Categories: Comportamento e Educação/ Crianças

Sobre convivência, dificuldades, afeto e o que eu gostaria que tivessem me dito quando criança

Recentemente conversei com vocês lá no stories sobre uma situação corriqueira porém chata de lidar, envolvendo Melanie e um coleguinha da escola. O assunto rendeu muito e vocês me pediram para transformar aquele conteúdo em texto, devido à importância daquela abordagem.

Vou tentar então resumir alguns pontos mais importantes dessa discussão, para que a gente possa refletir a respeito.

Mel, que agora está com 8 anos e meio, sempre costumou me contar tudo (eu espero!) que acontece quando estamos longe – e isso inclui principalmente o período que ela passa na escola. Recentemente, numa dessas conversas, ela contou que um coleguinha de repente passou a chamá-la ( e somente ela) de “nomes feios e estranhos” – nas palavras da pequena. Sabem aqueles xingamentos bem infantis do tipo “sua cocô”? Então, esses mesmos — que me fazem revirar os olhos do alto da minha vida adulta mas que, para uma criança, podem realmente magoar.

Sobre o tratamento grosseiro ou hostil dos meninos para com as meninas ser considerado “afeto”

Enquanto conversávamos sobre isso, questionando quais poderiam ser os motivos do menino e sobre como ela deveria se posicionar, minha mente me levou lá para longe e me peguei pensando em outra questão.

Lá na década de 80, quando eu era criança – e, mais tarde, claro, adolescente – as pessoas pareciam ter uma frase pronta para dizer ao menor relato de provocação, grosseria ou menosprezo por parte dos meninos: “ah, nem ligue! sabe por que ele faz isso? porque ele deve gostar de você! meninos agem dessa forma mesmo!” 
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E assim, a gente ia crescendo achando que era ok, que era aceitável aquele comportamento. Que aquela devia ser a forma como os meninos aprenderam a demonstrar sentimentos e que eles faziam isso porque tinham vergonha de assumir o que sentiam, afinal, ouvimos muito também que “os homens não choram, logo, devem ser menos emocionais e mais racionais” — não é?
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Se a gente parar para pensar, essa frase — que infelizmente ainda é muito reproduzida por aí — teve (e tem) um grande impacto na forma como nos relacionamos com o outro, com nós mesmas e com o mundo. Porque tratar mal, no caso dos meninos, era sinônimo de gostar, afinal. Mas ali, naquele contexto, a gente não tinha um menino que sentia algo diferente por uma menina e com desdém ou provocações diversas expressava o que sentia, seja porque tinha vergonha ou porque meninos eram assim mesmo, não sabiam demonstrar afeto de outra forma. Ali, a gente tinha uma criança que estava tentando lidar com sentimentos que ainda não compreendia — fossem eles de afinidade ou não, porque sim, muitas vezes a gente apenas não gosta muito de alguém… — e que talvez não estivesse encontrando o apoio necessário para alcançar esse entendimento.

As crianças — e agora falando de um modo geral, de meninos e de meninas — precisam aprender desde muito cedo que, sentir admiração, afinidade ou carinho por alguém em especial, pode e deve ser demonstrado se assim elas desejarem. Que uma das coisas mais maravilhosas de toda a nossa capacidade de ser humano é justamente essa: a de sentir. E que tudo bem também quando ainda não tiverem segurança para demonstrar isso. Por outro lado, também precisam compreender que irá acontecer de não se darem bem com algum coleguinha e vice versa — por falta de interesses em comum, por uma primeira impressão que não foi das melhores, por diversos motivos. Mas que acima de qualquer afinidade, sentimento de carinho ou diferença, precisam ser gentis e respeitosas com todos ao seu redor, independente de quem sejam.

Todo esse aprendizado sobre sentimentos e socialização, elas assimilam principalmente através das nossas vivências, do nosso modo de reagir aos acontecimentos bons e ruins, do nosso modo de levar a vida todos os dias. Os olhinhos curiosos sempre nos observam, os ouvidos aguçados sempre nos ouvem — mesmo quando achamos que não.

Sobre o quanto o ambiente e as pessoas com quem a criança convive a influenciam, especialmente durante o primeiro setênio de vida 

A criança vive num profundo processo de aprendizado e de desenvolvimento desde o momento em que nasce. Conforme vai crescendo, começa a aprender lentamente a identificar o que sente, a se relacionar com o próximo e a verbalizar sentimentos — ao mesmo tempo em que tenta de maneira bastante corajosa formar sua autoestima. Especialmente nessa etapa de vida em que são pequenos, o ambiente e as pessoas com quem essa criança vive são fundamentais para que esse aprendizado seja mais inspirador e menos desafiador para os pequenos. Além das próprias vivências, eles também vão assimilando o mundo e seus valores através das nossas atitudes e das nossas palavras. Nós somos o espelho, nós somos como um boomerang que vai e volta. E a gente sabe disso, desde o minuto que os olhamos nos olhos e sentimos o peso da maior responsabilidade que poderemos ter nessa vida.

No caso dos conflitos entre coleguinhas dentro de uma escola, ao culpar a criança que age de maneira errada e até incentivar o sentimento de raiva ou de rivalidade entre a parte oprimida e a parte opressora, nós — os adultos — estamos errando também. Nós sabemos que a criança tem a sua própria personalidade que está em plena construção durante essa fase, mas precisamos nos lembrar também de que ela está em constante aprendizado, errando, aprendendo, e, acima de tudo, absorvendo tudo de bom e de ruim que o ambiente e as pessoas nas quais ela se espelha possam vir a ter. E, nesse caso, uma conversa com os adultos que a cercam em conjunto com a escola, pode ser a melhor solução. Infelizmente nem todas as pessoas têm a mesma consciência nem os mesmos valores — seja pela educação que receberam, seja pelo ambiente e pelas pessoas pelas quais foram cercadas a maior parte de suas vidas, seja pelas tantas batalhas que enfrentaram e que nunca poderíamos saber sem um convívio maior, seja porque decidiram tapar o sol com a peneira e não tentar evoluir. A empatia precisa vir de nós e sim, eu sei que é muito difícil compreender certos comportamentos e ações sem julgar ou se enfurecer com o outro. Mas, por eles, pelos pequenos que nos cercam, a gente precisa ao menos tentar.

Enfim, o que eu gostaria que tivessem me dito quando criança

Que nem todo mundo ia gostar de mim ou se identificar com o meu jeito – e que tudo bem, afinal, ninguém é nem precisa ser uma unanimidade; nem ninguém é obrigado a gostar de ninguém. Que o meu valor não seria diminuído por nenhum desses fatores, que não havia nada de errado comigo mesmo que alguém sempre tentasse me provar o contrário. Queria que tivessem me dito inúmeras vezes a não me chatear quando alguém não quisesse brincar comigo porque ainda assim eu teria uma gama imensa de opções e de pessoas para pular, correr e descobrir como o mundo gira. Queria que tivessem incentivado mais a minha autonomia para tentar resolver pequenos problemas por mim mesma, antes que os adultos entrassem em cena para interferir. Queria que tivessem me explicado que somente com muitos questionamentos e buscas incessantes de por quês eu poderia chegar perto de compreender as atitudes das pessoas ao meu redor. Queria que tivessem me falado mais sobre a importância de usar e de fazer ser ouvida a minha voz, especialmente quando algo me incomodasse, quando algo fosse injusto e cruel – comigo ou com o outro. Queria que tivessem me falado mais sobre como o amor anda lado a lado com a empatia e sobre o enorme ganho que todos têm quando conseguimos nos colocar no lugar do outro, só por um minuto. Queria que tivessem me instruído a encarar que, se alguém (menino ou menina) me tratassem mal sem motivo, era porque estavam tentando lidar com os próprios sentimentos — de maneira errada e talvez sem o apoio necessário — mas nunca como lisonja ou como uma demonstração estranha de afeto. Queria que tivessem me dito que sim, que inevitavelmente existiriam pessoas que tentariam me fazer mal, me diminuir, me envergonhar ou me calar — e muitas vezes, sem motivo nenhum. E que nesse momento eu poderia contar com todo o amor, com toda a força e com toda a coragem que sempre estiveram dentro de mim e também dentro daqueles que me cercariam com esses mesmos sentimentos e com mãos protetoras. E, principalmente, que apesar de todas as dificuldades que as primeiras amizades trazem e do desafio de aprender a aceitar o outro tão diferente de nós mesmos mas ainda assim tão merecedor da mesma vida, existiriam muitas outras pessoas que se sentiriam felizes só pelo fato de estarem ao meu lado. E que era perto dessas pessoas que eu deveria estar, dando o mesmo carinho em troca. E que assim, eu poderia trazer um pouco de amor e de luz em meio ao caos que o mundo poderia se tornar muitas vezes.

Eu provavelmente ainda não teria maturidade suficiente para compreender ou para gravar tudo isso, mas gostaria que tivessem me dito mesmo assim. Não somente uma vez, nem duas, nem três. Mas sim ao longo de toda a minha infância e depois, nos difíceis e doídos anos da minha adolescência. E, quem sabe assim, eu levaria esses ensinamentos por toda a minha vida.

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4 comments

  1. Um tema difícil de lidar, mas você fez isso com tanta delicadeza e me levou a refletir muito a respeito. Minha filha iniciou a escola esse ano e com isso muitas preocupações vieram junto porque nós sabemos o quão complicada é a convivência entre seres humanos, mesmo que ainda na infância, talvez mais difícil ainda na infância quando é tudo tão novo e eles saem de um ambiente de certa forma mais protetor que é o ambiente familiar para um mundo inteiramente novo. Confesso que isso me deixou muito preocupada, afinal não sabemos o que se passa por lá e a depender da idade nossos filhos não tem ainda a capacidade de expressar bem o que se acontece na escola. Só gostaria que ela pudesse ter a maturidade necessária pra lidar com o que está por vir, mas sei infelizmente que o tempo e mais ainda as experiências são o que nos proporcionam isso. Só nos resta mesmo acolher e orientar o máximo possível a eles.

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