06 abr 2013

Mas é claro que ter filhos traz felicidade!

Saiu na revista Época uma matéria com o título “Ter filhos traz mesmo felicidade?” e gerou certa polêmica, claro.

Eis um problema: a paternidade, que deveria ser o momento mais feliz da vida dos casais – de acordo com tudo o que aprendemos –, na verdade nem sempre é assim. Ou, melhor dizendo, não é nada disso. Para boa parte dos pais e (sobretudo) das mães, filhos pequenos são sinônimo de cansaço, estresse, isolamento social e – não tenhamos medo das palavras – um certo grau de infelicidade. Ninguém fala disso abertamente. É feio. As pessoas têm medo de se queixar e parecer desnaturadas. O máximo que se ouve são referências ambíguas e cheias de altruísmo aos percalços da maternidade, como no chavão: “Ser mãe é padecer no Paraíso”. Muitas que passaram pelo padecimento não se lembram de ter visto o Paraíso e, mesmo assim, realimentam a mística. Costumam falar apenas do amor incondicional que nasce com os filhos e das alegrias únicas que se podem extrair do convívio com eles. A depressão, as rachaduras na intimidade do casal, as dificuldades com a carreira e o dinheiro curto – disso não se fala fora do círculo mais íntimo e, mesmo nele, se fala com cuidado. É tabu expor a própria tristeza numa situação que deveria ser idílica.

A matéria tem vários pontos interessantes de serem abordados e que são sim, reais. Mas essencialmente, uma coisa me chamou a atenção: a palavra “infelicidade”, escrita por diversas vezes no texto, que fala de filhos.

Para mim, ter filhos é uma opção, uma causa que você abraça, um estilo de vida que cada casal leva do seu jeito. E existe sim muita frustração, muito cansaço, muita angústia, muito medo, muita culpa, gastos… aquela vida (social, sexual…) que você tinha e que some/muda rapidinho. Mas, pelo menos na minha vida materna, “infelicidade” é uma coisa que não existe. Todos os outros sentimentos existem ou já existiram nesse coraçãozinho aqui, até depressão pós parto eu tive. Mas nunca me senti “infeliz” em ser mãe.

Lembro que antes de me casar, algumas pessoas diziam “não faça isso!” ou “pois é, tem gente que quer sair e tem gente que quer entrar”. O mesmo eu ouvi quando falei de ter filhos. Ou seja, as pessoas nos alertam sim, de maneira muito negativa e subjetiva, é verdade, mas alertam. A gente não ouve porque quer ousar, quer tentar, quer pagar pra ver e porque também sabe que vale a pena.

Claro que poderiam ter me pego pelo braço e dito a real mesmo: “Michelle, ó, seguinte. Essa sua vida sossegada, egoísta, livre, vai acabar quando você tiver filhos. E ser mãe é muito, mas muito mais difícil do que você pode imaginar”. Talvez eu tivesse enfrentado as coisas de forma diferente, talvez eu estivesse mais preparada. Mas as pessoas normalmente só falam das trocas de fralda, da privação de sono… Não falam desses sentimentos ambíguos que temos durante toda a jornada da maternidade.

Desde o comecinho, se alguém me perguntava como era ser mãe, eu sempre contava todos os percalços, todos os perrengues, nunca fantasiava ou enchia de flores. Contava os dois lados da moeda, o bom e o ruim. E acho que assim que tem que ser mesmo.

A matéria diz que deixamos de falar a verdade, que nos sentimos “infelizes”, por vergonha. Mas no fundo, bem no fundo, todo mundo sabe que ser pai e ser mãe é punk e que tem horas que temos vontade de largar tudo e fugir pro México. E não há nada de vergonhoso em admitir isso não. Afinal, você não abandona sua condição de ser humano porque teve filhos.

O filósofo Luiz Felipe Pondé termina a matéria dizendo que “O desafio de ser pai ou mãe requer virtudes como coragem e generosidade – e talvez alguma dose de loucura” e pra mim, isso até é verdade, mas vale para muita coisa na vida, não só para ter filhos. Tudo requer uma grande dose de coragem, generosidade e loucura.

E vocês, o que acharam da matéria?

15 comentários no blog

  1. Mirela Costa em

    Bom, cada um vê de uma forma. Eu tbm nunca me senti infeliz por ter tido um filho. Sinto sim cansaço, falta da minha noite de sono inteira, de poder ficar na cama até às 9h no domingo, de poder ir e vir livremente… Hoje tudo o que faço é com meu “rabinho” junto, rsrsrs… E ver o sorriso dele quando me vê, não tem preço… A alegria que ele fica ao perceber que darei o seio, é de matar de rir, muito fofo. Só acho que quem não quer, não deve ter mesmo, pq é uma mudança brusca na vida e nem sempre as pessoas estão preparadas para ela… Eu gostei!

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  2. Karla em

    Depois de 4 filhos eu tenho uma teoria sobre esse assunto, hj em dia não não se pode vivenciar a maternidade como se deseja, e isso traz obviamente, muita angústia. Quando tive meu 1° filho, achava que tinha que dar conta do mundo, quando na verdade eu só queria ficar chocando ele o dia inteiro, mas aí queria ser a mulher maravilha, limpar, passar, cozinhar etc, tirando os palpiteiros der plantão que achavam que eu devia deixar meu filho e passear com o meu marido pro casamento não afundar aff, e fiz isso algumas vezes, mesmo sem querer, oque eu ganhei com tudo isso? Um vazio enorme no meu coração e uma vontade imensa de voltar no tempo e fazer tudo diferente.
    Quando eu tive a segunda fiz realmente tudo diferente, pegava ela no colo as vezes até dormindo só pra ter aquela sensação maravilhosa que nós sabemos de ver um bbzinho aninhado dormindo, amamentei em livre demanda e até 2 anos e 2 meses e pratiquei cama compartilhada, não dei bola pra torcida em nenhum momento, mas aquele vazio do 1° filho permanecia, achava que se tivéssemos outro menino eu comseguiria superar, passaram 8 anos e eu tive outro menino, meu caçula e aí fiz tudo como eu quis de novo, aí eu descobri que não adiantava ter 10 outros filhos, pq meu tempo com o Caio bbzinho já foi e por causa dessa idéia que temos que carregar o mundo nas costas, eu perdi a chance de fazer com ele oque eu realmente queria, do jeito que EU realmente achava que era certo. Ter filhos não traz infelicidade, nunca em momento nenhum, pode até trazer outros sentimento controversos, mas infelicidade não. E se alguém se sentiu realmente infeliz algum dia, acho que essa pessoa não queria ser mãe.

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  3. Veronica em

    Oi Michelle, tudo bom?
    Pois é, cada coisa né…Eu nunca me senti infeliz por ser mãe. Posso ter me sentido frustrada, cansada, angustiada, perdida, mas infeliz…jamais!!
    Acho o seguinte, quem acredita em contos de fada não deveria ser mãe/pai. Contos de fada não existem e maternidade perfeita tbm não…Claro que todo mundo sonha/deseja que tudo dê certo, desde a concepção até quando o filho case ou bem mais que isso…Mas, gente isso não existe!! Sobre a parte do texto da Época “Costumam falar apenas do amor incondicional que nasce com os filhos e das alegrias únicas que se podem extrair do convívio com eles”…isso não é verdade. Falamos sim dos momentos únicos e maravilhosos que passamos com nossos filhos, mas também falamos dos percalços e das frustrações. Mas pensa comigo, o mundo já é cheio de notícias ruins, ligamos a tv e só aparece tragédias, agora até na maternidade teremos que falar do lado ruim da situação? Tenha dó…não quero falar que meu filho acorda mais de 5x por noite, que já faz tempo que não durmo na mesma cama com meu marido, que nossa vida social se resume a nada, que nunca mais consegui ir a manicure, cabeleireiro,…Quero falar do primeiro sorriso, do primeiro beijo, do primeiro abraço, das conquistas que ele faz a cada dia…Quem é egoísta e pensa somente em si, não deve seguir pelo caminho da maternidade. Maternidade é voce se doar, se entregar, de corpo, alma e coração. Se seu casamento não deu certo depois de ter filhos, não culpe a maternidade. Não deu certo porque nenhum dos dois se entregou de verdade. Nada na vida é perfeito, porque maternidade deveria ser? Porque as pessoas insistem em dizer que foram enganadas e que não disseram pra elas como seria de verdade? Quem diz isso só quer é arrumar desculpas para não dizer que na verdade não queria ser mãe/pai, só seguiu esse caminho por ser covarde e não conseguir assumir que não tem a mínima vocação para amar incondicionalmente.
    Outra parte do texto que achei o cúmulo foi… “Duro mesmo é quando surge um chato na forma de filho”, diz um desses textos. “Há os que obrigam os pais a usar cinto de segurança. Os que choram diante do leitãozinho assado. Os que cheiram o hálito da mãe, tornando-se legítimos representantes da patrulha antifumo instalados dentro da nossa própria residência.”…acho que nem preciso comentar né…filhos agora são chatos por querer que o pai dirija com segurança, por ainda não ter o entendimento, por serem sinceros em dizer na cara da mãe que o cigarro cheira mal mesmo…
    Infeliz é quem concorda com esse artigo, e se ter filhos traz infelicidade, quero ser infeliz sempre!!

    Bjos..

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  4. Ana Paula em

    que absurdoooo!
    sou mae de primeira viagem, com noites sem dormir, sem comer direito. esgotada fisicamente…mas nada, na-da no mundo se compara a felicidade de olhar nos olhinhos do meu bebe. antes eu tinha uma vida super social, viajava para o exterior a trabalho direto…e tudo parece banal diante da grandiosidade, da bencao de ser mae.

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  5. Carla em

    concordo com todos os comentários acima! quero ficar grudadinha na minha biscoitinha o tempo todo! saio correndo do trabalho pra chegar 1 minuto mais cedo…
    fico enrolando de manhã com ela pra chegar mais tarde na escolinha(dentro do possível, pois tenho q trabalhar)
    e olha q os primeiros meses não foram fáceis, mas acho q só reforçaram o nosso vínculo. Sabe aquela coisa de se comunicar pelo olhar? Acho tudo!
    o meu problemas são os palpiteiros (agora acham q ela está muito grande pra tomar banho de banheira, só pq ela já fica em pé – e não adianta argumentar q a hora do banho é brincadeira, relaxamento, etc)
    Como disse alguém, “o inferno são os outros” – eu e minha filha somos o céu (as vezes com turbulências, hehehe)
    bjo a todas!

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  6. Mistelko em

    Acho que a infelicidade vem de não conseguir equilibrar a vida de mãe com a vida que tinha anteriormente. Ser mãe é uma mudança gigante na vida de uma mulher e acho que muitas podem sim se sentir perdidas, sobrecarregadas, cobradas enfim. É preciso conversar sobre isso e reduzir o ritmo. É preciso tirar tempo para si e para o marido. A maternidade é uma bênção, mas pode ser sufocada por outros problemas. Se sentir infeliz enquanto mãe é para mim o indício de que algo que não tem a ver com a maternidade está errado e deve investigado.

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  7. Mirian Aparecida da Silva em

    Gente primeiramente adorei o site muito bom e necessario para nos mães!
    Agora eu concordo com o post. Fui mãe cedo( que na verdade hoje em dia isso é tarde demais, olhando as meninas de hoje em dia rsrs). Tive minha bebê com 20 anos, estava no alge de tudo, de namoro, de paquera, de baladas… No começo foi punk logico, perdi toda esta vida, mais ganhei em dobro… Aprendi a ser mãe na marra mais aprendi, claro a gente peca varias vezes, estou aprendendo. É vi que realmente quem amadurece primeiro é a mulher, meu namorado demorou pra cair a ficha. Hoje minha bebê esta com quase 2 anos, e amo chegar do serviço e ganhar abaraço, um beijo, ver ela cantando PATATI-PATATA, danço e brinco bastante, parecemos até irmãs rsrsr. Mas é muito bom tudo isso, o que tive que aproveitar já aproveitei, do muito mais valor a ela. Obrigada!!!

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  8. Daniela em

    Concordo com vc! Estou me preparando para esta nova jornada com 37 semanas de gestação e foi uma escolha muito pensada por mim e meu marido, já percebi que muita coisa mudou e sei que vai mudar ainda mais. E adorei a frase do filósofo “O desafio de ser pai ou mãe requer virtudes como coragem e generosidade – e talvez alguma dose de loucura”… E realmente serve para quase tudo na vida.

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  9. Pamela em

    Olá Michelle,
    Estava pesquisando o tema felicidade e maternidade para uma matéria de uma revista da qual participarei como fonte e cai no seu texto.
    Adorei… Muito bacana esse contra balanço que você faz com a matéria da Época. Lembro da matéria e da polêmica que causou entre minhas pacientes (mães ou candidatas a…) aqui no consultório.
    Concordo em gênero, número, grau e amor com você!
    Para se ter uma filho é necessário inenarráveis doses de generosidade, coragem, doação e muito, muito amor para dar e compartilhar.
    Um grande abraço,

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    1. Michelle Amorim respondeu Pamela em

      Oi Pamela!

      Obrigada pelo carinho, que bom que você gostou do texto :-)

      Bjo

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  10. VIVIAN em

    Queridas,
    Tenho 33 anos, 6 de casada e muuuuuiiiiiito medo de ter filhos. Ontem por exemplo cheguei do trabalho às sete lanchei troquei de roupa fui para a academia e voltei às nove de lá. Preparei um lanche para mim e meu marido e ficamos conversando até às 22:30. Daí tomei banho e já estava esgotada às 23h. Trabalho de 12 às 19 de segunda à sexta, tenho faxineira e a manhã toda livre. Ontem na hora que deitei na cama esgotada fiquei pensando como penso todos os dias: e se tivesse uma criança para cuidar ainda? As cobranças pela parte de meu marido aumentaram muito esse ano, mas ele é muito tranquilo, cobra com muito carinho, adora criança e acho que ia ajudar muito na parte de brincar, passear….se diverte muito com criança! Já eu não tenho muita paciência para isso, mas sou boa de cuidar, educar (diga-se um pouco rígida-neurótica!).
    Fiquei muito na dúvida quando li o texto e vi as mães dizendo que não sentem infelicidade mas frustração, cansaço, angustia, medo, sobrecarga, cobrança, culpa…. Não seria a infelicidade a soma disso tudo?
    Ainda não me decide pois é não ter filhos é uma das opções mais recharçadas pela sociedade, doi ouvir o que a Verônica disse “não conseguir assumir que não tem a mínima vocação para amar incondicionalmente”. A gente se sente fraco, egoísta…..
    Ainda tem um problema: é uma decisão pessoal ou do casal?
    Abraços a todas e boa sorte

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    1. Reinaldo respondeu VIVIAN em

      Penso que filho é um decisão do casal, pois muda toda a ordem da vida. Não é uma mudança nem boa nem ruim, vc ganha algumas coisas e perde outras.Cada criança é única não dá para levar a experiência do outro pra sua casa.Pense na criança na sua vida, em tudo que poderão viver e fazer juntos. As finanças…as coisas se ajeitam incrivelmente, continuo vivendo, comprando, sorrindo mas atualmente invariavelmente feliz. Eu aprendi a estabelecer prioridades, a dividir, a pesquisar, a não agi por impulso. A chegada dos filhos me fez um ser humano melhor. Sem baladas, mas com muita diversão. Me sinto feliz em ve-las feliz e isso não tem preço.

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  11. Cris em

    Vivian,
    Me encontro na mesma situação. Também não acredito ser egoísta e incapaz de amar! Muito julgadora a frase! Tenho uma irmã que tem um bebê especial. Sou apaixonada por ele, mas quando a vejo, penso que sua vida está um caos ( é uma verdadeira lutadora!). Também me preocupo com a questão financeira, pois há uma possibilidade de eu ter que sustentar essa criança também! É tudo tão assustador ! Bom, foi só um desabafo! Abraço

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  12. Agatha em

    Eu sou casada, gosto de crianças, mas não quero ter filhos, em comum acordo com meu esposo. Gostamos do nosso estilo de vida…! Jamais me casaria com alguém que desejasse ser pai. Acho isso incoerência. Porém admiro demais as mulheres que abrem mão de tempo e se dedicam a esta nobre vocação. Quando você realmente deseja ser mãe não vejo infelicidade, mas realização…!

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  13. Alzira E Reinaldo em

    Olá, pra mim é maravilhoso ser mãe, agora tenho algo que me faltava e não sabia o que era. Jamais me senti infeliz, senti medo de não dar conta, mas contei com o apoio da minha família a maternidade e uma janela que te leva para uma viagem extraordinária, mas temos que ter sensibilidade para poder perceber e sentir.

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