passar algumas coisas simples e preciosas e vejo isso hoje através dos vídeos que gravamos, dela bebezinho. Acho que com o primeiro filho a gente está tão cansada, exausta, perdida, que achamos que o crescimento deles fará com que tudo seja mais fácil. Mas muito se perde nesse caminho.

Desde que Leonardo nasceu, há seis meses atrás, venho me observando como mãe. E por várias vezes, percebo uma mãe muito diferente do que fui na primeira vez. As principais mudanças, têm sido tentar diminuir a ansiedade de que as coisas aconteçam como e quando eu acho que deveriam acontecer e ter uma maior sensibilidade e atenção para lidar com o meu bebê. E isso tem feito uma diferença enorme, para mim e para ele.

Tenho observado mais e interferido menos. Tenho confiado mais na sua capacidade de se desenvolver por si mesmo, respeitando o ritmo e o tempo dele. Tenho aproveitado mais cada fase, sem pressa, sem ansiedade, sem pular etapas e conquistas.

Hoje, não tenho mais aquela urgência de que as novidades cheguem, como ver os dentes dele nascendo ou vê-lo engatinhar. Hoje, me contento em observá-lo apenas, e ampará-lo se for necessário. Hoje, não tenho mais pressa.

Apesar de todo o cansaço, tenho curtido de verdade ter um bebê em casa. Presto atenção em cada detalhe, em cada olhar, cada movimento, cada som que ele emite e cada expressão que ele tem. Deixo que ele esteja consigo mesmo e fico apenas assistindo o quanto isso lhe faz bem, como quando ele fica por alguns minutos admirando as próprias mãos ou a manga da blusa. E tenho me policiado em não interrompê-lo quando ele está concentrado em algo, mesmo que aquilo não pareça ter importância nenhuma porque o jeito como ele vê a vida é muito diferente do meu. E isso deve ser respeitado.

Mais do que qualquer brinquedo ou brincadeira que estimule os seus sentidos, Leo gosta de colocar as mãos e os pés na boca. Gosta de segurar os meus dedos, de passar as mãos no meu cabelo e na barba do pai. Gosta de observar a irmã correndo para lá e para cá, gosta de ver o rabo da Boo se mexendo. Gosta de observar nossas atividades mais corriqueiras, como colocar o café na xícara, calçar o sapato ou pentear os cabelos. Fica muito atento a cada movimento da nossa boca, seja para comer ou para falar. Gosta de ser abraçado, cheirado, beijado. Gosta do toque, de colo, de estar pertinho da gente o tempo todo. São essas pequenas coisas que o fazem mais feliz. E são essas pequenas coisas que, por causa da nossa rotina diária e do pouco tempo que temos, por vezes deixamos de observar e de sentir com a intensidade que merecem ser sentidas.

Os bebês, as crianças em geral, gostam das pequenas coisas, das coisas mais simples. Aquelas que, na verdade, são as que realmente importam. Claro que estimulação é bacana, mas acho que quando se trata de bebês, é muito mais uma questão de motivar do que de estimular.

Então, deixe seu bebê ser bebê, dê o tempo que ele precisa para crescer. E curta muito, cada minuto, cada pequena conquista que ele tiver, sem pressa, sem atropelos. Porque a gente sabe, eles crescem muito rápido. E essas memórias merecem ficar guardadas para sempre.

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9 comments

  1. Texto perfeito! Eu consegui observar bem cada conquista do Heitor. E nunca fui de estimular muito, sempre o deixei muito à vontade para ele explorar o ambiente ao seu redor. Eu procurava estar por perto para evitar as quedas, mas mesmo quando elas aconteciam, eu o abraçava e explicava que aquilo era normal, que fazia parte do desenvolvimento dele e que logo ele estaria firme e não cairia mais. Ele com 1 ano e 7 meses não fala muito, compreende tudo, mas ainda é muito monossilábico. Mas ele vai falar no tempo dele, sem pressa. Pq a parte motora é super avançada, tanto que andou com 10 meses! Como já li num texto indicado por vc, que os bebês são curiosos por si só e não precisam de todo o estímulo que oferecemos a eles!

  2. Concordo com vcs! Eu tb nao estimulo muito a Laura, deixo que ela descubra o mundo sozinha, e ela vem se desenvolvendo normalmente, é super curiosa. Só fico de olho, nao quero pressiona-la a ser uma super criança, longe disso, quero que ela seja ela mesma, desde bebe. Bjos , otimo texto!

  3. Meu bebê, Paolo, tem sete meses e identifiquei que muitas das coisas que o Leo faz, como mexer no cabelo, pegar na mão, na barba do pai, ele faz da mesma forma.
    Também gosto de deixá-lo a vontade para descobrir nas coisas simples.
    Adorei o texto.
    Beijo

  4. sabe que eu, como mamae de primeira viagem, ficava nessas neuras das “fases do desenvolvimento”. lia horrores sobre cada mês e ficava encucada se o meu filho estava ou não ja fazendo aquelas coisas.. depois desencanei total. Hoje tento aproveitar mais os momentos.. ele esta com quase 1 ano e nao fala nada direito ainda. ja ouvi até da minha mae aquela frase “ah mas tu já falava varias coisas com 1 ano”.. ok, edae? não da pra pirar! tem que aproveitar e deu!

  5. Ainda bem que li isso agora, na gestação. Porque eu leio tanta coisa, mas ninguem falou isso que voce disse. X Ser mae de primeira viagem nao é facil. Devia mudar nosso nome para insegurança!!! MUito obrigada por esse otimo texto.

  6. A Vila Sofia agradece a presença dessa mamãe querida e dedicada, que procura o melhor para seus filhos e para inspirar o pais. Que possamos continuar juntos nessa busca, trilhando o mesmo caminho.

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