29 out 2012

Toxoplasmose – Gatos x Gravidez

A Boo está comigo desde quando tinha 1 mês. Hoje, com quase 5 anos, ela continua sendo um dos amores da minha vida.

Assim que descobri minha gravidez ouvi de muitas pessoas (bastante desinformadas, eu diria): “iiiih você vai ter que dar a sua gata! gatos passam doença para grávidas!”. Obviamente que conversei com meu obstetra, ele me orientou direitinho e ficamos eu e a Boo, juntas, seguras e felizes durante toda a minha gestação.

A Gracy Marcello, que já participou do blog como colaboradora, é veterinária e mãe do Davi, de pouco mais de 2 anos. Pedi que ela escrevesse sobre a toxoplasmose, a fim de esclarecermos esse mito de que o gato – e somente ele – é o vilão da toxoplasmose. Obrigada Gracy <3

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Devido à minha profissão, médica veterinária, mesmo antes de pensar em engravidar e me tornar mãe, eu sempre me interessei pela questão da Toxoplasmose, até porque, quando as pessoas sabem que você é estudante ou médica veterinária, sempre surgem essas questões quanto à doença e seu hospedeiro, o gato. As questões são sempre as mesmas: “Estou grávida, preciso me desfazer do meu gato?” “E do meu cão?” “Posso manipular as fezes?” “Fazer carinho?” “Deixá-lo dormir na minha cama?” Vamos por partes…

Pela visão técnica, a toxoplasmose é uma doença infecciosa, cujo agente é um protozoário, o Toxoplasma gondii e que tem como hospedeiro definitivo os felinos (o nosso gato doméstico e outros felídeos silvestres) e por hospedeiros intermediários qualquer outro animal homeotérmico (aqueles que são capazes de regular sua temperatura independentemente da temperatura ambiental), inclusive o gato. Isso quer dizer que o gato é a única espécie capaz de se contaminar com o protozoário pela boca e permitir sua reprodução no seu intestino e eliminá-lo nas fezes. Nos outros animais, inclusive em nós, seres humanos e nos gatos numa infecção posterior à primeira, quando o protozoário é ingerido, ele passa pelo intestino e através da nossa corrente sanguínea, faz cistos em outros pontos do organismo, principalmente nos músculos, nos olhos e no cérebro. Podendo ou não, dependendo da sua localização, causar sintomas.

O ciclo da doença funciona da seguinte maneira: O gato infectado elimina o cisto nas fezes, que se não forem coletadas e descartadas corretamente, podem contaminar o ambiente, a água, hortaliças (pensem em gatos que ficam soltos nas hortas). Esse cisto precisa ficar no ambiente cerca de três dias até se tornar infectante para que outro animal venha ingerí-lo. Quando outros animais, nós seres humanos, o cão, o gato a partir da segunda infecção, os bovinos (pensem em fazendas com gatos soltos pelo curral), ovinos, suínos e até animais silvestres como gambás e ratos comem alimentos contaminados pelas fezes de gatos que eliminaram o cisto nas fezes, se infectam fazendo os cistos nos músculos, olhos, cérebro e outros órgãos. O gato vai se infectar quando comer carne crua ou mal passada de animais que em vida foram contaminados e fizeram o cisto na musculatura, quando predar pequenos roedores ou quando comer algum alimento contaminado com fezes de outro gato que eliminou o cisto nas fezes. O gato pode também nascer infectado, caso a mãe dele tenha adquirido a doença na gravidez. Os outros animais enquanto hospedeiros intermediários se infectam da mesma forma, ou comendo carne crua ou mal passada, ou outros alimentos crus (hortaliças e verduras) contaminados com fezes de gatos.

Do livro Infectious Diseases of the Dog and Cat, autor Craig E. Greene.

O gato só é capaz de eliminar os cistos nas fezes uma única vez em sua vida, na fase aguda da doença por cerca de 15 dias, já que na próxima vez em que ele ingerir o cisto vai possui defesa imunológica (anticorpos) contra o Toxoplasma e não vai permitir sua multiplicação no intestino. Portanto, passa a se comportar como qualquer outro animal. A exceção ocorre em casos em que o gato esteja com o sistema imunitário comprometido, como é o caso dos felinos que possuem doenças virais como a leucemia felina (FeLV) e a “AIDS” felina (FIV).

Portanto, é importante ressaltar que para um gato de casa ou apartamento, que só come ração e nunca comeu carne crua a probabilidade de infecção é remota e mesmo que ele venha a adquirir o protozoário, só vai eliminá-lo nas fezes na primeira vez em que for infectado. O gato normalmente passa pela primeira infecção sem demonstrar sintomas, pode ficar um pouco inapetente, mais quietinho, a ponto de o proprietário nem perceber. No papel de hospedeiros intermediários, nós, e outros animais inclusive o gato, podemos apresentar sintomas dependendo da localização do cisto, como alterações oculares, incoordenação, convulsões, icterícia (pele amarelada), dentre outros. Para as grávidas, o problema maior é transmissão do parasita via placenta o que pode causar aborto caso a infecção ocorra no início da gravidez ou formação destes mesmos cistos no feto. É importante ressaltar que nenhum outro animal é capaz de transmitir o cisto nas fezes além do gato, portanto, os cães não se envolvem nesse processo, nós só conseguiríamos adquirir o protozoário a partir do cão caso venhamos a ingerir sua carne crua ou mal passada. E como o hábito de comer carne canina é um hábito chinês, nós brasileiros não corremos esse risco. O mesmo serve para os pombos. Eles são capazes de transmitir outras doenças importantes, mas a toxoplasmose não.

Para nós adquirirmos o protozoário a partir das fezes do gato que mora em nossa casa, temos que ingerir cistos que ficaram no ambiente por 3 dias ou mais a ponto de se tornarem infectantes. Uma possível via de contaminação é o próprio pêlo do gato, já que o gato tem o hábito de ser lamber, pode eventualmente lamber a região ao redor do seu ânus e espalhar o cisto pelo seu próprio pêlo. Ao acariciarmos o gato nessa condição específica, podemos adquirir o protozoário caso venhamos a levar a mão à boca em seguida. O mesmo risco ocorre quando os gatos deitam em nossas camas, podendo encostar a região do ânus nos lençóis. Entretanto, a maior via de contaminação da toxoplasmose humana é a carne crua e mal passada (bovina, suína, de frango) e hortaliças e verduras mal lavadas e higienizadas.

O exame que as mulheres grávidas fazem de rotina para saber se já tiveram a toxoplasmose ou estão atualmente com a doença é a sorologia. Normalmente, dosamos dois parâmetros diferentes, a IgM (anticorpo de infecção recente) e a IgG (anticorpo de memória). Caso dê IgM  e IgG negativos, você nunca teve contato com a toxoplasmose e deve tomar cuidado com as formas de infecção para não adquirir a infecção durante a gravidez. Caso dê IgM positivo, significa que você está atualmente infectada e isso é um risco para a gravidez. Caso dê apenas a IgG positivo é bom, pois você já teve contato com o Toxoplasma, provavelmente passou pela doenças sem sintomatologia, tem algum cisto pelo organismo mas não te causou mal algum e o melhor, caso venha a ter contato com o cisto agora, durante a gravidez, seu sistema imunológico vai lembrar do parasita e eliminá-lo antes que ele venha a formar cistos na sua placenta ou no seu bebê.

Para resumir, vou listar regrinhas básicas para que tenhamos uma boa convivência entre os gatos e as grávidas:

* Manter seu gato saudável: Quando souber da gravidez ou quando planejar uma gravidez, leve seu gato ao seu veterinário de confiança e peça para fazer um check-up incluindo exame clínico detalhado e exames de sangue como hemograma, sorologia para toxoplasmose (a mesma das grávidas) para saber se ele já teve a doença alguma vez e garantir que ele não vá justo agora adquirir e eliminar nas fezes e exame para diagnosticar as doenças virais citadas acima que podem causar deficiências no sistema imunológico do seu gato fazendo com que ele possa voltar a apresentar os cistos nas fezes.

* Não dar carne crua para o seu gato.

* Não permitir os hábitos de caça do seu gato.

* Oferecer ao gato apenas água filtrada ou fervida.

* Retirar as fezes da caixa de areia assim que detectá-las, evitando que fiquem por mais de três dias no ambiente, tempo que os cistos necessitam para se tornarem infectantes por via oral. O ideal é pedir para que outra pessoa da casa o faça. Para que a grávida não tenha contato com as fezes.

* Pedir para outra pessoa da casa escovar diariamente o pêlo do gato, retirando os cistos que ele possa ter espalhado no pelo ao se lamber.

E para você se proteger da toxoplasmose é importante também fazer os exames de sorologia de acordo com o pedido do seu obstetra, não comer carne crua ou mal passada, não comer frutas, verduras e hortaliças crus sem saber a procedência (de restaurante), lavar bem estes mesmos alimentos ao comê-los em casa e só beber água fervida ou filtrada.

No meu caso, quando eu engravidei, não tinha nem IgM e nem IgG para toxoplasmose e como sou patologista clínica veterinária, trabalho fazendo exames dos animais, inclusive de fezes. Nesse caso, além de todos os cuidados que relatei aqui, também deixei de fazer exames de fezes dos felinos que chegavam até o laboratório, deixava sempre para outra veterinária fazer e assim, evitei o contato – mesmo usando sempre luvas para processar os exames – com fezes de animais que eu não sabia a procedência e o estado de saúde.

Seguindo essas regrinhas básicas, não precisamos nos desfazer dos nossos bichanos, nem deixar de fazer carinho neles e nem de dar um denguinho na cama. Muitos médicos, por não entender bem o ciclo da doença, ou por excesso de zelo, ao saberem que a grávida tem gatos e até mesmo cães, às vezes indicam que a futura mamãe se desfaça dos seus bichinhos. Mantendo seu gatinho saudável, sabendo que ele não está atualmente eliminando os cistos, e controlando as formas de contágio para ele, a gravidez vai transcorrer sem problemas e com certeza, seu gatinho e seu bebê serão bons amigos num futuro bem próximo.

28 comentários no blog

  1. Paula Ambrosio em

    Como sempre, mais uma matéria ótima e super interessante!
    Essa foi pra acabar de vez com o dilema das gestantes com seus bichanos!!! Adorei!

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    1. Michelle Amorim respondeu Paula Ambrosio em

      Oi Paula!

      Que bom que você gostou! O texto da Gracy está super esclarecedor mesmo :)

      Bjo

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      1. Gracy Marcello respondeu Michelle Amorim em

        Oi, meninas! Que bom que gostaram! É sempre um prazer escrever aqui pro Vida Materna. <3

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  2. Carolina em

    Ótima essa matéria! esclarecer é a alma do negócio e mais que isso, evitar o abandono de animais e o sofrimento de ambas as partes!
    bjos

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    1. Gracy Marcello respondeu Carolina em

      Obrigada, Carolina. Com certeza o esclarecimento é a melhor maneira para entendermos as medidas de prevenção da doença. Que bom que gostou!

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  3. Sandra em

    A melhor matéria que já vi em toda minha vida. Vcs estão de parabéns. Qdo engravidei, pesquisei um pouco sobre o assunto, pois não queria me desfazer do meu cachorro, mas não tinha encontrado nada tão esclarecedor qto isso. Obrigada por compartilharem algo tão útil.

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    1. Gracy Marcello respondeu Sandra em

      Obrigada, Sandra!

      Me sinto no dever de esclarecer e essa foi a melhor maneira que encontrei. Bjs

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  4. Vanessa Mello em

    Muito boa a matéria. Mas se serve de sugestão, os textos da figura deveriam vir em português, pois nem todas as pessoas conseguem entender o que está escrito. Tive que ajudar uma prima de outro estado a entender tudo.
    E como já vi algumas outras imagens assim, acho que vale a sugestão.
    Mas, como sempre, a matéria é de excelente bom gosto e utilidade.

    ;)

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    1. Gracy Marcello respondeu Vanessa Mello em

      Ai, Vanessa… Eu tb fiquei com dó de publicar algo em inglês, mas não tinha nada tão legal em português. Tenho que tentar editar a figura. Obrigada pela sugestão!

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  5. Ana em

    Adorei a matéria Michelle, mas uma coisa que poucos sabem é que o gato transmite a doença por apenas 7 dias durante toda sua vida, e os dias variam de gato pra gato. (: beijos

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    1. Gracy Marcello respondeu Ana em

      Oi, Ana.

      Na verdade, o gato transmite por cerca de 15 dias, o que realmente pode variar com o estado de saúde geral dele, que está intimamente ligado à sua capacidade de combater agentes externos que causem doença. Que bom que gostou da matéria! Bjs

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  6. Mistelko em

    Sempre tive gatos e nunca tive toxoplasmose!! Tenho 3 peludos muito amados (os geekcats) e o mais difícil foi convencer a família de que não havia mal ficar com eles. Informação é tudo!! Parabéns!

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  7. Mamãe do Otávio em

    Legal saber, to louca pra ter um gato, mas sempre tive esse medinho da taxo.
    bjos

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  8. Foradocasulo em

    Oie, ótimo texto, como sempre o tema é de grande interesse. Te Acompanho há algum tempo e gosto muito do blog e por isso estou te convidando a participar de um meme lá no meu blog. É um movimento de algumas mamães blogueiras para se conhecerem melhor. Dá uma espiada lá.
    Bjo
    Adri

    Responder
    1. Michelle Amorim respondeu Foradocasulo em

      Oi Adri, tudo bem?

      Vou tentar participar sim, obrigada pelo convite! :)

      Bjo

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  9. Mirela em

    Esse tema é polêmico mesmo. Eu passei pela mesma situação pq tenho cinco gatos! E todos são criados dentro de apartamento, nunca tiveram acesso à rua ou ingeriram carne crua. Minha obstetra não me mandou dar nenhum, só aconselhou a não ficar agarrando muito eles e que evitasse limpar as caixinhas de areia, mas que se fosse necessário, era só usar luvas. Meu bebê nasceu no último dia 26, hoje estamos no 5º dia de vida e muito felizes com a chegada dele. E gatinhos morrendo de medo do bebê, rsrsrs… E passei a gravidez sem imunidade para toxo e não tive tbm!

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    1. Michelle Amorim respondeu Mirela em

      Parabéns Mirela!!! Tudo de melhor pra vocês! :)

      A Boo tbm tinha (e tem até hoje) medo da Mel.

      Bjo

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  10. Marizete Bueno em

    Oi, Gracy gostei da matéria estou querendo engravidar, aliás eu já engravidei só que tive um aborto, tenho uma gata e estou pensando em dar ela porque os meus exames de toxoplasmose deram negativos e moro em casa e a minha gata fica solta no quintal gosta de pegar passarinho e eu nem sei aonde ela faz as fezes dela, estou na duvida se dou ou não o que eu faço?

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    1. Gracy Marcello respondeu Marizete Bueno em

      Oi, Marizete.

      Só vi seu comentário agora… Espero que não seja tarde demais. Procure um veterinário para pedir o exame sorológico da Toxoplasmose na sua gatinha. Mantenha sua gatinha sempre saudável, isso é a segurança de que ela não passará a doença para vc.

      Bjs

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  11. luciana lima dos santos gadote em

    Oi,tenho seis gatos a maioria dorme na minha cama,acha que corro algum risco, agora que descobri que estou gravida quem limpa as fezes deles é meu esposo. Obrigado

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  12. Adriana Velame Branco em

    Em definitivo, cachorro não transmite toxoplasmose!

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  13. Cátia Isabel Silva em

    Muito esclarecedor. :) Obrigada

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  14. Cristiane Carlos em

    Que bom essas informações, pois estou grávida de 5 semana e tenho uma gatinha wue amo muito. Já estava triste com a possibilidade de ficar lo5dela.

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  15. Carla em

    Oi,tenho seis gatos a maioria dorme na minha cama,acha que corro algum risco, agora que descobri que estou gravida quem limpa as fezes deles é meu esposo

    Responder
  16. Roger Guedin Pizzetti em

    adorei a informações. Estou gravida de 4 semanas e tenho duas gatinhas, estava muito triste de pensar que poderia ter que ficar sem as duas.. Obrigada pelo belo esclarecimento…

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  17. Ju em

    Oi, me responde, por favor? Acabei de conhecer o blog e estou adorando!

    Se meus gatos são de apartamento e só comem ração, eu não preciso me preocupar? Uma delas já viveu solta há uns anos atrás, o outro foi resgatado filhotinho da rua. Eu não sei se eles já tiveram contato com a doença e nem queria levar ao veterinário só por isso. Como a doença só é transmitida pelas fezes por 15 dias, então agora, anos depois, eles não podem me infectar de jeito nenhum, certo? Só para confirmar se entendi direito. Obrigada!

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  18. Estefânia Mendes em

    Boa noite Grazi Marcello, estou de 29 semanas, e esse FDS foi no sítio e tinha gato, mais não peguei neles e nem tive contato com fezes ou urina meu bebé corre o risco de ser contaminado??
    Desde de já agradeço pela atenção, estou um pouco preocupada…

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