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Sobre empatia, julgamentos e as pedras que carregamos nas mãos

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Tenho passado por algumas mudanças profundas nas últimas semanas. Isso acontece de tempos em tempos na minha vida. É algo como receber um balde de água fria na cabeça e acordar, enxergar outra realidade. E, quem sabe, mudar.

Hoje, então, eu queria falar de empatia, de julgamentos, das imposições que nós achamos que os outros nos fazem todos os dias ao explicitarem sua opiniões e o modo como levam suas vidas.

Tenho visto pessoas comentando sobre a imposição e até a existência de uma maternidade perfeita. Tenho visto pessoas pedindo que as outras parem de julgar o que é certo ou errado. Tenho visto pessoas muito queridas sendo ofendidas por defenderem legitimamente seus pontos de vista, por lutarem pelo que acreditam. E posso começar esse texto dizendo que: a maternidade perfeita existe sim, mas dentro de nós mesmas. É a nossa perfeição, a minha, a sua, a da Maria, a da Joana. Porque só nós mesmas sabemos o que, afinal, é perfeito para nós.

Mas, acima de tudo, eu posso dizer que nunca poderá existir uma maternidade mais leve, desencanada, livre de tantas culpas e julgamentos – próprios e alheios – enquanto estivermos com tantas pedras na mão. Porque a empatia deve ser recíproca para funcionar, para ser genuína. Deve ser uma via de mão dupla. A aceitação da diversidade de pessoas, de pontos de vista e de crenças pessoais, deve vir de todos os lados. Não somente para aquele lado que acredita sempre estar sendo atacado.

Hoje, quando leio um texto que, a princípio eu possa discordar, tento sempre imaginar o que fez a pessoa pensar assim, o que a colocou naquele lugar. Mas nem sempre é assim. Na maioria das vezes, quando falamos que outras mães nos julgam e nos impõem a maternidade perfeita, o nosso próprio discurso contra isso já vem cheio de julgamentos e pré-conceitos também, já vem com os punhos cerrados. Então, onde está a empatia? Ela só vale para um dos lados?

Pessoas grosseiras, palpiteiras ou que falam as coisas sem pensar, sem muito tato para lidar com algumas situações, sempre irão existir. Se fazem parte do nosso círculo de amizades ou da nossa família, é mais difícil fugir disso. Mas textos, revistas, grupos, sites, blogs, esses a gente escolhe ler, escolhe acompanhar, escolhe participar. E deveríamos escolher somente aqueles que nos faz bem, que agregam algo a nossa vida.

Mas, o que faz bem? Faz bem ler experiências iguais ou parecidas com as suas, porque isso traz segurança e acolhimento. Faz bem ler experiências e opiniões totalmente contrárias, também, porque muitas vezes isso nos faz ver as coisas por outro ângulo, nos faz ter diferentes perspectivas e o melhor de tudo: nos faz pensar fora da caixinha. Ver além do que achávamos já saber por completo. E, às vezes, nos faz mudar totalmente de rumo e agradecer por isso, depois.

Hoje, eu leio mais livros do que revistas, acompanho pouquíssimos blogs e mesmo assim nem consigo ler tudo que é publicado, porque normalmente tenho que escolher entre ler ou escrever aqui para vocês. Dentre esses poucos que eu escolhi acompanhar, alguns têm linhas de pensamento um pouco ou muito diferentes das minhas, contudo, escolho acompanhá-los porque acrescem algum conhecimento à minha vida. Na maternidade (e na vida), acredito que tudo é conhecimento adquirido. As posições e decisões diferentes das suas, também. Porque, afinal, somos diferentes, não é?

O que eu pude perceber nesses últimos tempos, depois de analisar a mim mesma, é que na maioria das vezes o problema está em nós mesmos, não na outra pessoa. Nós vestimos nossas próprias carapuças e numa ilusão, achamos que os outros as colocaram em nosso caminho. Posso usar meu exemplo pessoal, como eu sempre gosto de fazer (afinal, quem eu conheço melhor do que a mim mesma, não é?). Lembro que, há alguns anos atrás, eu me sentia um pouco incomodada quando lia a respeito de alimentação saudável, do não uso de industrializados, da chupeta, das restrições à tv e das tantas atividades e brincadeiras que as outras mães, tão criativas e dispostas, proporcionavam aos seus filhos. Mas, porque isso acontecia? Porque eu me sentia intimidada, incomodada com isso tudo? Era porque aquela pessoa estava me dizendo “faça isso, porque o meu jeito é melhor que o seu / você está fazendo errado” ou porque eu, no fundo do meu coração, sabia que não estava fazendo o meu melhor? Sabia que não estava nem tentando dar o meu melhor?

É muito mais fácil se colocar no lugar de vítima, colocar a carga nos ombros das outras pessoas ao invés dos seus. Eu já fiz muito isso. Mas quando agimos assim, colocamos barreiras, nos impedimos de aprender, de sermos mais solidários e receptivos com os outros e com a própria vida.

Tem um ditado que diz que as pessoas julgam aquilo que não entendem. E é exatamente isso. Essa é a resposta para quando você se sentir incomodado pela opinião ou pelos conselhos alheios. Era assim que eu me sentia e é contra isso que tenho lutado todos os dias.

Os palpites são chatos? São. Ouvir aquela amiga ou conhecida (ou mesmo aquele estranho na rua) dizer que você deveria fazer isso ou aquilo, é chato? Claro que é. Mas, quando é que a gente para pra pensar: por que será que essa pessoa está me falando isso? por que ela está querendo me impor algo? Então. É isso. Ela não está. Ela está apenas querendo compartilhar com você aquilo que funcionou com ela ou aquilo que ela crê ser o melhor. Porque a gente gosta de compartilhar. Porque a gente gosta de deixar clara a nossa opinião sobre tudo, porque achamos que conhecemos o melhor caminho. Isso faz parte do ser humano. É assim comigo e com você, provavelmente. O que temos que trabalhar, porém, é a forma como falamos, como expomos os nossos pensamentos. E também, a forma como recebemos as opiniões contrárias às nossas.

As pessoas que gostam de um pitaco e de, sempre que possível, imprimir suas convicções e crenças para o mundo, poderiam sim pegar mais leve. Mas quem coloca os filtros nos nossos ouvidos, somos nós mesmos. Quem tem o poder de fechar ou abrir nossos olhos, na grande maioria das vezes, somos nós mesmos. Não há como culpar os outros por isso.

Quando minha mãe me dizia para oferecer chá e água para a Melanie recém nascida, entre as mamadas, não era porque ela sentia prazer em ser palpiteira ou interferir na minha vida. Era porque, nas crenças dela, dentro do que ela aprendeu há anos atrás, aquilo era bom. O mesmo quando ela me perguntou porque não comprávamos um andador para o Leo. Nas primeiras vezes, eu reagi muito mal a todos esses pitacos. Porque achava que eu, estando mais atualizada, estudando a fundo certos assuntos, não precisava de conselhos. Mas, depois, aprendi a relevar, a filtrar o que servia para mim ou não. E apenas dizia a ela que isso ou aquilo não condiziam com o que eu acreditava ser melhor para os meus filhos, que eu tinha decido por outro caminho. E ponto. Se ela parou de falar? Não, claro que não! Mas eu parei de me incomodar com isso. Porque não posso mudar os outros, mas posso mudar a mim mesma e isso já é um começo.

Outro exemplo são os blogs e pessoas que eu achava serem muito radicais, por exemplo, e passei a ver com outros olhos. Porque aquilo podia não se aplicar à minha vida, naquele momento, mas dá certo, funciona e faz bem para a outra pessoa, para outra família, olha que bacana! E se bobear, ainda acabava por colocar em prática algumas dessas coisas que lá no início, pareciam tão distantes da minha realidade. Esse estranhamento lá do início, pode ser um ciclo de aprendizado. Só depende de nós.

O que é muito diferente, porém, é alguém que escreve de forma ofensiva, que escreve para agredir, para disseminar o ódio a algumas pessoas – como várias páginas espalhadas pelo Facebook, por exemplo. Essas, na minha humilde opinião, não merecem a sua atenção, não merecem o seu tempo. Ou, pelo menos, não merecem o meu.

É difícil ter essa empatia com quem pensa diferente ou até mesmo com quem nos critica? Claro que é! É um exercício diário e exaustivo. As pessoas julgam. Não deveriam, mas julgam. Eu já julguei e você provavelmente, em algum ponto da sua vida, também. É parte do ser humano falho e imperfeito que nós somos. Por isso deveríamos buscar melhorar, aceitar e acolher, ao invés de afastar, de devolver essa onda em forma de mais críticas e julgamentos. De nada adianta pedir que as pessoas parem de nos julgar ou de tentar impor regras para a nossa vida o tempo todo, quando nós mesmos fazemos isso. O negócio é olhar para dentro, para você mesmo, para o seu próprio umbigo.

O seu caminho, aquele que você irá trilhar, quem decide é você. A bagagem que você irá levar, também. Então, aceite, compreenda, mude quando sentir vontade de mudar, discuta quando sentir necessidade de debater algum assunto. Mas, tente praticar a empatia. De verdade. Solte suas pedras. Deixe que suas mãos fiquem livres e não mantenha seus dois pés atrás antes mesmo de começar ou de conhecer algo ou alguém novo. Lembre-se sempre que só vale a pena levar coisas boas nessa bagagem que carregamos e uma delas, é o aprendizado. Até mesmo das coisas que você acha que não precisa. E isso vale para a maternidade e para a vida.

 

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19 comments

  1. nossa michelle! estou passando per um momento delicado na minha vida e é proprio como voce disse!
    eu ate imprimi seu testo pra colocar na mesa do meu escritorio pra eu lembrar sempre!

  2. Otimo post, realmente quando minha filha nasceu me davam muitos pitacos, eu na maior educação não respondia, mais me mordia por dentro, “Como ela pode me falar isso, claro que eu sei daquilo”, até que um dia explodi com uma pessoa muito querida que me ajudou e ajuda muito, então percebi que os pitacos eram opnioes, diferentes do que eu acreditava, mais opnioes que ela dava por ter criado seus filhos assim e querer o melhor para minha filha.Hoje mudei meu pensamento, ouço e filtro, claro as vezes penso “eu sei disso, ela é MINHA filha”, mais não sou mais grossa ou me mordo por dentro, até pergunto se tiver duvida.
    Equilibrio isso define tudo.
    Muito bom ler seus textos, me sinto uma mãe mais “normal” por não ser perfeita.

  3. Olá Michelle,
    Prefeito o seu texto. Estava precisando ler essas palavras, pois estou passando exatamente por essa fase de julgamentos e opiniões alheias. E quer saber de uma coisa, concordo com você, eu deixo isso acontecer, pois acabo falando demais da minha vida, até pela falta de experiência como mãe. E ao mesmo tempo acho que fico buscando uma perfeição e aceitação dos outros que não existe.
    Aproveito para dizer que adoro o seu blog e ele acrescenta e muito no meu dia a dia.
    Beijos, Aline

  4. ahhh isso é muito dificil empatia é bem complicado de se exercitar,…..mas ja passei mtas vezes por isso como todas nos passamos e hj tento entender mais os outros na vdd sou bem compreensiva e sempre busco aprender com o diferente e mtas vezes ate ficar quieta quando nao concordo por simplesmente achar que nao vale a pena a discussao…como vc disse é um exercicio diário nao é facil mas esse é o caminho…..e penso que por exemplo o que minha mae ou minha sogra faziam nao está de todo errado nao é se nao nao estávamos aqui….claro que tem o filtro que deve ser usado mas mtas vezes ligo pra minha mae pra pedir a opiniao…..olha mae vou fazer isso dar aquilo o que vc acha? ela fala melhor nao ou acho que sim…tbm ja eprguntei a minha sogra…..e assim vamos…claro temos diferenças mais com a sogra ne ehhehe mas aprendi mto a respeitar…..pois afinal elas já sao avós de mais de um neto acho que sabe mais um poquinho que eu ne…..mas tbm ouço pediatra e minhas convicções e assim to bem feliz…..

  5. é da nossa natureza julgar. a gente faz isso, é feio, mas faz parte. o problema todo não é o julgamento em si, pois muitas vezes até acredito ser pelo bem do próximo. o que é tenebroso são as humilhações, as criticas maldosas, a falta de bons modos que nossa sociedade perdeu há tempos.
    eu tento ser boa mãe dentro das minhas capacidades, do meu modo de vida, da minha situação economica. perfeição nao existe, existe aquilo em que cada um acredita ser o melhor. quando há algo que está incomodando a gente vai lá, pesquisa, se informa e muda (se der pra mudar), o que nao dá pra viver é com a mente pesada, com a consciência martelando que tem algo errado. Pra mim esse é um dos maiores desafios da maternidade.. essa busca constante, essas mudanças que vamos passando junto com o desenvolvimento dele(s). é o nosso maior aprendizado, errando ou acertando, mas acima de tudo tentando fazer o melhor.

    Beijos !
    Juliana

  6. A transformação e notada pelas suas palavras,realmente não e uma atitude fácil,e um exercício diario,mas mto válido que pode melhorar mto nossas vidas!Tbm passei por situações difíceis com minha mãe com opiniões diferentes,mas hj em dia tbm relevo!

  7. Obrigada, Michelle. Teu texto caiu como uma luva. É justamente a fase que estou vivendo, com bebê pequeno. Há cerca de uma semana venho pensando justamente nisso. Acredito que estou conseguindo não mais explodir com as pessoas como fazia no começo da vida de mãe, mas é um aprendizado. Demorei 8 meses (a idade do bebê) para começar a assimilar isso. Obrigada!

  8. Acompanho seu blog há muito tempo, mas só hoje decidi comentar, apesar de sempre amar tudo o que você escreve. E vou ser bem sucinta: texto brilhante! Espero que você lance um livro, Michelle, porque você tem um dom. Beijos muito cheios de admiração!

  9. Muito bom Michele. Você consegue expressar, na simplicidade, como cada uma nós, com nossas diferenças e particularidades, nos sentimos. Ler seus textos me faz sentir mais “normal” nos meus inúmeros defeitos. Obrigada por compartilhar conosco esse seu dom de transmitir o que sente e pensa com tanta serenidade.

  10. Lindo texto, amei e me fez refletir muito, creio que o mais abrangente que já li. Normalmente as pessoas escrevem sobre o próprio lado da questão e o não o do outro. Devo dizer que já julguei muito e após ser mãe e virar vítima das opiniões e pitacos alheios, infelizmente muito pitaco traz uma critica disfarçada, aprendi a não julgar, mas ainda não sei aceitar bem tudo o que ouço. Até hoje, com a minha filha aos 5 meses, muito bem desenvolvida, me questionam sobre a amamentação. Duas coisas que muito me irritaram foi ouvir dúvidas a respeito do fato de querer um parto natural, humanizado e amamentar. Ainda na maternidade com a minha filha aprendendo a mamar já vinham me falar sobre complementação e até chuquinha compraram (?!). Sei que o intuito é ajudar, mas se soubessem o mal que é feito a uma mãe de primeira viagem insegura, sem experiência e com medo de fracassar, manteriam suas bocas fechadas, porque, meu Deus, quanta bobagem passa na cabeça de uma mãe e quão fácil é deixar a pobre perdida e cheia de dúvidas. Eu li muito, aprendi toda teoria que foi possível e ainda sofri, mas mantive minhas convicções. Hoje em dia eu ouço e ignoro quase tudo, Poker face mode on. Mães, não se esqueçam de que, somos sim, muito capazes, mas uma ajuda é sempre bem vinda. Há um ditado em algum lugar que diz ser preciso uma tribo inteira para criar uma criança.

  11. Oi Michelle, amei o post. Isso é uma coisa que precisamos aprender e praticar, pois temos consciência disso, mas no dia-dia é tåo difícil. Estou tentando mudar, nao ligar p opiniao e intromissao das pessoas, no meu vaso principalmente da sogra, que é uma Pessoa boa, mais difícil nesse quesito. Ela além de falar, quer passar na minha frente e tomar conta do meu filho de 1a8m comigo do lado, como se ela tivesse autoridade de dizer o q pode ou nao. Tengo tentado melhorar, nao dar importancia p nao me chatear. Ás vezes consigo em outras nåo, pois sou um pouco impulsiva e sem muita paciência e qdo vi já me irritei e respondi. Uma sugestao: Faca un post sobre esse relacionamento difícil mae/ bebe/ crianca/ sogra. Bjoss

  12. Acabei de ler seu post, ia ler sobre batizados, quando vi o título. Acabei de sair da casa da sogra, ouvindo que o silêncio exagerado em que meu filho de 4 meses está para mamar ou dormir está errado, que assim que for para escola irá sofrer… Comentei ainda, o que quer que eu faça? Não gosto de barulho ou falação de rádio. Na realidade a crítica é por ficar sozinha em casa o que eu gosto muito, curtindo meu filho, já que demorei para te-lo e logo terei que voltar a trabalhar. Sai com raiva, pensando que é óbvio que não quero que sofra e assim como uma das suas leitoras acho que minha sogra fala com “conhecimento de causa” por ser mais velha, por ter mais filhos e querer educar. Como você mesmo disse. Cada mãe faz seu melhor e acho que cada mãe deveria ficar em seu lugar, pois cada mãe é única e todas tiveram a chance de por em pratica seu lado maternal. Temos que aprender a escutar, filtrar, mas também respeitar e deixar que o lado mãe de quem está exercendo a função a vontade e livre de críticas de mães experientes e expor opiniões somente quando solicitado.
    Um beijo, adoro seu blog.

  13. Nossa Michelle como eu gosto de ler seus textos e esse foi maravilhosamente escrito. Concordo com a Fabiana Medeiros… e como vale pra vida!!! Pra toda vida…
    Beijos

  14. Confesso que me incomodou um pouco ler o seu texto, mas acho bom. Faz-me pensar. Não que eu não tente praticar a empatia, mas acredito que qualquer relacionamento se faz em via dupla. Então, devemos puxar sim a responsabilidade para nós e encararmos a nossa culpa em cada situação, mas fica muito difícil quando isso só é feito de um lado e o outro lado sempre se vitimiza e se redimi de qualquer culpa. Então, é melhor dar um passo para trás e evitar algumas situações. No meu caso, isso significa que não quero ter razão, quero ser feliz.

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