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O poder do abraço

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Nesses quatro anos, Melanie já passou pelos terrible two’s, terrible three’s, terrible vou ganhar um irmão, entre outros. E eu, sinceramente, acredito que essas fases mais difíceis irão existir pela vida toda. Afinal, elas sempre pontuam o começo ou o fim de uma etapa. E etapas são necessárias para o crescimento, ainda mais de uma criança.

Ocorre que nos últimos dias ela estava diferente. Mesmo que sempre tivesse sido uma criança mais manhosa e muito sensível, o comportamento que ela vinha apresentando era algo novo e chamou a nossa atenção.

Melanie estava irritada, muito mais impaciente e sentida. Por vezes gritava conosco de uma forma antes nunca feita e falava com aquela voz embargada, de quem está com um nó na garganta, sabem?

Isso foi me angustiando.

Primeiro achamos que era manha, talvez por ciúmes do irmão. Depois achamos que era malcriação, desobediência, rebeldia. Mas então eu percebi que não. Não era nada disso.

Ela vinha evitando me abraçar e me olhar nos olhos naqueles últimos dias. Qualquer tentativa de conversa acabava frustrada, com gritos e choro. E nós acabávamos perdendo a paciência também. Então, eu mudei minha abordagem.

Ela estava no sofá assistindo algum filme infantil que não me recordo agora. Leo estava no tapete brincando.

Sentei ao lado dela sem falar nada e fui me aproximando cada vez mais. E essa foi a nossa conversa:

– Mel, por que você está triste, filha? 

– …

– Conta pra mamãe. Aconteceu alguma coisa? Pode me contar. A mamãe só quer te ajudar, filha. (disse isso enquanto afastava os cabelos que caíam no rostinho dela naquele momento).

– (olhos se encheram de lágrimas, um bico foi se formando.)

– Pode contar pra mamãe, Mel. O que aconteceu que você está triste?

– A Sara disse que não é mais a minha amiga. Ninguém quer ser mais a minha amiga.

(e desabou a chorar. aquele choro que estava contido em todas as vezes que ela gritou conosco, aquele choro sem explicação que aconteceu naqueles três dias que tinham se passado. putz, logo a melhor amiguinha da escola, eu pensei… e segurei o meu choro também.)

– Mas, por quê, Mel? O que aconteceu?

– Ela queria a minha fita vermelha e eu não queria dar. Aí ela disse que não era mais a minha amiga.

(e mais choro. daqueles. de soluçar.)

– Mas… e as suas outras amiguinhas? (citei o nome de todas elas)

– Elas disseram que também não são mais as minhas amigas!

(fiz uma pausa pra respirar. lembrei de todas as vezes que me desentendi com minhas amiguinhas da escola e do quanto era difícil, naquela época, lidar com tantas pessoas diferentes de mim.)

Filha, às vezes a gente se desentende mesmo, acontece. Especialmente com as pessoas que a gente mais gosta. Porque somos diferentes, sabe? Às vezes queremos as mesmas coisas, às vezes não. Mas a gente precisa conversar, pra se entender.

– Mamãe, eu só quero ficar assim pertinho, tá? Fica aqui pertinho de mim? 

(e veio para o meu colo. encostou a cabeça no meu peito e respirou aliviada, como quem chega correndo de baixo de uma marquise fugindo de um temporal daqueles.)

– Meu amor, olha pra mim. Aconteça o que acontecer, se você me permitir, eu sempre, sempre vou ser sua amiga. Sempre vou estar aqui para te ajudar. Sempre.

(ela me abraçou forte. tão forte que quase me fez perder o ar. e assim ficamos por um tempo.)

Aí pensei no mix de emoções e sentimentos que uma criança tem ao longo de um dia, de uma semana… E que não consegue expressar com clareza por meio de palavras, como nós fazemos. Eles não sabem desabafar, racionalizar. Não sabem que uma simples conversa pode tirar um grande peso das costas e aliviar o coração.

Não sabem que num abraço podem encontrar tudo que precisam naquele momento. Até nós esquecemos disso. Inúmeras vezes. Mas podemos ensinar e ao mesmo tempo, aprender novamente.

No final das contas, eu fiquei feliz por ter conquistado essa confiança e por ela ter me contado (naturalmente e nas palavras dela), o que havia acontecido. E mais feliz ainda em perceber a mudança imediata de comportamento que ela teve. Isso foi o mais extraordinário.

Voltaram os sorrisos, o jeitinho doce, as cantorias pela casa o dia inteirinho, as histórias que ela não para de contar.

Claro que a Mel é a Mel e certas coisas não mudam. Ela continua sendo exigente, questionadora e sensível. Mas daquele mesmo jeito que ela sempre foi. Aquela agressividade, aquela mágoa e as lágrimas contidas, deram lugar ao sorriso novamente.

Ah, e sim. Melanie e Sara já voltaram a ser amiguinhas. E todas as outras também. Na verdade nunca deixaram de ser. Como já podíamos imaginar :)

E ela passou o dia ontem me ensinando como se fazia uma ponte de argila, para deixar o Monet bem feliz (?!)

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11 comments

  1. Nossa, como é difícil ser mãe, né? Fiquei morrendo de dó da Mel e todo esse sofrimento. Que bom que tudo acabou bem.
    Que Deus nos dê sensibilidade para podermos compreender nossos filhos.
    Bjs em todos!

  2. Michelle, assim vc me mata! rsrsrs… Lógico que me emocionei lendo esse post. Ando num momento cansativo com as crianças e isso nos deixa mais sensíveis. E sempre que leio tento me colocar no lugar dela e no seu, pensando como eu reagiria numa situação assim. A cada dia que passa no crescimento dele, os sentimentos vão e vem, mudam… E é um turbilhão mesmo. Muitas vezes nós não conseguimos lidar com tudo isso, imagine eles. Heitor é uma criança mega dócil, daqueles que topam tudo, empresta o brinquedo, não bate no coleguinha. Ontem me encheu de orgulho ao ajudar um amiguinho a levantar. Esse caiu pq outro bateu nele. E Heitor o ajudou e abraçou uma outra que apanhou tbm. O poder do abraço é mesmo mágico!

  3. Que maravilha de post, Michelle; faz a gente pensar… meu pequeno ainda tem 02 anos, não está passando por isto ainda, pelo menos assim eu acho, rs… Mas acho que temos que realmente ficar atentas, porque quem mais do que as mães para reconhecerem que o filho está diferente? Parabéns a você pela sensibilidade e por compartilhar esta história. Kátia

  4. Chorei o choro dela!
    Mi, como é difícil ser mãe, minha fixa acabou de cair…
    Otávio não quer mais ir pra escolinha, está irredutível! Não sei se foi alguma coisa ruim que aconteceu, alguma conversa que ele ouviu… ele ainda não sabe se expressar corretamente… e talvez eu não tive essa delicadeza que vc teve em ouvir… :'(

  5. Mi, admiro tanto sua sensibilidade! Essa forma de enxergar as coisas, de entender sentimentos, de pleno conhecimento dos seus filhos… é lindo de se ler e de se ver essa relação em você e sua família. Você é um exemplo a ser seguido!

  6. Engraçado, que tem coisas que só mãe consegue mesmo né?
    E a gente se vê um pouco na Mel também.
    Quem nunca passou por uma frustração assim, e não quis, ou não conseguiu colocar pra fora que atire a primeira pedra.
    Lembro de quando era pequena e também me desentendia com minhas amiguinhas da escola, ou me frustrava por perder alguma coisa, (um jogo, um birnquedo), e minha mãe também, com aquela paciêeeeeeeencia que só ela sabe de onde tira (até hoje), sempre conseguia me deixar a vontade pra eu dizer da minha maneira, nas minhas palavras, do meio jeito e como eu quisesse, sem me julgar ou achar que aquilo não era motivo pra “tanto”.
    O respeito que se cria nessas situações é algo inigualável, e dura pra sempre… mesmo na adolescência quando surgiam as “decepções amorosas” e eu não sabia lidar com aquilo, ela sabia como me deixar confortável. Até mesmo quando discutíamos por um motivo onde as vezes a culpa era minha… eu lembro de me trancar no quarto depois do temporal, e ela vinha de vez em quando (as vezes por dias), quando eu estava sozinha lá, abria a porta e perguntava “quer conversar?”… Quando a resposta era não, eu simplesmente dizia “não!”, ela fechava a porta e saía… eu sabia que ela ia tentar de novo… e tentava… até que, quando a resposta era “sim”, eu não dizia sim… mas, assim como a Mel, “lágrimas brotavam e um bico se formava”… e então ela sabia que eu estava pronta pra colocar pra fora todos os meus motivos e razões, nem sempre justificáveis, mas que eram meus, e ela respeitava ao mesmo tempo que me ajudava a enxergar a situação de outra forma.
    Ate mesmo hoje em dia, com 30 anos, quando não moramos mais juntas, quando ela sabe que eu não to bem, que alguma coisa que me entristeceu muito, ou me deixou bem decepcionada, ela liga e faz do mesmo jeitinho.
    Lembro de uma vez que passei dias sem ligar pra ela, por um desses motivos, e ela ligou pra mim pra dizer que tava com saudade de ver o tel. tocando todos os dias com meu nome na tela…e eu respondi “mãe, eu só to sofrendo um pouco, daqui a pouco vai passar…” E ela, como sempre, respondeu ” eu sei minha filha. Mas eu to aqui pra que vc divida isso comigo. Se você deixar, divide essa dor comigo que ela nem dói mais tanto…diminui bastante o seu lado”… Pronto… bastou pra uma cachoeira vir a tona, e quase me afoguei.
    Enfim… coisas de mãe mesmo!
    Ah, e a Mel ta linda… Com certeza você vai ser sempre a melhor amiga dela, Michelle.
    Quem sabe eu consiga ser como você, como a minha mãe para os meus filhos também!
    Parabéns!

  7. Ei michelle,estou amando o seu blog.

    E o post de hoje me fez pensar bastante no comportamento da minha Júlia de 6 anos. Ela por varias apresentou esse tipo de comportamento, e eu não sabia nem tinha noção de como agir, mas agora quero estar mais atenta e agir no momento certo e do jeito certo porque muitas vezes eu ignorava achando que era “xilique” de criança.

    Parabéns!!! bjuss

  8. Oi Michelle,
    Encontrei seu blog e estarei acompanhando :)
    Estava lendo seus posts e quando li este, juro que me emocionei (coisas de mãe, né?! rsrs).
    Tem momentos que a gente fica achando que é uma birra que a criança está fazendo ou algo do tipo, mas é apenas uma experiência de vida que, como você bem colocou, a criança não sabe desabafar e tende a se comportar assim.
    Que saibamos orientar nossos filhos a lidar com tantas situações! E, de fato, o abraço tem poder.

    Beijos,
    Larissa Andrade.

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