07 jul 2016

Sobre encerrar ciclos, desapegar da perfeição e perdoar a nós mesmos

Dia desses em meio a uma conversa aleatória, uma grande amiga me disse que a minha velocidade de processamento das coisas é mais lenta que das outras pessoas. Isso me fez rir, pensar um bocado e questionar muito de mim também. Na verdade, acho que me reconheci ali, naquela frase, e passei a prestar mais atenção em como eu me comportava diante das mais diversas situações. Percebi que, justamente por causa desse processamento mais lento das informações, sentimentos e dilemas do dia a dia, preciso sempre passar por todo um processo antes de tomar um tombo, uma decisão, de levantar e seguir em frente.

Acho que tudo isso tem decorrência da necessidade enorme que tenho de entender as coisas, as pessoas, o mundo em si e, principalmente, de entender a mim mesma. Por isso, em todas as vezes que enfrentei alguma fase mais difícil – seja ela no terreno pessoal, amoroso, materno ou profissional – foi preciso passar pelas mesmas etapas de sempre: parar, analisar, sentir, olhar lá para dentro, chorar tudo que tiver para chorar, levantar, me perdoar e dizer adeus. Sempre tive esse sentimento de que, antes que qualquer mudança necessária aconteça, é preciso sofrer essa “perda”, passar pelo luto e, então, encerrar aquele ciclo. Ou, como li hoje bem por acaso num texto que circula pela internet e tem sua autoria atribuída a Paulo Coelho:

“Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração… e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar. Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.

Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda… Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo…”

Foi assim que me senti o início da semana, depois de ter chorado bastante escondida dentro do carro, logo após deixar as crianças na escola para a colônia de férias. Sim, talvez tenha sido o cansaço, talvez tenha sido a TPM mostrando suas garras afiadas, talvez tenham sido os hormônios que, no meu caso, andam bem bagunçados. Mas, pensando em algo maior, acredito que chorei por toda a frustração e por todas as imperfeições – tão difíceis de aceitar – que carrego no meu ser humano-mãe-mulher. E também pelas montanhas que me propus a escalar, pelos sucessos que ainda não consegui alcançar.

Por isso, sinto que antes que eu possa mudar o que precisa ser mudado, é necessário passar por todo esse processo… deixar a culpa ir embora, soltar as amarras, tirar todo peso que não me pertence dos ombros, desprender do que não deu certo, reaprender e me perdoar pelas falhas que tive. Tudo isso para que eu possa seguir em frente, mas de um jeito novo.

Nos últimos meses me senti falhando muito como mãe. Falta de paciência, de compreensão, de empatia, de comprometimento, de dedicação. Coisas pequenas, que talvez passassem desapercebidas dos demais. Contudo, algumas dessas pequenas falhas começaram a me incomodar muito e, depois de algum tempo, foram se tornando tão pesadas que passaram a desabonar todo o resto que eu fazia. Os feitos corretos, bonitos, carregados de dedicação e amor foram sendo sucumbidos por esses erros pequeninos, aqui e ali. De repente, tive aquele sentimento horrível de que não estava sendo a mãe que eu poderia, a mãe que eu queria ser. Veio então aquela parte do processo de negação, onde a gente acaba se vitimizando um pouco e simplesmente não sai do lugar.

Mas, eu sou uma mãe dedicada, amorosa, atenciosa… o que poderia estar dando errado, então? Seriam as minhas expectativas irreais e até inatingíveis acerca da maternidade e da vida? Seria meu grau de exigência comigo mesma alto demais?

Pois é. Infelizmente nós temos uma facilidade enorme em enxergar nossos erros e em tirar nossos méritos, não é? Até pelo contexto em que vivemos e pelas cobranças constantes dos demais, que cultuam a ideia equivocada e machista de que “isso é responsabilidade/culpa da mãe” (não vou entrar nesse assunto hoje, porque a problemática é grande demais para um mesmo texto). Por isso, para que aquele sentimento de “poxa, eu não estou sendo uma boa mãe” apareça, não precisa de muito não.

Mas a ficha acabou caindo novamente para mim, dizendo em alto e bom som que esses pequenos erros irão ocorrer sim, porque maternidade e perfeição simplesmente não podem coexistir. Que é impossível manter alguma sanidade mental e equilíbrio emocional tentando dar conta de muito mais do que poderíamos. Que não é somente nossa essa responsabilidade toda e que, se não formos cuidadas também – por nós mesmas, pelos outros – jamais poderemos cuidar realmente bem dos demais.

Eu sou mãe há quase 6 anos e me sinto como uma aprendiz ainda. Aprendo coisas novas todos os dias. Analiso e reaprendo aquelas que eu jurava que já sabia. Mudo de ideia, de opinião, de ponto de vista constantemente. Então, antes de fechar esse ciclo de entendimento e iniciar o próximo, eu me perdoo.

Eu me perdoo pelas vezes que dei menos atenção a eles do que poderia. Pelas vezes que não consegui me doar em partes iguais. Pelas vezes que perdi a paciência e gritei. Pelas vezes que não fui a adulta que deveria ter sido. Pelas vezes que fui injusta com um, com o outro, com os dois. Pelas vezes que demonstrei raiva ou descontentamento pelas atitudes infantis (e tão cheias de razão de ser!) de ambos. Pelas vezes que deixei dormirem sem banho ou sem escovar os dentes porque estava muito cansada para comprar essa briga. Pelas vezes que deixei de ler para eles porque preferi gastar esse tempo com coisas menos importantes. Pelas vezes que servi aquele almoço ou jantar bem mais ou menos porque fui desorganizada com meus horários e afazeres. Pelas vezes que os apressei por estarmos atrasados, por falta de um melhor planejamento meu. Pelos biscoitos dados fora de hora só para evitar o choro. Pelas vezes que dei qualquer resposta aos questionamentos infinitos deles porque estava muito irritada para conversar. Pelas vezes que os deixei vendo mais tv do que gostaria porque precisava de um pouco de silêncio para ouvir meus próprios pensamentos. Pelas vezes que não lhes dei o tempo necessário para compreenderem as regras. Pelas vezes que tive que passar meu tempo limpando a casa ou guardando a bagunça ao invés de brincar e rolar com eles no chão. Pelas vezes que não permiti alguma atividade por medo da sujeira. Pelas vezes que disse sim quando deveria dizer não. Pelas vezes que disse não quando deveria dizer sim. Pelas vezes que sufoquei a criança dentro de mim e deixei de aproveitar a vida ao lado deles como deveria.

Mas eu também me perdôo pela inocência de ter achado que eu daria conta de tudo. Por ter assumido muito mais responsabilidades do que deveria. Por querer carregar o mundo nas costas e, de certa forma, facilitar a vida dos demais. Por achar que sou insubstituível ou que os outros não fariam as coisas tão bem quanto eu. Por não ter conseguido delegar e exigir mais de quem também deve ser responsável. Por não ter cuidado mais da minha saúde. Por ter exigido demais de mim mesma e levado as coisas ao limite outra vez. Por ter me subestimado em diversos aspectos. Por ter achado que sabia tudo em outros. E, finalmente, por ter demorado um pouco para sair desse emaranhado todo com uma certeza: eu fui a melhor mãe que poderia ter sido naquele espaço de tempo.

Hoje, então, eu encerro alguns círculos viciosos que nada mais fazem do que sabotar os meus objetivos, a minha auto estima, as minhas virtudes e as minhas escolhas. Desprendo do meu corpo e da minha alma a preguiça, a procrastinação, a negação e os pensamentos que paralisam. Desvinculo de vez maternidade e perfeição, porque é impossível sobreviver dentro desse contexto. E, acima de tudo, eu me perdoo – por tudo e por nada.

… parar, analisar, sentir, olhar lá para dentro, chorar tudo que tiver para chorar, levantar, perdoar, dizer adeus. Pronto. Agora posso mudar o que precisa ser mudado, melhorar o que pode ser melhorado.

Se vou pegar a estrada errada novamente? Com certeza. Somos seres humanos em evolução (constante, eu espero!). Mas, se pudesse pedir algo, seria:

“Concedei-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar; coragem para mudar as que posso e sabedoria para reconhecer a diferença”. – the serenity prayer

19 comentários no blog

  1. Michelle em

    Pra aliviar meu coração! ❤ Obrigada Mi!

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    1. Michelle Amorim respondeu Michelle em

      Que bom Mi! Obrigada você querida <3

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  2. Ana Eliza Martelli em

    Simplesmente você consegue expor em palavras o que toda mãe sente. Tudo o que precisava ler hoje!!! Não somos perfeitas, nunca seremos. Acho que esses sentimentos que nos rondam, e que as vezes até chegam doer fazem parte do processo de nossa evolução. Boas energias pra você Michelle, beijinhos!

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    1. Michelle Amorim respondeu Ana Eliza Martelli em

      COm certeza Ana. Obrigada pelo carinho e por comentar <3

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  3. Tati em

    Adorei!!! É como se o texto tivesse sido escrito pra mim, tenho uma filha de quase 3 anos e as vezes me sinto assim mesmo cansada, uma péssima mãe, mas este texto me fez repensar várias coisas. Parabéns pelo seu blog e obrigada por dividir um pouco de sua vida materna.

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    1. Michelle Amorim respondeu Tati em

      Obrigada por comentar Tati! O intuito dos textos é sempre esse: fazer repensar coisas que às vezes estão sendo vistas por outros ângulos :)

      Bjo

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  4. li em

    e durante toda escalada muitas pessoas vão te dar a mão e falar: Vamos lá
    amiga!! bola pra frente … texto lindo,
    mas o que sairia de alguem tao especial senão isso ?

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    1. Michelle Amorim respondeu li em

      Obrigada Li <3

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  5. Diana Singer em

    Adoro acabar a noite lendo seus textos, sempre tao verdadeiros e com um essência única! Vc tem o dom de escrever tudo aquilo que sentimos e não conseguimos expressar… e fazer pensar… Adorei ❤️

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    1. Michelle Amorim respondeu Diana Singer em

      Obrigada Daiana! <3

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  6. Daniela em

    Michelle, seu texto me tocou muito. Sofri um abortamento espontâneo em fevereiro desse ano e, devido ao luto que ainda carrego (e acho que sempre carregarei), acabei não dando atenção ao meu outro filho (que hj tem 13 anos).
    O seu post me fez refletir tb por esse processo que estou vivendo, sobre não me culpar, me perdoar e dizer adeus…para realmente poder ao menos tentar fechar um ciclo e iniciar outro. Obrigada <3

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  7. Carolina em

    Olá Michele! Acompanho seu blog há algum tempo e adoro todos os textos. Você é maravilhosa quando escreve, sabe bem dos nossos sentimentos de mãe.
    Eu estou começando um blog muito timidamente para discutir sobre maternidade também. O nome dele é Tempos de Mãe (temposdemae.com.br).
    Até o momento não recebi muitas visitas mas estou bem contente.
    Parabéns pelo seu blog que é lindo e muito legal!
    Bjo!

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  8. Paula William Pereira Cadete em

    Tenho 3 filhos, me vi nesse texto, tenho muita dificuldade em delegar e me culpo o tempo todo. Obrigada, seu texto me fez enxergar que sou mãe, mas acima de tudo humana, com erros e acertos, porém imperfeita.

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  9. Michele em

    Mi,
    Te entendo perfeitamente, a maternidade é uma eterna cadeira de aprendizagem, não é?
    Eu passei por um problema parecido com uma problematica ainda pior: meu filho entrou no espectro autista.
    Me achei a pior das mães por não ter percebido isso, chorei, neguei, aeitei passei por todos os estágios…e isso a caçula crescendo…mas Deus é o maior e melhor dos médicos e me fez parar no médico certo, que disse q ele tem um falha congenita que “parece” ser autista mas não é. Com o tempo o proprio organismo vai se desenvolvendo…
    mas os choros, as birras, a agressividade estavam lá…tive q relaxar e entender q meu filhote cresceu, responde a tudo e q eu sou a adulta na coisa toda. Conheci a Janet Landsburry, pela Flávia Calina ( sempre recomendo ela para as mães), com cards mostrando quem é o adulto.https://www.youtube.com/watch?v=v6Nc-v1DIKo
    Recomendo também o blog da Janet Landsburry, https://translate.google.com.br/translate?hl=pt-BR&sl=en&u=http://www.janetlansbury.com/&prev=search
    Conviver com as crianças demanda muita atenção mesmo, mas tive um sonho muito intrigante…eu estava com um casal de amigos, fazendo coisas que os casais fazem churrasco, fofoca passeio em shopping e as minhas crianças sozinhas…sei que foi um sonho baseado na culpa que temos, mas entendi que o tempo das crianças é diferente do nosso, toda a infancia fica guardada na memória…
    Como diz aquela frase no fim do filme o tira no jardim de infância: “Agora você pode voltar para seus bêbados e vadias.” Referindo-se ao trabalho dele como policial.
    E essencial se perdoar sim, pois não somos máquinas e a vida não é a nossa expectativa. Mas estamos criando pessoas para um novo tempo.

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  10. Lorena Colares em

    E quando por vezes achamos que estamos sozinhas nesse barco, nos deparamos com um texto desses e percebemos que nesse barco cabe muita gente e que assim, dividindo a dor, angústia e frustração, o fardo fica bem mais leve e seguir em frente é necessário.

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  11. Débora em

    Michelle, vivo me sentindo assim constantemente. Tenho apenas uma filha, ela tem alergia a leite e a outros alimentos também… Essa situação me deixa sempre como se estivesse vivendo no limite, vivo me cobrando e na maioria das vezes não alcanço o êxito que queria… mas tenho a consciência que tenho tentado dar o meu melhor, mesmo que ainda não esteja no ideal desejado, mas estou em busca. Obrigada pelo texto, traduziu também os meus sentimentos e creio que de várias outras mães. Espero que todas nós encontremos o meio termo já que não conseguiremos ser perfeitas! bjs

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  12. Juliana em

    estava louca para ler esse texto e ainda nao havia conseguido parar pra ler com calma.
    eu passo o tempo todo me cobrando. e as vezes tenho a sensação que blogs maternos, em sua maioria, me deixam mais frustradas ainda (sabe como? todas parecem perfeitas e lindas e magras e e e. enquanto eu nao perco minha barriga nunca e estou cheia de celulites, impaciente e com espinhas aos quase 33).
    mesmo q muitas coloquem aquele papo de “ah mas nem tudo é flores. a grama nao é mais verde. enfim, voce deve saber o q estou falando.. AINDA assim sempre me poe pra baixo. e me faz continuar com as cobranças.. parar pra pensar sempre ajuda. mas tem dia que fica complicado mesmo. hehe

    obrigada por compartilhar teus desafios maternos.. sinceramente é muito bom ler textos q me fazem perceber que, além de mãe, sou humana. Beijos!

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  13. Camila Cruz em

    Michele, você sempre expressa perfeitamente a maternidade. Seus filhos tem praticamente a mesma idade dos meus e meus medos e dilemas são os mesmos. Obrigada por não nos fazer sentir pessimas mães e por aliviar nosso fardo com lindas palavras. Sempre choro lendo seus textos. Deus te abençoe muito e toda a sua familia.

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  14. Letícia em

    Incrível o texto. Meus parabéns!! sua blog é sensacional. Tenho duas filhas, Iza com 8 anos e Pérolla com 7 meses e me sinto exatamente assim, preciso me perdoar por as vezes não dá conta dessa vida materna. bjos

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