14 nov 2017

Para aqueles dias em que não conseguimos fazer o nosso melhor

Estive aqui pensando no nosso dia a dia nos últimos meses, especialmente com relação ao desenvolvimento e crescimento dos dois, Leo e Mel. Ambos já são crianças grandes – como eles gostam de frisar – um beirando os 4 e outro aos 7 anos de idade. Sim, passa rápido demais e muita coisa mudou nesse período em que o tempo maroto teimou em continuar voando.

Leonardo esteve bastante difícil de lidar e exigiu paciência para tentarmos realmente compreendê-lo. Foram muitas as vezes em que ele chorou sem dar trégua (e sem motivo real – para aqueles que viam de fora) e inúmeras outras em que ele se frustrou porque a vida simplesmente não gira ao redor do seu pequeno umbigo. Além disso, desde que deixou o berço para dormir na sua caminha, ele tem dado trabalho durante as madrugadas. Sei que andei questionando seriamente se os “terríveis” foram os two ou são os three (ou os four, quem sabe).

Já a Melanie teve aquele boom de desenvolvimento  – e de tamanho, porque, meu Deus, como essa menina esticou nos últimos meses! Ela passou a ter mais responsabilidades e obrigações, estando agora no segundo ano do ensino fundamental, e também passou a contestar tudo que a vida lhe apresenta – inclusive as nossas posições como pais e educadores. Reconheço muito de mim mesma na argumentatividade dela e na ânsia por entender o por quê das coisas. É algo não tão fácil de se lidar aos sete anos de idade, mas, por outro lado, me faz sentir estarmos no caminho certo também.

Foram tempos e fases bem complicadas por aqui e me peguei pensando em como saí dessas tempestades com meia dúzia de arranhões apenas. Então me dei conta de algo que já tem acontecido há algum tempo. Eu aceitei que nem sempre conseguirei fazer o meu melhor. Aceitei assim, de verdade mesmo. E me perdoei por aceitar isso. Da mesma forma, parei de me cobrar e correr atrás daquela perfeição boba que a gente acha que deve alcançar sendo mãe. Porque, afinal, se a criança não come salada, se foi mal educada, se bate no coleguinha, se não divide seus brinquedos, se é tímida ou bagunceira, a culpa é sempre da mãe, não é? Porque “com cada mãe nasce também uma culpa”, não é isso que dizem por aí? Obviamente para a maior parte do mundo, a gente deve se sentir culpada por qualquer coisa que saia fora do traçado considerado ideal.

Pois é. Muitas vezes ser mulher, ser mãe, é pesado, cruel, injusto. Não bastasse a imensa responsabilidade que nós naturalmente já temos, a gente assume para si culpas que nem são verdadeiramente nossas. Contudo, não precisa ser assim e a gente começa mudando isso dentro de nós mesmas, com as nossas próprias cobranças e exigências internas.

Com o passar do tempo, fui aceitando que por mais que eu tente arduamente – e todos os dias – oferecer e doar o meu melhor para os meus filhos, nem sempre irei conseguir. Aquela rotina bem estruturada e previsível que a gente mantém para o bem de todos os envolvidos, muitas vezes não acontece como planejamos – seja por imprevistos do dia a dia ou pela imprevisibilidade das pessoas mesmo. Especialmente as crianças, que num dia podem colaborar e fazer com que tudo corra de forma tranquila e no outro podem transformar a tarefa mais rotineira num verdadeiro caos.

Por aqui, nem sempre consigo me manter calma e com o tom de voz baixo naquelas situações de birra, de briga entre irmãos e de ter que pedir dez vezes a mesma coisa. Nem sempre consigo ser totalmente racional e me abster de usar pequenas ameaças, ou de dizer coisas que jurei que nunca diria como “olha que o papai Noel está vendo!”. Nem sempre consigo preparar aquela refeição saudável, colorida e sortida, como eu gostaria. Nem sempre consigo não desanimar quando passo horas preparando algo diferente para que eles não aceitem sequer provar. Nem sempre consigo não me estressar com aquela recusa persistente para comer a salada do prato. Nem sempre consigo prestar uma atenção cem por cento atenta ao que eles me dizem ou mostram. Nem sempre consigo ter paciência e andar, olhar, falar e sentir na mesma velocidade que eles. Nem sempre consigo me envolver como gostaria nas pequenas coisas que para eles são tão grandes e importantes.

Mas, quando ao invés de me culpar a respeito, eu apenas me responsabilizo e me torno totalmente consciente dos meus atos, minha mente estala e me mostra claramente que eu posso agir de forma diferente na próxima vez. Que eu posso fazer melhor – por mim e por eles. Sem o peso da culpa, mas com a consciência de que posso. Acho que aí está a grande diferença. A culpa pesa, nos martiriza e nos paralisa no mesmo lugar. A consciência plena nos instiga a buscar o diferente, a buscar algo melhor.

Então, peço desculpas e digo que errei também, olhando nos olhos deles. Tento compensar aquele almoço corrido e sem graça ou aquela pizza do jantar da noite anterior com a comidinha que eles mais amam, em que a pitada de carinho transborda para fora das panelas. Tento aceitar que o paladar de cada pessoa é diferente e ser otimista sobre aquela beterraba mal amada de hoje – porque, com paciência, ela pode ser o alimento querido de amanhã. Tento parar tudo só para observá-los, tão atentamente e de perto, que dá até para ouvir os coraçõezinhos batendo. Tento prestar atenção ao piscar dos olhos e a forma que a boca deles assume a cada fala ou expressão. Tento absorver cada pequeno detalhe que deixei passar no dia anterior, enquanto eles me contam algo extraordinário, como verem uma borboleta saindo do casulo, o arco íris depois da chuva ou a lua que apareceu quando o sol ainda nem havia se posto. Fazemos longos banhos de espuma cheios de farra e risadas que molham todo o banheiro. Inventamos as mais assustadoras histórias de faz de conta para brincar – em que eu sempre sou a vilã monstro que tenta em vão capturar os valentes guerreiros. Escolhemos não apenas um mas três livros para a hora de dormir e quase sempre alguém repete aquele preferido que já sabemos de cor. Aprendemos juntos e pesquisamos a fundo o significado daquela palavra difícil que eles ouviram por aí ou sobre os processos tão extraordinários que a natureza silenciosamente executa.

Equilíbrio. Tá aí uma palavra pra lá de importante na nossa vida.

Acredito que, por ter passado por uma cobrança interior enorme quando minha primeira filha nasceu, eu tomei como lema que a maternidade precisava ser mais leve. Ela pre-ci-sa-va ser – por uma questão de sobrevivência até. A maternidade é algo difícil de se encarar, porque todos os dias a gente bate de frente com algo, com alguém e com a gente mesma, inclusive. Mas precisamos vivenciá-la da melhor forma possível. É algo que tenho tentado alcançar nesses últimos sete anos: uma forma mais leve de maternar e de superar aquelas fases difíceis que a gente já conhece – e as muitas outras que ainda virão – sem aquela culpa que paralisa, apenas com a consciência de que podemos fazer melhor, se tentarmos.

Nós somos cheios de falhas e por vezes repetimos os erros que já deveriam ter sido aprendidos no passado. O problema é que se martirizar a respeito não resolve as nossas batalhas. Isso apenas nos impede de seguir adiante, por uma rota diferente talvez. Quando a gente se liberta verdadeiramente de toda essa culpa que sentimos e para de se martirizar, consegue enxergar tudo com mais clareza, com mais definição. Não é uma licença para continuar falhando, pelo contrário. Quando a gente acolhe de coração as nossas falhas, se torna infinitamente mais consciente dos nossos atos e do quanto nos faz bem mudar de rumo e tentar o nosso melhor, outra vez. E não porque devemos, mas sim, porque queremos, porque podemos.

Em todos esses momentos – os poucos descritos e os muitos não descritos acima – eu percebi a importância de não se cobrar tanto e de aceitar numa boa que inevitavelmente exceções e imprevistos irão ocorrer. De aceitar também que nem sempre alcançaremos os cem por cento naquilo que nos propusermos a fazer, que nem sempre enxergaremos o copo meio cheio ou todas as luzes acesas ao invés da única lâmpada queimada. Contudo – e que sorte a nossa! – podemos escolher tentar mudar a nossa maneira de agir e o nosso olhar sobre cada movimento dentro dessa difícil vida materna, todos os dias. Não por culpa, não por dever, mas sim conscientes de que aprender e melhorar é bom, é evolutivo e essencial. Para nós e para os nossos, que a gente tanto, tanto ama.

Dá para mudar e fazer diferente, sem culpa e sem martírio, se a gente tentar – apenas por amor e por essa busca maravilhosa e incessante por evolução – como seres humanos e como pais e mães.

5 comentários no blog

  1. Michelle em

    Cheguei logo aqui… fica chateada não! Hahaha
    Post mega verdadeiro e lindo, como sempre! ❤

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    1. Michelle Amorim respondeu Michelle em

      Obrigada, xuxu! Era brincanagem só :D <3

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  2. Polyana Carvalho em

    Lindo Texto! Já estava com saudades das suas postagens!

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    1. Michelle Amorim respondeu Polyana Carvalho em

      Obrigada, Polyana! <3

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  3. Pah Vieira em

    Mais um texto lindo , mostrando que em nenhum lugar é tudo perfeito e que sim muitas vezes precisamos não nos cobrar tanto mas olhar por um outro ângulo .
    Parabéns pelo texto.

    😘💜🌷

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