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Sobre as dores que não podemos evitar

Se existe algo que eu gosto nessa vida, é de festa junina. Amo aquele clima que paira no ar, as músicas, as roupas, as danças e, claro, as comidinhas típicas como pinhão, canjica, arroz doce e quentão. Por isso, mesmo tendo ido a duas festas juninas já neste ano, fui feliz e saltitante para minha terceira, a convite da minha cunhada. E foi ótimo. As crianças brincaram e se divertiram muito e eu tomei todo o quentão que não tomei na última vez.

A festa foi no Santa Mônica Clube de Campo e o pessoal caprichou na área de recreação para as crianças. Haviam muitas opções de brinquedos e alguns monitores para auxiliar os pais e as crianças, que estavam curtindo cada minuto.

Num certo momento, Melanie pediu para ir num brinquedo inflável que parecia um mini campo de futebol, com traves simulando o gol, inclusive. Quando ela e o pai se aproximaram, o monitor disse “que era futebol, era para meninos”. Meu marido, me enchendo de orgulho, disse que “era futebol sim e que ela poderia jogar, se quisesse”. (abro um parênteses aqui para dizer que um post sobre isso está sendo escrito – mentalmente – há meses e que tenho trabalhado para conseguir mudar alguns conceitos aqui dentro da nossa própria casa. ao que tudo indica, estou tendo sucesso. mas isso realmente ficará para outro post).

Melanie tirou o calçado e entrou no brinquedo, que já abrigava uns seis meninos com idades entre 3 e 5 anos. Ficou parada numa das laterais, demonstrando muita ansiedade para que o “jogo” começasse. E começou. Os meninos corriam atrás uns dos outros e acabaram pegando a bola com as mãos mesmo. E assim continuaram jogando, um para o outro. Menos para a Mel.

De repente, olhei para o lado e vi minha filha, a minha menina, tão amada e tão cuidada, totalmente frustrada, com a decepção estampada no rosto e lágrimas enchendo aqueles olhos expressivos que ela tem.  Percebi que um choro forte estava vindo e apenas olhei para ela e fiz um sinal de “vem cá”. Já chorando, ela veio até mim e eu a abracei. E ali, naquele exato momento, eu me dei conta. Me dei conta de algo que eu sempre soube, algo que a gente sabe desde o momento em que decidimos ter um filho: não é possível evitar a dor e o sofrimento que eles virão a ter.

Eu senti raiva dos meninos. Senti a dor da minha filha ao ser ignorada ali, dentro daquele brinquedo. Pensei se o motivo era ela ser uma menina. Ou talvez aqueles meninos já se conhecessem e já brincassem juntos, quem sabe. Ainda assim, me senti mal. E obviamente eu não deveria me sentir assim. Porque isso simplesmente não me compete, vai muito além da minha capacidade e até do meu dever de protegê-la.

É difícil aceitar que meus filhos irão sofrer e se decepcionar muitas e muitas vezes em suas vidas. Mesmo sabendo que enfrentar adversidades e cair para aprender a levantar, faz parte do aprendizado. Mesmo sabendo que isso os fará serem fortes.

Se pudéssemos, não evitaríamos cada tombo, cada machucado, cada frustração e cada doença que eles têm? Claro que sim. E aí entram os sentimentos ambíguos e a complexidade da situação. Mesmo com esse amor sem medida que sentimos por nossos filhos, precisamos deixá-los ir, deixar que eles sigam o seu próprio caminho e construam o seu próprio aprendizado. Porque não podemos fazer isso por eles e, principalmente, porque eles precisam dessa chance de escreverem a própria história. Precisamos deixar que eles cresçam, com toda a dor que isso implica.

Eu tenho muito medo da violência e da maldade que existe dentro do ser humano. Se pudesse, criaria meus filhos dentro de uma bolha onde nada nem ninguém pudesse machucá-los. Mas eu estaria sendo ingênua, além de egoísta, claro. Ninguém deve ser privado de viver sua própria vida nem de cair seus próprios tombos. Nem mesmo nossos filhos, tão amados que são.

Eu sei de antemão que quando aquela prova vier com uma nota abaixo do esperado, quando eles tiverem seu coração partido pela primeira vez ou quando sentirem o mundo desabar depois de se decepcionarem com alguém, eu provavelmente sentirei a dor deles. Mas não poderei evitar que eles sofram, que se machuquem. E isso me dá uma sensação de impotência enorme, porque, afinal, temos esse instinto muito apurado de proteger nossos filhos, de estar ali do lado deles para o que der e vier.

Me lembro muito bem de ser perseguida sem motivo por um grupinho de meninas do ginásio. De ter meu nome envolvido injustamente em mentiras e boatos que acabaram com algumas amizades. Da tristeza por não passar nos testes para o time principal de vôlei. Da frustração com a minha primeira vez e com o cara para quem entreguei o meu coração. Da decepção em não conseguir minha carteira de motorista logo de cara. Do medo e da coragem quando decidi acabar com meu primeiro casamento.

Lembro de todas essas experiências e de cada uma dessas dores que senti. E sou grata por elas. Porque me trouxeram onde estou, me tornaram quem eu sou hoje. E me proporcionaram uma das melhores recordações também: o abraço da minha mãe, que mesmo contrariada, estava sempre ali, quando eu precisava. Mesmo sem que eu dissesse nada.

Nós lidamos com a dor, a frustração e a decepção, praticamente todos os dias das nossas vidas. E assim nossos filhos precisam aprender a lidar, desde muito cedo. Só nos resta então, com o coração na boca, dizer “vai filho” e deixar que eles vivenciem a vida por inteira, como um todo, como a vida merece ser vivida. Com as alegrias e as dores, com as conquistas e derrotas. Precisamos deixar que eles cresçam, mesmo que isso nos doa um bocado no peito.

No que me cabe como mãe e como ser humano, espero apenas conseguir encher a vida e os dias dos meus filhos de amor – para si mesmos e para os outros – e de coragem – para que possam enfrentar todas as dificuldades que com certeza virão e que serão muitas. E espero que esse seja sempre o primeiro caminho a ser buscado por eles: o caminho do amor.

E que meus braços estejam sempre abertos, mesmo que eles não peçam, mesmo que não precisem de mim. Só quero estar aqui e que eles saibam disso. Sempre.

mel e leo blog vida materna

comentários via facebook

20 comments

  1. e como evitar o nó na garganta lendo isso?
    senti tua dor e a da Mel também!
    passei por esse “deixado de lado” dentro da minha própria família. eu sinceramente n sei lidar, fico pocessa, triste, com vontade de nunca mais voltar em tal lugar… =s

  2. Fico imaginando como será quando minha pequena se frustar,eu sei que sofrerei com ela,é impossível ter um sentimento como o de mãe e não sentir na pele a dor dos filhos …

  3. Poxa Michelle, estou em lágrimas!!! Que texto mais lindo. Você conseguiu expressar em palavras tudo aquilo que sentimos quando não podemos evitar a dor de nossos filhos. Menina, está de parabéns!!! Um dos seus melhores textos!!!

  4. Lindo texto e emocionante! Aposto que seus olhos se encheram de lágrimas algumas vezes escrevendo-o… Chorei junto e lembrei do meu pequeno que ficou simplesmente encantado com um palhacinho de um menino na igreja. Quando enfim o menino abandonou o brinquedo no banco ele foi lá e pegou. Na mesma hora, o dono correu e tomou da mãozinha dele =( Mas, só de vê-lo abraçando aquele palhaço com tanto carinho e chegar o “egoísta” rs e puxar me deixou irada e com os olhos cheio de lágrimas ao ver meu filho chorando tanto. É algo inexplicável, instintivo mesmo.
    Beijos e parabéns pelo belíssimo texto!

  5. Michelle, lendo o texto veio na minha cabeça exatamente o que vc disse: minhas dores me transformaram no ser humano que sou hoje, e por mais que elas tenham representado momentos difíceis (alguns ainda nem totalmente superados, como a passagem da minha mãe), sou grata a elas. Foi uma surpresa boa ver que nesse aspect pensamos de forma muito parecida:)
    É de fato muito difícil amparar nossos filhos em momentos como os que vc relatou, mas o mais importante disso tudo é que eles saibam que nós estaremos ali com eles: acolhendo, abraçando, dando força para enfrentar esses obstáculos.
    Parabéns pelo texto! O seu espaço é especial por muitos outros motivos, mas o que eu mais gosto é da sua habilidade com as palavras.
    Bjs com carinho,
    Neima

  6. Também passo por isso dentro da minha família, e é muito dolorido, revoltante. Estou tendo que aprender a lidar com essa situação. Ela é muito pequena ainda e não sente a indiferença que ocorre. Também tenho muita vontade de colocar a minha filha numa redoma de vidro para que nada nem ninguém a magoe, mas sei que é inútil afinal a vida irá causar muitas situações iguais a essa!
    Parabéns pelo texto maravilhoso!

  7. Parabéns pelo belíssimo texto. Você consegue escrever como ninguém as angústias e alegrias que nós mães passamos. Adoro seu trabalho!0

  8. Você contando essa história da Melanie, retratou extremamente bem o que já aconteceu com a minha filha sentimentalmente e a mim também. Cecília é uma criança um pouco retraída, a gente tenta enturmar ela o máximo que conseguimos, mas às vezes, não tem como a gente se meter no negócio, pq é criança e é coisa de criança. Acontece algumas vezes em festa quando ela chega e tem primos brincando com primos ou crianças que já se conhecem, ela fica na espreita até chamarem ela, vai se enturmando aos poucos, mas quando isso não acontece, ela fica muito decepcionada, quer chorar e a gente sofre junto. Dói demais, mas faz parte da vida!

  9. Nossa Michelle, não tinha pensado nisso até ler o seu texto. As meninas já passaram por algumas frustrações e realmente é de partir o coração. Mas ainda bem que uma tem a outra e que elas sempre se defendem, é muito bonitinho como elas são unidas. Vantagem de irmãs gêmeas…rs.

  10. É assim mesmo q nos sentimos… Já tive raiva tbm de crianças q frustraram o Heitor, mas faz parte do crescimento dele e eu tive q contornar a situação. Mais uma vez um texto lindo, bem escrito e q me troxe lágrimas nos olhos por ver q meus filhos tbm passarão por isso…

  11. É assim mesmo q nos sentimos… Já tive raiva tbm de crianças q frustraram o Heitor, mas faz parte do crescimento dele e eu tive q contornar a situação. Mais uma vez um texto lindo, bem escrito e q me trouxe lágrimas nos olhos por ver q meus filhos tbm passarão por isso…

  12. Nossa eh mto complicado esse sentimento. …chorei qdo li seu post porque hj vivi algo parecidi…tenho um filho adotivo de cinco anos, nem preciso dizer q ele eh tudo p mim e q o amor incondicional q tenho por ele eh o mesmo q tenho pelo meu filho biológico de quatro meses. Ele estava brincando com um primo q disse a ele “vc não tem pai nem mãe de verdade” e ele veio inocente me perguntar mamãe vc não eh minha mãe de verdade???? Meu primo q disse. Eu com um nó na garganta respondi “claro q sou filho, fala p ele q mãe eh quem cuida, da amor, carinho e atenção!!!” Ele foi até o quarto e repetiu as mesmas palavras q eu havia dito…dpois em particular reforcei essa conversa com ele!!!! Mas doi mto qdo nossos filhos vivem algum conflito pq nao podemos resolver como gostariamos!!!!!! :-( tbm como vc senti raiva e meu coração ficou em pedaços e agora a noite qdo fio tomar banho não contive as lágrimas pq era a última coisa q gostaria d ter vivido essa noite!!!!! E aparentemente doeu mtoooooo mais em mim do q nele rs!!!!

    Obs ele sabe q eh adotivo, inclusive conhece a outra família, mas ainda não tem noção do que eh isso. E por incrível q pareça ele eh fisicamente mto parecido comigo e meu filho biológico não tem nada a ver rs!!!

  13. Infelizmente o mundo não é só alegrias e paparicos. Tem as frustrações também e como mãe, temos que entender o que são “coisas de criança” e o que pode ser um bullying em potencial.
    Melanie está crescendo. Eu não vejo o “gelo” como algo ruim, apenas era uma integrante do grupo que os meninos ignoraram. Será que eles ignorariam um menino? Talvez sim, talvez não. O gênero aqui é o que menos importa.
    Acredito que criança quando é menorzinha tem sempre um pai ou mãe perto ou até um adulto para interagir, proteger e organizar a brincadeira. A partir dos três, é a criança com outra criança mesmo. E as crianças, ás vezes, podem ser cruéis.
    Ignorar, xingar, bater são coias que podem acontecer quando elas estão sozinhas. Mas o pulo do gato, para mim, é a criança entender que é uma coisa passageira.
    A criança “mimada” (e nisso incluo o meu filho)sofre mais, pois não entende a frustração. Os franceses frustram a criança dentro de casa para ela realmente saber como lidar com isso. O “quadro” fala sobre isso. Não é não. E não há charminho infantil que combata isso, pois as consequências são terríveis.
    Todos nós temos os nossos “traumas” infantis, mas será que eles são tão importantes assim? Será que, com uma de ver diferente a situação, o trauma não seria bem melhor digerido e não seria levado até a vida adulta?
    Eu tive um sonho doido esses dias que meu filho entrava em um colégio militar interno. Eu sofria muito com aquelas pessoas gritando com ele por nada e pensava: ” em casa eu não grito com ele, por que esse fdp está gritando com meu filho?” E aí percebi que meu filho está sendo criado para mim e não para o mundo.
    A inteligência emocional é a chave para uma criança bem sucedida. E eu acredito muito no poder disciplinador dos esportes. É uma forma menos “militar” de se lidar com as diferenças visando um bem em comum.

  14. Já passei por essa situação e ficamos com o coração apertado…minha filha fala: mãe, não querem brincar comigo!
    Eu aconselho, que ela tem outros amigos. ” – Deixa eles lá filha, procura outros amiguinhos!”
    Mas é difícil…fui lendo o que escreveu e minha garganta tranca…Deus cuide das nossas crianças.

  15. Que texto lindo.. estou com um nó imenso na garganta porque há pouco meu filho, de 3 aninhos, disse que não quer mais ir à escolinha porque os amigos ficam empurrando ele…
    Em casa, tentamos passar amor e respeito ao próximo. Tenho conversado bastante com ele e o que fiz foi pedir para ele avisar a professora quando algum amiguinho fosse mais agressivo.. Mas fico com o coração na mão…
    Sei que tudo faz parte e que são situações importantes para o desenvolvimento dele.. Mas como é difícil!
    Tem horas que desejo ser um escudo invisível para protegê-lo!
    Mas, eis a arte de ser mãe: amar, cuidar e prepará-los para os desafios do mundo lá fora!

  16. Esse texto tocou num ponto sensível para nós, mães… Nossos filhos são nosso coração batendo fora do peito.. e como dói vê-los tristes, ou injustiçados. Fico pensando neste assunto e também na criação da minha filha.. Espero ter sabedoria para lidar com essas situações e, também, para ensiná-la a ser uma criança diferente, que saiba respeitar os outros, dividir suas coisas, ser amável e querida no meio em que estiver.

    Grande bjo a todas as mamães e que possamos começar em nossa casa uma educação diferente daquilo que não aprovamos, para criarmos melhores cidadãos, irmãos, primos, amigos…

  17. Este texto me tocou muito, porque ontem mesmo passei por uma situação assim com minha filha. Fomos ao parquinho e em determinado momento ela ficou parada do lado de um grupinho de meninas de +- 6 anos. Elas ignoraram totalmente ela, até fecharam um pouco o círculo. Como ela tem só 2 anos eu fui lá sentei ela no chão e perguntei às meninas se ela podia ficar lá do lado delas. E a resposta: “mais ou menos, ela pode ficar aqui só se ela não mexer me nada”. Peguei minha filha e a chamei pra brincar outra coisa ‘muito mais legal’ (rsrsrs), que as meninas alí não sabem dividir.
    Depois fiquei pensando, que minha filha não entendeu nada e realmente achou a outra brincadeira muito legal, quem ficou frustrada e com raiva mesmo, fui eu!
    Realmente temos que ter saúde emocional para orientar nossos filhos da melhor maneira, para eles saberem lidar com as adversidades. E, principalmente, não nos deixar contaminar, não reviver traumas, não passar carma.

  18. Esse é um medo presente em todas nós mamães, uma sensação de impotência, de não poder evitar o que faz parte do crescimento e da convivência com as diferenças em todos os sentidos. Contudo o que mais me chamou atenção no seu texto foi a questão das relações de gênero, tão presente em nosso cotidiano, a tal da determinação dos adultos de que isso é para meninos e isso é para meninas, gerando assim conflitos entre os gêneros. Julgo que de repente esses meninos tenham sido educados assim: que futebol é somente para meninos. E meninas deveriam apenas brincar de boneca e de casinha. Infelizmente isso ainda é muito frequente em nossa sociedade machista e excludente. E começa com os pequeninos. Talvez pela internalização do feminino e masculino não entenderam o que uma menina estaria fazendo ali se aquele brinquedo "era para meninos". Um abraço e que a querida Mel possa superar todas as desigualdades da sociedade.

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