Categories: Nascimento & pós-parto

Sobre vaginas, partos e preconceitos

Normalmente, eu não me envolvo em assuntos polêmicos, por falta de tempo e para não me estressar mesmo, confesso. Mas, certos assuntos mexem comigo a ponto de ter que escrever sobre eles. É o caso desse post, porque, para mim, é um assunto que está diretamente ligado com um dos meus últimos textos, sobre censurar as atitudes e a personalidade de nossos filhos.

Desde crianças, nós mulheres aprendemos que nossa vagina deve ser escondida, que é algo feio, algo que causa estranhamento e constrangimento nas outras pessoas. Já o mesmo não se pode dizer dos meninos, que são (ou eram, espero) ensinados a idolatrar seus respectivos pênis. Pênis é legal, pode ser falado, mostrado. Vagina é feio, tem que ser escondido. Foi isso que eu (e não somente eu, com certeza) assimilei durante boa parte da minha vida, especialmente na infância e adolescência.

Por isso tantas pessoas se sentem incomodadas em ver mulheres parindo. Porque a vagina é feia.

Aí quando aparecem “textos” como esse, da tal Tati Bernardi, e causam tanta polêmica, percebo que os mesmos conceitos que me foram passados lá quando eu era criança, ainda estão sendo disseminados por aí. E por gente que poderia gastar esse mesmo tempo e “popularidade” com textos que agregassem alguma coisa bacana à vida das pessoas.

É óbvio que cada um tem o direito de ter e expressar sua opinião, de gostar ou não do que vê em sua timeline no Facebook. Eu não gosto de ver fotos de animais maltratados, por exemplo. E é óbvio que por vezes as pessoas não tem tanto bom senso no que postam ou expõe da sua vida. Mas, para mim, não é essa a questão em torno desse texto: da moça não gostar de ver fotos de partos, onde obviamente aparecem vaginas. A questão é que ela, a vagina, continua sendo tabu, continua sendo considerada “feia” e “ïnadequada”. Mesmo para as próprias mulheres. Mesmo quando o maior amor do mundo está vindo dali, da vagina.

Parto envolve sexo, vagina, sangue, fluidos, suor, dor e posições variadas, sim. E não tem nada de errado nisso nem no fato de alguém querer compartilhar esse momento. Já a escolha em ver ou não, essa sim, é toda sua, nossa.

Mesmo a moçoila dizendo no final do texto que não é machista e nem contra isso nem aquilo – e sim, apenas contra o oversharing de fotos desse tipo – ela satiriza SIM (com péssimo gosto, por sinal) o parto por via vaginal, o parto natural e o nascimento em si. Muitas pessoas concordam com a moça e dizem que o texto somente se refere ao que ela não curte ver na tela do seu computador. Mas, no meu entendimento de mãe e mulher, o texto é carregado de preconceito e ironias SIM.

As pessoas compartilham tanta coisa de mau gosto no facebook que, sinceramente, ver fotos de um nascimento via vaginal, com sangue, sem sangue, com bebê sujinho ou não, não deveria ser algo que incomoda as pessoas. Não mesmo.

A tal Tati não deve saber que a mulher que compartilha essas fotos não está compartilhando fotos da sua vagina (até poderia, porque afinal, a vagina é dela), mas sim, do nascimento do seu filho. Aí perguntam (como a tal Tati), “mas por que então não mostra só o resultado, o filho (já limpinho, de preferência)?” Porque para aquela mãe que compartilhou, aquela foto que a tal Tati chama de “xereca ao molho sugo com uma vidinha saindo de dentro”, quer dizer apenas que ela pariu uma vida e que tem orgulho disso, que está feliz por isso. Simples assim. 

Para mim, nascimentos, neste caso os que ocorrem por via vaginal, ou bebês sujinhos que acabaram de nascer, não tem nada de nojento ou incômodo, pelo contrário. São só amor. Só amor. E acho uma pena que muitas pessoas não enxerguem dessa forma e ainda publiquem em jornais de grande circulação textos vazios como esse.

Tanta mulher sofrendo violência obstétrica, tanta mulher sendo enganada e tendo seu parto roubado (veja o caso da Adelir, por exemplo) que cada uma que consegue parir da forma como desejava, indo contra o sistema e as estatísticas, quer mais é celebrar a sua vitória mesmo. Cada foto, cada vídeo de parto, tem muita importância na caminhada da humanização do nascimento, porque planta uma sementinha boa no coração de quem estava em dúvida.

Do parto do Leo não tenho fotos de “close” no momento do expulsivo (leia-se, da minha vagina). Até porque eu estava dentro da banheira e isso se tornou um pouco difícil. Mas é uma pena, porque eu sinceramente gostaria de tê-las. Ali, não havia nada de sujo, de constrangedor, nem de feio. Só havia amor, pode ter certeza.

Termino o texto dizendo que essa é a minha opinião, porque afinal, esse é o meu blog. Uma pena eu não poder terminar com uma foto dizendo “essa é a minha vagina parindo o meu filho”. A opção e intenção de postá-la é minha; a opção e julgamento em vê-la é sua.

Deixo aqui o link de um texto da Eliane Brum, que vale a pena ser lido:

Por que a imagem da vagina provoca horror?

Ps: Essa semana tem sido uma correria (mais do que o normal), por causa do batizado do Leo, que acontece neste domingo. Por isso, o meu sumiço. :/

* imagem de capa daqui.

comentários via facebook

19 comments

  1. ..e ela tentando escrever toda descolada..uóóó..
    Concordo com vc ..não quero ver sua xoxota gata..não olha e ponto!Agora uma ironia e banalização de uma coisa tão bacana não dá..

  2. Parabens pelo texto, você arrasou! Concordo com você e também penso que não tem fundamento a colação dessa infeliz mulher, pois o que entendemos ao ser mãe é que o amor por tudo o que acontece no parto é o que nós faz sentir verdadeiras mulheres, verdadeiras mães!

  3. Oi Michelli,
    Antes de ler seu post já tinha lido o tal texto dessa colunista. Também me causou grande estranhesa a forma ironica e maudosa com que ela se referiu a algo que deveria ser tão natural! Até pensei em mandar esse texto para vc e para outras blogueiras que assumem a bandeira da humanização e do protagonismo do parto e do nascimento. Parabéns pela clareza e respeito com que tratou o tema, e parabéns pela iniciativa de trazer a sensilidade deixada de lado pelo “famigerado” texto. Tenho te acompanhado a pouco tempo e adoro seu trabalho, parabéns mais uma vez e obrigada pelas grandes contribuições pessoais que vc já me deu em nossas conversas pelo email.
    Bjo grande Carol

  4. Realmente, o texto da Tati foi péssimo, um despropósito, um retrocesso. Michelli, eu gostaria de saber se você conhece alguma GO de Curitiba que seja beeeeemmmm a favor de parto normal, mas que seja mulher. Obrigada, Julia.

  5. Eu tbm já tinha lido quando vc publicou esse texto. Cada um tem uma forma de ver a coisa, mas acho que ela escrachou demais aos escrever. E por mais que ela defenda que não é contra o parto humanizado, mas a essa exposição da “vagina”, o jeito como foi colocado ficou agressivo. E se não quer ver, não olha… Simples assim!

  6. Clap, clap, clap…Parabéns!!

    PS.: Te vi toda linda com a cria na Revista Crescer e amei…Parabéns de novo! Você merece esse reconhecimento.

  7. Excelente texto Michelli!!!! Parabéns e obrigada! Compartilhei!

    Oi Julia eu sei da GO em Ctba Dra. Carla Batiuk (diz que foi indicação da Claudia Pascoale) e Dra. marianne Corbeta (não conheço mas sei que é a favor do normal). O meu foi com Dr. Álvaro Silveira Neto, excelente. Bjs

  8. Oi, Michelle
    Acompanho seu blog há um bom tempo, e gosto muito. Quanto ao parto, ele é totalmente pessoal, tanto a forma de fazê-lo quanto a opção de mostrá-lo, mas o que cabe a qualquer ser humano que se preze, no mínimo é o respeito.
    Vim aqui para te dizer o quanto foi importante ler um de seus post relatando a retirada da chupeta da Mel. Meu filho é um pouco mais novo, tem 3 anos e 5 meses, e o uso da chupeta me incomodava bastante. Pesquisei e li bastante, em busca de estratégias de como proceder nesse processo. Mas suas palavras foram fundamentais, principalmente quando disse que conseguiu a retirada da chupeta “sem mentiras, sem enganações, apenas com muito amor”, as palavras não foram bem essas, mas foi assim que as entendi. Então, eu e meu marido decidimos que havia chegado a hora de deixar a chupeta. Passei a semana toda conversando com o Pedro e avisando que seriam os últimos dias da peti, que ele já estava bem “grandão” …
    Então no domingo nós a abandonamos. Ele chorou um pouco e na hora de dormir, à noite, chorou muito. Foi uma longa noite, mas nós conseguimos. Na segunda-feira de manhã ele pediu novamente e eu disse que ele não teria mais, mas abracei-o com carinho. E foi passando, ele “esqueceu”.
    Amanhã fazem duas semanas e nem acredito que conseguimos, pois ele era muito apegado à chupeta.
    Obrigada pelas suas sábias palavras, pois o processo foi sem “trocas, enganações ou mentiras” foi na base da conscientização e no amadurecimento no nosso filhote.
    Desculpe o texto muito longo, mas não pude deixar de te agradecer e contar o quão importante o seu texto foi para mim. Obrigada, e tudo de bom, para você e sua linda família.

    1. Poxa vida, que bacana ler isso, Daniela! Fico muito feliz (mesmo) de ter ajudado com meu texto para que vocês retirassem a chupeta do Pedro. Parabéns pela coragem e pela conquista!

      E muito obrigada pelo carinho :)

      Bjo

  9. Gostei muito do seu texto, parabéns! Concordo plenamente. Da primeira vez que li o texto infame nem acreditei no que estava lendo… Pensei: Sério?! Em que ano estamos mesmo? Ás vezes parece que estamos andando para trás ao invés de para a frente…
    Gosto muito do seu blog, encontrei você pesquisando sobre partos normais em Curitiba, adorei os seus posts sobreo os seus partos… está difícil de encontrar GO que seja a favor e que atenda plano…
    Parabéns pelo blog
    Beijos

  10. pra quem nunca viveu a emoção da chegada de um bebê falar sobre parto se torna até ridículo. O problema, hoje, da internet é que todos ACHAM que têm informação e querem dar pitaco em assunto que desconhecem. falta de informação=ignorância. Essa mulher é uma anta, uma atrasada.. quis dar uma de cult e chutou o balde. Por isso as vezes falo pro meu marido.. eu deveria morar no meio do mato, sem internet e televisão porque, na boa, o que tem de ignorante no mundo não ta facil. e isso irrita, MUITO. Bjao

  11. Olá. Amei este post… É exatamente a minha opinião. Lutei muito por um parto normal, queria que fosse de qq forma parto normal… Acho tudo lindo e realmente era o meu sonho, mas por alguns problemas não foi possível. Será q posso compartilhar o seu texto? Passa lá no meu blog… Bjs, Pri maesemfrescura.blogspot.com

  12. A primeira vez que eu vi claramente um parto, ou uma xereca ao sugo como disse a outra, pensei….. poxa, ela tem muita coragem em postar tudo, acho que eu nao teria. E ao mesmo tempo fiquei super agredicida por ela permitir que eu assistisse aquele parto maravilhoso. Então fica meu muito obrigada a essas mulheres que colocaram o amor a cima de tudo e obrigada aos maridos tb. Quem nao quer ver, nao assisti. Eu mesmo demorei 7 dias pra abrir e assistir.

  13. o que mais me entristece é que nós mulheres não somos alvo apenas dos homens machistas. Somos alvos de mulheres também. As mulheres já sofreram tanto, já foram humilhadas, desvalorizadas por séculos e nos dias de hoje vemos mulheres julgando mulheres.
    Julgam nossa vida sexual, conjugal, maternal, e por aí vai.
    Dizem que a mulher é culpada pelo próprio estupro, ou pelo fato do marido a ter abandonado. Dizem que a mulher é culpada se o filho está doente, se está magro, se está gordo, se é mau caráter ou não…
    E no fim das contas ninguém sabe o que essa mulher, que está sendo julgada, está passando.
    Tem mulher que acha ruim uma outra mulher amamentando em público, porque acha que ela está se mostrando pro marido dela.
    é surreal! Quantas mulheres se sentem excluídas, culpadas e entram até em depressão por serem tão cobradas assim pela sociedade, inclusive por mulheres de suas famílias.
    Michele, muito bom seu texto!

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