30 jul 2013

Melanie e o irmãozinho na barriga

A Mel teve diferentes reações em relação ao irmão que está chegando, antes mesmo da gravidez acontecer, de fato.

Lembro que estávamos finalizando o processo de desfralde quando decidimos realmente tentar um segundo filho e já nessa fase de conversas ela apresentou algumas mudanças de comportamento. Aí começaram as lições.

Ela começou a ficar mais manhosa e pedir colo, assim que começamos a conversar sobre ter um (outro) bebezinho. Nós achávamos que ela não estava ouvindo ou prestando atenção, mas estava sim. Eles ouvem tudo. Além disso, são muito sensitivos também.

Com a gravidez confirmada pelos exames, optamos por não contar para ninguém (nem para ela) até eu completar 9 semanas, pelo menos, ou até a primeira ecografia (como meus exames do beta hcg deram baixos e tive que refazer três vezes, eu tinha receio de que algo não estivesse bem). 

O primeiro trimestre foi super tranquilo pra mim, tive poucos enjoos. O que realmente me pegou foi o cansaço e o sono. E isso refletiu diretamente na minha relação com a Mel. Ela queria brincar e eu só queria ficar quietinha, de preferência dormindo, mesmo que fosse sentada no chão em meio às pecinhas que estávamos montando.

Depois de grávida, eu jamais tive medo de amá-la menos por ter outro filho. O que eu sentia era medo de ser menos mãe dela, de ter menos tempo, menos disposição, menos paciência. Comecei a me sentir culpada. Comecei a sentir, ali naquele momento, que eu nunca mais seria totalmente dela e só pra ela.

Além do comportamento mais manhoso e sensível, ela começou a dizer que não queria ir para a escolinha. Que queria ficar em casa, com a mamãe. E aí, chegaram as duas semanas mais tensas dessa relação primogênita x irmão chegando (até o momento, pelo menos).

Ela fugia na hora de colocar a roupinha, chorava. Com jeitinho eu a convencia, a lembrava de tudo que tinha de bom lá e que ela gostava tanto. Chegávamos na escolinha, descíamos do carro e ela já me pedia colo. Assim que uma das professoras dela se aproximava, ela virava o rosto e dizia que queria ir pra casa, que queria a mamãe. E chorava, chorava, chorava. Se agarrava em mim.

Eu ficava extremamente desconcertada com aquela situação, porque nem mesmo na adaptação ela se comportou assim. Nunca tinha chorado dessa forma para entrar na escola. Ela amava ir para a escola. Dizia “viva” quando eu aparecia com o uniforme.

Na primeira vez que isso aconteceu, não consegui deixá-la daquele jeito. Senti que ela não estava bem. E que eu não estava bem. Voltamos pra casa, brincamos muito e dei todo carinho e atenção que consegui naquele dia.

No dia seguinte, a mesma situação. Pior até.

A coordenadora da turma dela veio, conversou comigo e me disse: “olha, se você continuar cedendo, ela nunca mais entrará na escola. Se essa for a sua vontade mesmo, tudo certo. Mas se você quer que ela venha, terá que enfrentar isso, junto com ela”. E ela foi. Chorando desesperada no colo da professora. E eu fiquei, chorando desesperada na secretaria, querendo bater a cabeça contra a parede, literalmente.

Se passaram mais três dias, nessa mesma situação. Ela entrava chorando e eu ficava lá, desolada, me questionando, me sentindo um lixo. Depois de alguns minutos ela parava, se distraía, e eu enfim ia para casa. Mas junto comigo, iam os sentimentos de culpa e derrota.

No final da tarde, quando ia buscá-la, ela sempre estava bem, tinha passado o dia bem. Mas eu sentia um certo ressentimento.

Cheguei a pensar em tirá-la da escola. Não estava mais conseguindo ver as coisas com clareza. Só não queria que ela sofresse.

Nos meses anteriores, ela vinha frequentando a escolinha no período intermediário e senti que estávamos passando pouco tempo juntas. Como minha rotina podia ser alterada, resolvi mudá-la para meio período, novamente. Achei que seria importante esse tempo a mais com ela, antes do bebê nascer.

Conversei com a pedagoga e mais uma vez ela me ajudou a perceber o que estava errado. Eu. Eu estava totalmente perdida, tendo sentimentos conflitantes o tempo todo.

Meu sentimento de culpa por não estar dando o meu melhor como mãe, naquele momento, prejudicou de mais a confiança dela. Eu estava com pena, com remorso, enfim, tendo esses sentimentos que estão longe de serem benéficos, mas que são comuns numa gestação de quem já é mãe.

Uma criança que sabe ou sente que alguém está chegando para fazê-la dividir pai e mãe (e todo o resto) se sente muito insegura, volta a ter atitudes de bebê, fica infantilizada mesmo. Umas mais, outras menos. Acho que depende muito da maturidade (e da idade) de cada uma. Mas nenhuma quer perder seu lugar ao lado dos pais.

Quem precisa passar essa segurança e fazê-los ver a chegada de um irmão ou irmã como algo positivo – e não como uma perda – são os pais, os adultos. Por isso tive que encontrar essa força dentro de mim mesma e transmiti-la para a Mel.

As perguntas que me fiz foram:

A chegada do bebê vai mudar o que sinto por ela ou a maneira como a vejo? Não. Em absoluto.

Vai diminuir o amor que sinto por ela? Não. Nunca.

Vai diminuir o tempo e qualidade da minha atenção para com ela? O tempo sim, a qualidade, espero que não.

Quero que ela continue indo para a escolinha? É bom pra ela? Ela é feliz lá? Sim. Ela sempre adorou, os espaços, as atividades, os amiguinhos. É uma experiência muito bacana e agora serão apenas quatro horas, novamente.

Com essas certezas sendo trabalhadas, na minha cabeça e no coração, chegamos em outra parte tão ou mais importante. Verbalizar essas certezas para ela.

Mas precisa falar? Sim, claro!

Eu achei que, de posse desse raciocínio e dessa convicção de que nada iria mudar, ela também saberia ou sentiria, automaticamente. Mas não. É necessário falar, conversar com eles.

Foi aí que comecei a conversar sobre algo a mais do que “tem um bebezinho na barriga da mamãe” ou “você vai ter um irmãozinho”. Comecei a falar de como ia ser legal quando ele chegasse, do quanto eles iriam brincar e se divertir juntos, do quanto gostaria que ela me ajudasse a cuidar dele. E o principal: disse a ela diversas vezes que ia continuar amando e cuidando dela, como sempre fiz. Até mais. E nisso tudo mudou.

Já no dia seguinte ela estava menos manhosa, almoçou bem, voltou a se animar a ir para a escolinha. Estava feliz novamente. Chegamos lá e ela disse “vai trabaiá mamãe” e entrou, contente. Ver isso foi muito gratificante. Nós conseguimos passar por aquilo juntas. Senti muito orgulho dela e vi que houve um crescimento importante ali. De ambas. E assim temos seguido, sem traumas.

Esses dias peguei as roupinhas e algumas outras coisinhas do bebê e deixei que ela mexesse, assim, bem a vontade. Ela tentou colocar algumas camisetas, viu coisas que ela também tem ou teve, percebeu mais uma vez que terá alguém ao lado dela, daqui algum tempo. Ela aceitou super bem e repetia enquanto olhava as roupinhas “esse é do bebezinho, não serve na Mel”.

Na maioria dos dias ela se mostra muito carinhosa comigo (com todos na verdade), demonstra estar contente, satisfeita. E isso é o que mais importa, pra mim.

********

Ultimamente, ela anda dizendo frases do tipo “o bebezinho é chato” (ultimamente o que ela não quer ou não gosta é “chato”) ou “não vou brincar com o bebezinho, só com a mamãe”.

Diante disso, tento agir normalmente e dizer que vamos sim brincar todos juntos e que será muito legal. Só isso. Por enquanto. Não quero nem posso impor nada à ela. Posso apenas incentivar, passar sentimentos bons.

Acho que mais e mais mudanças de comportamento irão acontecer, conforme o bebê e a barriga forem crescendo. E mais ainda, depois que ele nascer.

Por agora, aprendi o seguinte:

1. Mesmo que a gente ache que eles não estão nos ouvindo ou que ainda não entendem tudo que falamos, eles entendem sim. Se não entendem as palavras que são propriamente ditas, tem a capacidade de captar os sentimentos dos pais.

2. Os sentimentos de culpa e medo são extremamente normais para quem já tem filhos e está a espera de mais um. O que devemos fazer é sentir, compreender, processar e aprender a lidar com esses sentimentos. Para que isso não gere insegurança também na criança.

3. Além de engajá-los na preparação do enxoval, do quarto, das coisinhas do bebê, devemos conversar muito com eles. Não adianta somente saber que você não irá amá-los menos, tem que comunicar isso a eles. Verbalizar a intenção, os sentimentos. Eles precisam dessa certeza, precisam ouvir que serão sempre amados e amparados, aconteça o que acontecer. E o principal: ajudá-los a ver que a chegada de um irmão é boa, é positiva, que não significará a perda de algo e sim, o ganho de um companheirinho, de um amigo.

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29 comentários no blog

  1. CAMILA em

    Estou nesse barco por aqui também… Como eles são sensíveis e inteligentes né? Mas no final tudo dará certo rsrs. ;)

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    1. Michelle Amorim respondeu CAMILA em

      São, de mais! A gente acha que são pequenos e ainda não entendem, mas eles sentem tudo que sentimos.

      Os comentários voltaram ao normal já não é? 123 testando :)

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    2. Michelle Amorim respondeu CAMILA em

      Ops, ainda não. O programador está atualizando tudo.

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  2. Steffani em

    Ou eu estou de TPM ou eu realmente me emocionei com esse post (até chorei aqui no serviço)=’) Fico pensando na Mel, que realmente não deve ser fácil e fico me colocando no seu lugar, principalmente nos dias que teve que deixar ela aos prantos na escolinha. Que Deus dê bastante força e que o amor prevaleça sempre entre vocês. Tenho certeza que quando ela ver o irmãozinho ficará muito feliz e entenderá tudo depois. =]

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    1. Michelle Amorim respondeu Steffani em

      Aos poucos tudo vai se ajeitando Steffani. Obrigada pelo carinho :)

      Bjo

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  3. Mirela Costa em

    Eu tbm chorei… Ainda bem que estou em casa, rsrsrs… Essa semana está sendo diferente para mim, pois meu filho de 9 meses foi para o berçário… Ele está bem, mas eu estou morrendo de saudades dele! Michelle, lindo o texto, a realidade de todas nós. Tenho esse medo tbm de ter outro filho e saber que todo o tempo de hoje com o Heitor será menor. E que não vou conseguir dar ao segundo a atenção que dei ao Heitor… Difícil, né? Mas são os desafios da maternidade…

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    1. Michelle Amorim respondeu Mirela Costa em

      Obrigada Mirela! Como estão indo as coisas por aí?

      Bjo

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  4. Gabi Sallit em

    Vcs vão tirar de letra. Tenho certeza!

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    1. Michelle Amorim respondeu Gabi Sallit em

      Vamos sim Gabi! ;-)

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  5. Cris em

    Michelle, passei por uma fase muito parecida quando grávida do meu filho. O comecinho da gravidez foi ainda mais difícil, pois eu ficava muito enjoada e mal disposta, e a paciência e o carinho que tinha com a minha filha mais velha sofreram um baque. Ao longo da gravidez melhorou, quando ele nasceu ela ficou bastante sentida, depois passou, e agora que ele está com quase 9 meses passamos por outra fase difícil. Assim que ele começou a comer e a interagir mais o ciúme dela veio com tudo. São fases e temos todos que nos readaptar. Eu fico sempre muito dividida quando ela se comporta mal, pois sei que tenho que impor os limites com firmeza mas sei que ela de alguma maneira está externalizando uma insegurança. O que posso te dizer é que o que aconteceu agora vai ainda acontecer muitas vezes conforme os dois forem crescendo e construindo a relação de irmãos, e nós uma nova relação com eles.

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    1. Michelle Amorim respondeu Cris em

      É bem complicado mesmo Cris. Mas aos poucos a gente vai aprendendo a lidar com as situações e com eles, principalmente.

      Bjo

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  6. andre em

    test

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  7. andre em

    legal

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  8. Mary Brancatte em

    Que lindo post!!! Tenho uma menina de 1 aninho e pretendo engravidar novamente quando ela completar dois anos. Fiquei me imaginando nessa situação daqui um tempo. Parabéns pelas atitudes com a Mel neste momento :)

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    1. Michelle Amorim respondeu Mary Brancatte em

      Obrigada Mary!

      Bjo

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  9. em

    Lindo post. Tenho uma menina de 1 3meses e estou grávida, na 10ª semana, e também tenho mil dúvidas. Filhos são uma benção, e com a graça de Deus vamos nos adaptando as mudanças. Beijos…

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    1. Michelle Amorim respondeu em

      Obrigada Jô, que bom que vc gostou :)

      Bjinho

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  10. Mamãe do Otávio em

    Ninguém disse que seria fácil né Mi! que bom que vc ta sabendo levar! deu uma dor no coração aqui! agora to aliviada, imagina vcs!
    beijos e fiquem bem!!!

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    1. Michelle Amorim respondeu Mamãe do Otávio em

      A gente sempre passa por uma fase difícil e depois vem outra mais difícil ainda né, Tami? Isso se chama maternidade. Ou apenas, vida :)

      Mas damos um jeito!

      Bjão

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  11. Adriane em

    Olá, desde que soube que estava grávida começamos com um tratamento com uma psicopedagoga, e estamos fazendo alguns trabalhos juntos bem legai…um deles é uma brincadeira do que são coisas de mocinha e bebe fazer..assim: mocinha pode fazer unha? pode..o bebe pode? não…mocinha pode fazer bolo com a mamãe? pode..bebe pode? não…mocinha usa fralda? não..bebe usa? usa…aí ela foi vendo o quanto é bem mais legal ser mocinha do que bebe, rs. Outra coisa é envolver mesmo, ela escolheu todo o enxoval do bebe, eu digo coisas como: Belle vem aqui dar um beijo na Alice pq ela não para de te chamar..ela se sente importante com isso, eu disse tbm que ela vai ser a primeira a pegar a Alice pq é o presente dela. Sei que algumas coisas virão, não tem como..ela só tem 3 anos, mas se envolvermos eles agora durante a gestação, acho que melhora bastante, não é?

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    1. Michelle Amorim respondeu Adriane em

      Oi Adriane! Com certeza fazer com que os irmãos mais velhos se sintam importantes na vida dos menores é essencial!

      Bjo

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  12. Cris Medeiros em

    Me identifiquei em vários pontos do seu post… Tenho um filho de 4 anos e estou grávida novamente (agora com 24 semanas).
    Quando parei a pílula já comecei a prepara-lo, falar que íamos pedir um bebê para Jesus. Ele dizia que queria uma menina e eu falava que era Jesus que escolhia, então ele argumentava que teríamos que contar para Jesus que ele queria uma menina.
    Felizmente (?!) está vindo uma menina e acho que isso está contribuindo bastante com a aceitação. Nas primeiras semanas (contei depois do primeiro ultrassom) ele ficou mais manhoso, mas depois bem tranquilo e carinhoso. Fica fazendo planos e incluindo a irmã neles. Uma graça!
    Minha psicóloga (tive depressão pós-parto e estou tendo acompanhamento) orientou que eu dissesse que ser menino é legal e ser bebê é chato para que ele não queira regredir. Menino brinca, vai à escola e ao cinema, tem amigos… coisas que ele adora. Já bebê só dorme, mama, suja a fralda… não faz nada legal. Por enquanto está dando certo!
    Nas férias me deu muita melancolia de pensar que eram as últimas só eu e ele… Dá uma certa dor no coração saber que terei que dividir a atenção com outro filho, mas acho que será mais difícil para mim do que para ele – assim como foi para tirar a chupeta, o berço e as fraldas… risos.
    Que Deus abençoe esta nova fase das nossas vidas!!
    Beijo

    Responder
    1. Michelle Amorim respondeu Cris Medeiros em

      A gente passa por tantas e tantas fases difíceis na maternidade, não é? Felizmente com o tempo vamos aprendendo a lidar melhor com os pequenos e com as situações do dia a dia. E a maturidade que o tempo traz tbm ajuda muito :)

      Boa sorte com tudo por aí!

      Bjo

      Responder
  13. Priscilla em

    Bom dia,

    Parabéns pela publicação, tenho um filho de 4 anos e planejo outro para 2014 e tenho esses mesmos medos e anseios, para estou confiante que tudo dará certo, como está dando para vc, Que Deus abençõe vc e sua família

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  14. Angélica em

    fantástico!tudo o que eu precisava ler neste momento!estou passando por isso e achei que fosse a única, bom mesmo saber que tudo passa, pq não é nada fácil!!
    Bjo a todas as mamães!

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  15. Priscila Carvalho em

    Estou encantada com o seu blog! Principalmente com este post. Tenho também uma princesinha, a Sarah, de um ano e dez meses, e estou grávida de oito semanas do meu segundo filho. Atualmente estou vivenciando essa fase mais manhosa e sensível da Sarah, mas fico feliz em saber que não sou a única a passar por isso. Seu post foi muito encorajador e confortante pra mim. Obrigada por compartilhar suas experiências conosco.

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  16. Valeria em

    Ameei seu post , agora em 2017 estou ni uma situaçao complicada , minha filha diz a todos qe é menino qe tem na minha barriga , ela beija a barriga da carinho mostra pra todos minha barriga tudo qe come qer qe o irmao comi tbem , compra as coisas pra ela tem qe trazer pro irmão , juro qe ja estou ficando com medo se ser menina e eu a decepciona ela !

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