11 jul 2016

Para que eles amadureçam no seu próprio tempo

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Quando nossos bebês chegam às nossas vidas, já temos uma certa consciência de que eles nascem e precisam aprender absolutamente tudo. Desde respirar, sugar, engolir, ouvir, movimentar as diferentes partes do seu corpo até dormir – todas as necessidades mais básicas de um ser humano, devem ser aprendidas. Tudo é novo para eles, e, com esse grande trabalho pela frente, não precisam de nada mais do que apoio e carinho, condição, e, acima de tudo, do tempo deles.

Com isso, fui aprendendo a limitar meus impulsos de interferir e minhas tentativas de facilitar as coisas para os meus filhos. Aprendi a ser mais paciente e apenas observar as tarefas que eles cismavam em fazer sozinhos, mas que ainda não dominavam totalmente. E, quando eles precisam da minha ajuda, eu estou sempre ao lado para dar uma mãozinha ou aquele empurrãozinho que faltava.

Ocorre que, conforme o tempo vai passando e os pequenos vão crescendo, vamos esquecendo de dar-lhes esse tempo tão precioso e necessário para que continuem aprendendo e experimentando situações e sentimentos novos até então. Passamos a sentir novamente aquela ansiedade de quando eram bebês e desejávamos que eles engatinhassem, andassem ou falassem logo. Agora, a ansiedade se dá acerca do amadurecimento e da consciência que gostaríamos que eles adquirissem.

Percebi isso há pouco tempo. Vi que Mel estava tendo suas atitudes “de criança maior e de irmã mais velha” sendo cobradas com frequência. Estava tendo alguns de seus comportamentos infantis questionados, porque, na nossa cabeça, não faziam mais parte da faixa etária que ela se encontrava. Mas não é dessa forma que as coisas acontecem. Por mais que ela já esteja beirando seus 6 anos de idade, continua sendo apenas uma criança. E, como tal, precisa de tempo para crescer, amadurecer, formar seu caráter e sua personalidade. Do tempo dela e não do que julgamos ideal, porque cada criança é única, sem fórmula certa de criação.

Muitas vezes, a vida nos exige um amadurecimento repentino, por situações que não poderíamos prever. O mesmo acontece com nossos filhos. Uma mudança de casa, de cidade, de escola, um novo irmão que chega, uma separação ou a ausência de alguém muito querido. Tudo isso os obriga a amadurecer mais rápido, a aprender a lidar com um turbilhão de sentimentos de uma só vez. Mas, para todas as outras situações, acredito que deva haver aquele espaço, tempo e condição que falamos lá no início do texto. Para que eles possam assimilar no seu próprio ritmo, como a vida acontece, como relacionamentos de amor, amizade e irmandade são construídos, tijolo por tijolo.

Desde então, parei de olhar para Mel como a irmã mais velha, como a criança que já é grande. Por hora, ela é uma criança apenas, a minha criança – que se desequilibra, que cai, que chora, que se frustra, que faz algumas birras, que sente ciúmes do irmão menor de vez em quando e que precisa chamar a nossa atenção quando algo está lhe faltando.

A cada atitude que não sai como eu gostaria, a cada comportamento que é considerado errado, tento lembrar que ela está aprendendo, experimentando, alimentando a sementinha do adulto que ela será num futuro bem próximo. Contudo, é algo que precisa ser constantemente trabalhado, porque tendemos a esquecer novamente. Como pais, temos o dever de guiá-los pelo melhor caminho, de educá-los para que respeitem a si mesmos e ao próximo da mesma forma. Mas sempre dando esse espaço e esse tempo para que eles possam aprender por si mesmos também.

Sabemos, por experiência própria, que não é fácil crescer, dividir a vida com irmãos, aprender a ser amigo, a seguir as regras, a lidar com as expectativas que os outros têm a nosso respeito. Esse caminho pode ser mais leve se as pessoas que nos acompanham nos concederem o tempo necessário para cada uma das etapas que devemos percorrer. E cada indivíduo possui o seu próprio tempo, especialmente os pequenos. Por isso, vamos crescer juntos, sem pressa. Sem exigir comportamentos tão racionais nesses pequenos seres humanos que são puro sentimento, ação e coração.

Vai lá filha, rumo ao seu amadurecimento. No seu tempo. A infância é uma só e merece ser vivida intensamente, sem acelerar, sem pular etapas.

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6 comentários no blog

  1. Livia em

    Texto lindo e verdadeiro….?

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  2. Paula Porto Pires Rocha em

    Ótimo texto Michelle, obrigada! Eu converso muito com minha filha de 3 aninhos, e sempre cobrando atitudes e ações de acordo com a idade dela ex as vezes até mais por ser uma criança madura. Hoje meu coração partiu quando ela falou: Mamãe eu queria voltar a ser bebê … Perguntei por qual motivo? Para ficar no seu colinho. Lendo seu texto pude Refletir bastante . Bjks!

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  3. Daiana em

    Aff, estou passando exatamente por isso com uma filha de 5 e pouco e um de quase 2 anos… Muitas vezes me pego dando responsabilidades para ela que não são dela …. Essa falta de tempo e de saber esperar, ouvir, aconselhar, ensinar, só me enche de culpa… Estou tentando observar “de fora” esses momentos pra tentar resolver melhor.,, mas não é fácil ? Bjs e obrigada mais uma vez pelo seu belo texto ???

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  4. Luciete Lemos em

    Otimo texto

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  5. Telma Teixeira em

    Ai Michelle, não tem sido fácil enxergarmos nossas crianças como crianças. Textos assim nos fazem parar para refletir, enxergarmos o que estamos fazendo e o que podemos fazer.
    Sabe que aqui em casa as coisas até que correm de maneira “certa” mas, observando outras crianças da família que tem a mesma idade das meninas e até mesmo os amiguinhos, comecei a questionar se as meninas não estavam “infatis” demais, já que os que nos cercam demonstram comportamento mais adulto. As meninas tem uma inocência e ingenuidade muito bonitinha, apropriada para os quase 6 anos mas que comecei a achar que estava demais, e por vezes quis acelerar o crescimento delas. Conversando com meu marido chegamos a conclusão de que elas agem como criança e só, que não devemos acelerar nada e que tudo tem o seu momento.

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  6. Marianna Melo em

    Que texto maravilhoso! Que possamos sempre lembrar e nos policiar de respeitar o tempo de nossos filhos.

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