18 jun 2012

Limites e Disciplina

Estamos em um mundo com grande quantidade de explicações, onde todos tentam trazer soluções e não realmente perguntas e todos nós temos uma necessidade intrínseca, aqui e agora, de fazer perguntas.

Quantas vezes paramos para observar um caminho de formigas, uma atrás da outra levando algo?

Quantas vezes vemos as abelhas apuradas em sugar o mel?

Quantas vezes paramos para observar de que maneira um botão na primavera se abre?

Convido a todos para agora fazer perguntas primordiais:

Por que germinam as sementes? Por que os astros no céu se movem? Por que os micróbios se deslocam? Por que o vento corre? Por que as folhas caem lentamente?

Por que as crianças têm necessidade de se movimentar incessantemente?

Por que elas fazem tantas perguntas?

Por que elas correm sem direção?

O que é essa natureza que dá a algumas sementes asas como as do helicóptero para voarem longe e afastarem-se da mata de origem?

O que é essa natureza que soube pôr os elementos respiratórios das folhas em sua parte inferior para que o pó não lhes impeça a vida?

O que é essa natureza que dá cor e perfume ás flores para atrair as abelhas que servirão à sua reprodução?

O que é essa natureza que soube dar às crianças um corpo tão fofinho que nos inspira acariciá-las?

O que é essa natureza que dá a criança o dom de nos inspirar a amá-las e protegê-las?

Inspirada nessas sábias considerações e reflexões do grande filósofo Jorge Angel Livraga, que pretendo abordar o tema de hoje.

Podemos dizer que existe um ideal do corpo. Nosso corpo movimenta-se, tem uma determinada temperatura, uma forma, pois tem em seu interior algo que o justifica. Este corpo serve para manifestar algo que está além do corpo em si, não quero dizer com isso que o corpo não seja importante, ele é importante, mas precisa ser subordinado a algo que o qualifique. O corpo pede coisas, mas ao selecioná-las alcançamos a satisfação interior.

Precisamos entender que o mundo de hoje está em crise, a super valorização dos elementos materiais está nos convertendo em uma espécie de matilhas de lobos que se mordem para arrebatar a presa.. Entender que os valores, e as virtudes devem ser preservados, não é somente um aspecto cultural, mas a vida, e não somente a nossa, mas a vida das gerações que virão das crianças que ocuparão os berços que ainda estão vazios, aí está o futuro da humanidade. Por isso o nosso lema: “Construir um mundo novo e melhor”.

Por isso estamos aqui, para tentar unir nossos corações em busca de inter-relação, porque queremos construir este mundo, com um novo tipo de gente, com novo tipo de pensamento, com mais capacidade de união em nossas relações. (Já paramos para pensar que os traficantes ganham de nós em organização e concórdia?)

Concórdia não significa igualdade, não há duas coisas iguais no universo. Isso é uma invenção moderna da democracia, temos sim que ter espírito de concórdia, ultrapassar as barreiras das diferenças e chegar ao interior das coisas.

Vivemos um momento em que temos medo de tudo, é a síndrome do medo e por isso mesmo temos medo de falar, de calar, de se expressar, de dizer as coisas como são. Temos que recriar a nossa força interior, e assim no menino e na menina, para poder vencer.

Nesse universo que evolui, que se move, desde as estrelas até as formigas, se ficarmos estáticos, não ficamos realmente estáticos, mas sim retrocedemos um pouco.

O fogo que surge de um fósforo tem uma pequena chama, mas sabe o que é encima e o que é embaixo, o fogo não discute a verticalidade.

É aqui que reside toda a ação educativa, cujo tema será abordado hoje.

O primeiro passo é conhecer a natureza da criança, pois essa é uma fase muito peculiar, muito especial e requer conhecimento, consequentemente sabedoria para realizar um bom processo de educação.

Minha pretensão não é habilitá-los a serem bons educadores com um simples texto, mas iniciar um processo que se estenderá ao longo de um ano.

Nossa intenção é aproximá-los do conhecimento, pouco a pouco, com aquela humildade que recomendaria Platão pelo personagem Sócrates quando dizia: “Só sei que nada sei”. Não saber é dar-se conta da própria ignorância e das próprias limitações, que é o que nos permite caminhar adiante.

Buscar sempre três virtudes fundamentais: a bondade, a beleza e a justiça.

Por que todas estas considerações? Onde queremos chegar? Visto que, o tema é disciplina e limites?

Não se efetiva disciplina sem antes realizar um processo, pelo processo é que chegamos ao resultado, porém não há resultado sem o processo.

É o que pretendo desenvolver com vocês, um processo fundamentado em princípios anteriormente abordados.

Primeiro

Ter claro o que esperamos como resultado de uma determinação, o que pretendemos com nossa ação, é evidente que se espera da criança que ela reconheça os limites, porém para reconhecê-los é preciso que eles sejam bem estabelecidos através de regras claras. É comum querer que uma criança obedeça a uma regra sem que ela tenha conhecimento prévio dessas regras.

Segundo

Faça uso da autoridade que lhe é conferida como líder do processo, para que a criança sinta-se segura, estabelecendo regras possíveis de serem cumpridas, agindo com coerência e justiça.

Terceiro

Cumprir todos os combinados, pois a sua quebra, sem justa causa, pode gerar descrédito e assim a queda da autoridade.

Quarto

Toda ação inadequada da criança deve ser corrigida, usando sempre a mesma metodologia de correção, que deve ser de comum acordo entre os pais. Ignorar estas ações seria o mesmo que permitir que elas continuem, gerando assim a permissividade.

Quinto

A disciplina impera na medida em que a legítima autoridade é exercida pelos pais, que deixam bem definidos os papéis dentro do convívio familiar, ou seja, os pais determinam as regras e os filhos as cumprem. Existe respeito mútuo quando os papéis são bem definidos.

Sexto

A oportunidade de escolha deve ser sempre oferecida aos filhos, porém cabe aos pais tomarem decisões importantes e necessárias, a palavra final é sempre dos pais.

Sétimo

A disciplina é fruto de um convívio familiar, em que cada um faz a sua parte, ela jamais é conquistada pela força ou pela imposição, tanto da parte dos filhos como da parte dos pais.

Desta forma estamos oferecendo ferramentas importantes para trabalhar com as crianças desde a mais tenra idade até o fim do primeiro ciclo de vida que se encerra aos sete anos.

Os sete pontos abordados podem ser aplicados com sucesso em crianças após um ano de idade sem nenhuma dificuldade.

Com crianças abaixo de um ano o processo é um pouco diferente, a disciplina pode ter início através de uma rotina que vai se estabelecendo pouco a pouco, em que os pais e o bebê vão se harmonizando.

Nesta fase a participação do pai nos cuidados com o bebê é fundamental. O bebê já ficou na intimidade com a mãe por nove meses e vai continuar durante a amamentação, porém o pai deve entrar em ação para ser reconhecido como líder que tem parte importante no processo educativo da criança.

A comunicação é muito importante, tanto do pai quanto da mãe. Sempre que tocar no bebê deverá informar o que está fazendo. Esta comunicação de forma correta, carinhosa e clara vai estabelecendo confiança na relação com os pais.

A rotina também é necessária nessa fase, os horários de banho, de alimentação, de passeio e de descanso, precisam ser rotineiros.

Outro ponto importante é o local de dormir, sempre deverá dormir na própria cama, jamais junto com os pais, sempre no seu espaço, que deverá ser adequado, sem barulho e sem muito estímulo de cores fortes. Ambiente harmônico e suave.

Uma criança acostumada a dormir na cama dos pais vai sempre achar que aí é seu lugar, e só assim se sentirá seguro, dificultando a conquista de uma autonomia saudável e necessária.

Isto é disciplina, é assim que ela começa a ter espaço na educação de uma criança.

É importante dar a criança o que ela realmente necessita. Podemos ver pais darem aos filhos o que eles não precisam e o que eles de fato precisam, não recebem. Dessa forma se inicia uma vida sem disciplina e quanto mais o tempo passa mais difícil fica resgatá-la, porque a criança já fez essa leitura do mundo e acha que é assim mesmo que ele é, ficando difícil mudar.

4 comentários no blog

  1. Michelle Amorim em

    Esse é com certeza um dos meus textos preferidos da Dona Lourdes. =)

    Todas as vezes que estou 100% segura de que estou agindo certo com a Mel, o problema é resolvido sem maiores traumas. Já quando vou meio com medo, tipo “ela vai chorar” ou “coitadinha dela”, pode contar que eu perco a parada… é impressionante.

    Por isso a importância dessa liderança materna/paterna.

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  2. Lu Pagliato em

    Ai, que diquinha linda. Amei. Beijos meninas

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  3. Amanda em

    Gosto muito da coluna da Dona Lourdes e das dicas que ela dá aqui no blog. Esse texto em especial eu adorei! Obrigada por compartilharem meninas :)

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  4. Andressa Schmidt em

    Também acho muito importante conhecer o temperamento da criança para poder entendê-la melhor. E isso desde bebezinho.

    Ótimo texto!

    Bjs

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