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Sobre a tal maternidade real, palco e bastidores

Esses dias postei esse registro — numa das raras manhãs em que eles acordaram cedo e não me ferveram a vida — e fiquei pensando: “olhando assim, até dá para acreditar que essas crianças de semblante tranquilo e olhar plácido não brigam quase o tempo to-do, to-do santo dia”. De repente me deu aquele estalo: “será? será que eu dou essa impressão com as minhas postagens no Instagram? de vida perfeitinha com tudo no seu devido lugar?” … 

Faz um tempo já que o termo e a hashtag “maternidade real” vêm sendo muito usados lá no Instagram. E, apesar de eu falar sobre maternidade,  eu nunca usei essa hashtag nem essa fala, justamente por não me identificar muito com ela. Para falar a verdade, eu tenho um pé atrás com statements (afirmações de visões ou fatos) em geral. E, nesse caso da maternidade, não poderia ser diferente, porque, afinal, há quem possa dizer então que eu não me enquadro dentro da tal “maternidade real” ao olhar superficialmente as minhas postagens.

Essa é uma reflexão de como eu me sinto a respeito disso (e vou ficar bem feliz se você me contar também como se sente e como encara tudo isso).

 

Mas, o que é essa maternidade real? É aquela onde tem mãe cansada, com olheiras e que perde a paciência de vez em quando? Filho que chora, que faz birra e que não quer comer o brócolis? Casa com chão para limpar e louça para lavar em ciclos sem fim? Opa, mas isso tudo tem aqui também — e aposto que aí é igual, não é? Acontece que algumas pessoas vão mostrar esses momentos e outras não – e tá tudo bem. A vida (e a maternidade) continua sendo real e acontecendo em ambos os casos – seja ela mostrada no seu estado nu, cru e caótico; seja ela mostrada com louça lavada, rímel nos olhos e crianças sorridentes.

Quando a gente compartilha uma foto onde tá tudo lindo, alegre e alinhado, não significa que o feio, o triste e o bagunçado não existem. nem que a gente quer escondÊ-los ou fingir que não existem.

 

Nas redes sociais, a gente tem o poder de filtrar o que passa pela peneira do nosso julgamento (e do nosso bom senso, espero!) e o que não tem. Nas redes sociais, a gente tem o poder de escolher mostrar apenas pequenos fragmentos da nossa vida e do nosso dia a dia — algo que não deixa com que as pessoas conheçam nem vinte por cento de quem nós somos ou do que vivemos — ou de mostrar um pedaço maior da nossa vida. São escolhas. E são as nossas escolhas.

Pra mim, essas escolhas mostradasgeralmente as mais bonitas, com os melhores ângulos e nos momentos mais propícios para serem registradasnão são de forma alguma falsas ou ilegítimas quando comparadas às outras escolhas – aquelas que foram filtradas e ficaram lá na nossa peneira do julgamento, da escolha ou do bom senso – ou seja, aquelas que a gente escolheu não publicar. Ambas as situações são “reais”: com filtro ou sem filtro, com poucas ou muitas palavras, com pouca ou muita bagunça, com pouca ou muita olheira.

O que a gente não pode e não precisa jamais é “comparar o palco dos outros com os nossos bastidores”

Li essa frase dia desses no Insta da Mirian Bottan e achei perfeita. Eu acrescentaria ainda que: toda vida tem bastidores – mesmo que a gente não os mostre a todo momento nas redes sociais.

Sei que muitas pessoas optam por mostrar muito das suas rotinas nas redes sociais justamente porque isso as aproxima de quem assiste; são momentos bons, ruins, engraçados — e isso inclui a rotina dos filhos também. São escolhas, que merecem ser igualmente respeitadas. Mas também existem as pessoas que, assim como eu, escolheram usar um filtro maior em relação ao que mostrar. Pra gente deixar tudo mais lúdico e didático: sabem aqueles filtros de papel que a gente usa para passar o café? Então, com relação às redes sociais, tem gente que usa o pequeno, tem gente que usa o médio e tem gente que usa o grande. Porque, mais uma vez, a gente pode escolher quanto café quer passar, entendem? :)

Com relação a rotina dos pequenos aqui em casa e até ao meu casamento, eu escolho ora o filtro pequeno, ora o filtro médio – porque essa é a forma como eu me sinto confortável fazendo isso. Afinal, eu escolhi compartilhar os meus momentos, pensamentos e tornar público um pedaço da minha vida — tanto no blog quanto nas redes sociais — mas eles não, eles entram de gaiato nessa história. Ainda penso bastante sobre esse assunto (de expor um pouco da vidinha das crianças que ainda não tem o mesmo senso de julgamento que eu), contudo, por agora tenho tentado pensar que faço esses compartilhamentos de coração, sempre cheios de amor, de orgulho, de saudade já e de boas intenções. Mas, novamente, essa é apenas a forma como eu encaro e lido com esse assunto.

Aqui no blog eu sempre escrevi de forma totalmente honesta, sincera e visceral até — vocês bem sabem. Conto sobre as alegrias, os desafios, os erros, os perrengues todos e os inúmeros aprendizados que ocorreram nesses anos de vida materna. Já o Instagram é como um precioso album de memórias pra mim. Um lugar onde eu quero guardar os momentos mais lindos e significativos que a gente tiver a sorte de vivenciar nos nossos dias. Além de tudo isso, eu amo fotografia. Acabo sempre — e inevitavelmente — buscando por aquele clique especial. Percebo a luz, o ângulo, o posicionamento, o espaço, as nuances, as cores e acima de tudo, as possibilidades. Então é natural que as fotos publicadas sejam o meu “palco” e não os meus bastidores — embora eu tente sempre equilibrar o lado a e o lado b da maternidade, especialmente nos meus textos e nas minhas legendas.

E olha, eu entendo o quanto nos abraça o fato de percebermos que as outras pessoas — especialmente as outras mães — vivem os mesmos desafios, têm as mesmas impotências e as mesmas frustrações que nós.

 

Por esse motivo, nunca tive medo de expor as minhas fraquezas e os meus erros. Porque sei que acalenta aquele coração apertado que muitas vezes duvida se está fazendo o seu melhor ou não. Eu sei porque sinto isso também. Contudo, eu nunca me senti mal por ver alguém vivendo aquilo que a gente poderia chamar de vidão nem me senti menos triste ou frustrada vendo alguém enfrentando problemas. Sabe por quê? Porque são vidas. E vidas e pessoas são diferentes. E justamente por esse motivo pode ter um monte de gente que se sente diferente de mim. E tudo bem, também — porque, mais uma vez, a gente pode escolher não só o que publicar mas (principalmente!) o que queremos ver nas redes sociais. Aí está a graça da coisa toda. Escolhas, possibilidades.

Eu gosto de pensar assim: na maternidade e na vida, seja quando vamos preparadas, paramentadas e inspiradas para o palco, seja quando corremos, ensaiamos e erramos as falas nos bastidores… é real, é vida. E o mais importante: é a vida de cada um – com momentos lindos ou não tão fotogênicos assim, calmos ou caóticos, serenos ou estressados, que ficaram na peneira ou que foram publicados.

Então, não vamos esquecer: o Instagram é um palco. Mas até aquela vida que parece perfeita demais para ser verdade, tem bastidores também.

No próximo texto…

um pouco dos bastidores da minha maternidade.

 

Agora, pega aquela xícara de qualquer coisa quentinha e me conta: como você se sente em relação à tudo isso que a gente conversou hoje?

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3 comments

  1. Aqui em casa é uma bagunça quase todo dia, lego espalhado, farelo no chão, roupa jogada. Mas quando tem visita a casa está impecável, não pq quero esconder a bagunça mas pq a gente se esforça quando alguém se dá o trabalho de visitar. As duas realidades são minhas. E o instagram é assim tb, a gente sabe que por trás daquela foto perfeita do feed, tem criança chorando, tem bagunça e tem irmãos brigando. Mas assim como arrumar a casa quando vem um amigo ou parente a gente arruma o feed para a visita virtual😉

  2. Eu acho legal debater esse assunto sobre maternidade real porque podemos entre nós mães encontrar um conforto um alivio em saber que não sou a unica que não conseguiu lavar a louça ontem, que se distraiu por tanto tempo na lavanderia com calçados e roupas pra lavar que quando entrei na cozinha meu filho estava sentado na mesa com o saco de pão, comendo pão puro e ainda me pergunta, mãe a gente não vai janta? eu to com fome! kkkk Desci do carro hj de manha segurando um guarda chuva bolsa agenda que não coube dentro da bolsa o celular, chave do carro e uma banana porque não deu tempo de tomar café em casa, sentei na minha mesa pensando que em meio a esse caos eu não paro de pensar no planejamento para o segundo filho, kkkkk e por mais que a gente tente se organizar sempre tem coisas pendentes . Usamos o filtro porque tem uma lado incrível e maravilhoso em ser mãe e queremos mostrar essa alegria, apesar de toda essa bagunça e correria, aquele sorriso meio sonolento no fim da noite, aquele denguinho cheiroso de manha com preguiça de levantar, a alegria quando nos vê na porta da sala da escolinha de tarde, a carinha que ele faz quando pede um bolo de chocolate, as vezes eu quero sair correndo e ao mesmo tempo não imagino mais viver sem essa bagunça kkk

  3. Cá estou com a minha xícara imaginária cheia de coca-cola e com um amor por esse texto. Toda maternidade é real, seja ela perfeitinha ou um caos. Mas sim sinto que as vezes ficamos presas nesse conceito de que a maternidade real é essa vida corrida que nos dá lugar aos brinquedos espalhados, loiça por lavar, cabelo por arranjar e tudo o resto. Quando eu chego nessa fase, sinto-me horrível, como se não tivesse controle da situação. E daí começa a avaliar a rotina e tentar colocar a ordem novamente. Não é fácil ter a vida em ordem, manter tudo bonitinho. Mas já pensaram como nos escondemos nessa máscara de maternidade real para proscrastinar ou adiar a vida organizada?

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