18 dez 2017

Uma pequena reflexão sobre Janis, o dedão do pé e o impacto do que dizemos

Aos quinze anos de idade eu ganhei meu primeiro aparelho de som e com ele, meu primeiro CD. Meu pai me surpreendeu bastante ao chegar com o Pearl da Janis Joplin, que era uma das artistas que eu havia recém descoberto e estava apaixonada desde então. Maybe e Cry Baby rapidamente se tornaram minhas canções preferidas, onde a voz potente daquela mulher incrível se juntava à melodias e letras perfeitas.

Quando soube do lançamento de um documentário sobre a vida de Janis na Netflix, fui correndo adicionar à minha lista – aquela que a gente coloca tudo que quer assistir quando tiver um tempinho. Janis ficou lá, esperando, junto com outros títulos.

Um dia desses fiquei sozinha em casa e resolvi contrariar o que sempre faço quando tenho um tempo livre. Decidi que ia me sentar no sofá com uma xícara de café recém passado e assistir alguma coisa na tv. Finalmente senti vontade de assistir Janis: Little Girl Blue e esse documentário sensível mexeu comigo de uma forma que acabou virando uma grande reflexão, e depois, esse texto.

Janis nasceu em 1943 e morreu precocemente em 1970, aos 27 anos. A fama é de uma artista consagrada no rock e no blues e geralmente associada à vida sem regras e às drogas. Contudo, no documentário são abordadas visões de fora da música – revelando a mulher doce, sensível, confiável e poderosa que era por trás da lenda. Um relato de uma vida épica e turbulenta que mudou o mundo da música para sempre. (Folha de São Paulo)

Numa sociedade que desde sempre exigiu das meninas um comportamento padrão e uma aparência que deveria ser como a das modelos nas revistas, Janis lutou para ser quem queria ser. Brigava na escola, arrumava inúmeras confusões e tentava se enturmar e ser aceita – especialmente pelos meninos. Sofreu um imenso bullying em toda sua infância e adolescência, por não ter um rosto considerado “feminino” ou “bonito” e foi vítima da crueldade de terem inscrito seu nome no concurso do “menino mais feio do campus”. Sim, vocês leram direito. O menino mais feio do campus. E, obviamente, houveram pessoas que votaram nela e a fizeram vencer naquela categoria tão cruel.

No documentário, um amigo próximo conta que isso a abalou de uma forma tão impactante, que ela nunca mais foi a mesma. Justo aquela garota forte e marrenta, que nunca havia sido vista chorando até aquele dia. Mas essas coisas têm mesmo o poder de nos atingir em cheio quando já estamos cansados de travar batalhas que nem deveriam existir. E foi o que aconteceu com Janis.

Vou deixar que vocês assistam o documentário, se puderem, sem entregar mais detalhes. Mas posso dizer que é a história de uma mulher que só queria ser amada e aceita por quem ela realmente era, longe dos padrões impostos pela sociedade. Uma mulher que queria ser reconhecida por ser boa em algo, depois ter sofrido tanto no passado. Por isso ela se entregou de corpo e alma à única coisa que sentia fazer maravilhosamente bem: cantar, escrever e interpretar. E, no meio de tudo isso, deixar transparecer de forma tão palpável toda a sua tristeza, suas frustrações e amarguras. Janis ansiou por essa aprovação e reconhecimento alheio por toda a sua vida, sempre se sentindo diminuída e sem valor. Porque um dia, lá trás, a fizeram acreditar nisso.

Foi algo que me fez pensar imediatamente na importância de tudo aquilo que crescemos ouvindo – de nossos pais, familiares, amigos e claro, dos não amigos. No estrago que coisas negativas e cobranças por sermos diferentes de quem somos pode ter na nossa vida adulta. Muitas vezes isso nos faz crescer e amadurecer, mas também são marcas profundas e traumas criados a partir da fala de alguém que não se colocou em seu devido lugar. Muito menos no lugar do outro. E é isso que venho sempre tentando mudar, em cada pequena situação que vivo, principalmente com meus filhos.

Jamais irei esquecer que passei metade do meu tempo de ginásio usando uma blusa amarrada na cintura, porque um dia me disseram que minha bunda era muito grande e chamava a atenção dos meninos. E eu deveria me esconder, é claro. Que ousadia ser quem eu era, como eu era. Não eram eles que estavam errados, imagine. Até hoje carrego comigo complexos e traumas dessa época. Acho que todas nós – falando agora exclusivamente da opressão feminina que infelizmente permeia nossa vida desde sempre.

As pessoas estão acostumadas a tecer comentários pejorativos e até maldosos, mascarados de sinceridade extrema ou conselho amigo. Isso nos afeta tanto quando adultos! Agora reflitamos sobre o impacto disso aos ouvidos de uma criança, inocente, que ainda não está preparada para ter que se defender da opinião do mundo a respeito de algo que apenas lhe pertence. A criança ama seu corpinho pelo que ele é – algo que lhe permite fazer o mais valioso que temos: viver.

Dia desses, Mel comentou com aquela voz triste, que seu dedão do pé era feio e que tinha vergonha dele. Não queria usar sandália porque iriam rir dela e do dedão “cabeça de tartaruga” – igual ao do pai. Alguém disse que seu dedo não se enquadrava na estética perfeita dos “pés de menina” – e ela acreditou nisso. Assim como a criança que ouve que seu cabelo ou que seu rosto é feio, que é gorda ou magra demais, que não será capaz de realizar algo, irá acreditar também. O ser humano geralmente tem uma inclinação natural a acreditar facilmente nas coisas ruins. Por isso a gente precisa empoderar nossos filhos. Para que amem as suas diferenças e entendam a dos demais, para que lutem contra a imposição de padrões, sempre que necessário. E nós sabemos: será necessário.

No caso do dedo do pé, era uma coisa tão pequena e talvez sem importância, mas naquele momento a luzinha se acendeu. Por isso, mais uma vez conversamos sobre como as pessoas são diferentes, têm corpos diferentes, cores diferentes, personalidades e aptidões diferentes. E que somos únicos justamente por isso. Que não haviam dedões certos ou errados e sim dedões que fazem parte de pés que nos permitem andar, correr, se equilibrar, ficar na pontinha dos dedos e se espichar para alcançar algo mais alto do que nós.

Nosso corpo precisa que a gente cuide dele, que o ame, que o alimente, que o aceite com suas perfeições e imperfeições – porque sim, nós todos as temos. E que possamos correr atrás de mudar o que nós quisermos mudar. Apenas o que nós quisermos mudar.

Ele nos permite tanto e nos proporciona essa coisa extraordinária que é viver, tropeçar, aprender, começar de novo. Cabeça de tartaruga ou não, nossos dedos são parte dos pés nos fazem ir adiante e retornar quando necessário. E nisso está o nosso maior poder: ir em frente e fazer diferente daqueles que erraram conosco lá trás. E é isso que desejo para todos nós: que façamos diferente, nas grandes e nas pequenas ações, nos grandes e nos pequenos discursos. Porque sim, faz uma enorme diferença. De verdade.

Nossas pequenas falas tem um impacto imenso na vida dos que nos rodeiam. Assim como nossas ações.

Apenas algo pequenino, para refletirmos muito e sempre, ao longo de toda a nossa vida. <3

5 comentários no blog

  1. Camila em

    Passei/estou passando por algo parecido com o Vinícius. A diferença é que ele tem só 4 anos então não consigo precisar até que ponto a minha conversa com ele tem realmente efeito em tirar essas impressões negativas que falaram pra ele. Já conversei duas vezes com ele, mas acho que ainda não consegui fazer ele entender porque ele ainda vem me contar, triste, sobre o que o incomoda. Confesso que minha vontade é arrancar os olhos de quem cometeu bullying com ele, mas sei que provavelmente foram crianças que não aprenderam isso em casa. Respiro fundo. Fico me perguntando que mundo é esse em que fazem uma criança de QUATRO anos se sentir desconfortável em relação a alguma parte do seu corpo.Ele só tem quatro anos. É triste.

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    1. Diana respondeu Camila em

      Olá, Camila, me identifiquei com seu comentário. Tenho uma filha que fará 6anos em breve e desde os 3 ou 4anos diz não gostar dos cabelos cacheados e querer ter a pele mais branquinha. Isso nunca foi um assunto em casa, até porque como bons brasileiros, somos coloridos. O avó é mais moreno a avó branquinha… de forma natural ela sabe que a pele não define ninguém. Infelizmente na escola ouviu coisas ruins sobre si e sobre os outros. Fiquei triste, indignada, conversei com a escola… Infelizmente o estrago já foi feito e até hoje ela não aceita os cabelos, que são lindos, diga-se de passagem. Tento conversar com ela que cada um é bonito do seu jeito e que ela é muito amada e querida pelas suas amigas e principalmente por nós, seus pais, avós, dindos… Uma hora eles amadurecem, assim espero, e passam a aceitar suas características únicas como sua marca registrada. Beijo p vc.

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  2. Priscila em

    Adorei o texto. Vivenciei na minha infância essa imposição de padrões estéticos, inclusive da minha própria mãe. Meu pé era feio e grande (hoje em dia calço 39) minha bunda grande e chamativa etc. Enfim, hoje em dia me aceito muito bem, mas quando criança, era difícil me achar diferente e por algo tão simples. Agora adulta, dou graças a Deus ter meus pés para caminhar, meu bumbum para bem sentar e principalmente, ter saúde! Aos pequenos, temos que ensinar o repeito e nunca impor padrões, muito menos rótulos. Parabéns pelo texto!

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  3. Alice em

    Passei por isso na infância também. Infelizmente os principais críticos de plantão eram tios e tias. Isso teve um impacto enorme na minha vida. Somente agora, com 31 anos, aprendi/estou aprendendo que, como você disse, minhas características, meus gostos, minha personalidade é que me fazem especial e única. Que eu não tenho que ser uma xerox dos outros. E eu tenho o mesmo valor que todo mundo

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  4. Vivi em

    Obrigada, Michelle!
    Era tudo o que eu precisava ouvir hoje.
    Não dá pra acreditar e aceitar tudo o que falam sobre nós.
    Beijos

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