02 jul 2012

Educação: a bondade, a beleza e a justiça

Se você tem um projeto para um ano,
Plante um grão;
Se você tem um projeto para dez anos,
Plante uma árvore;
Se você tem um projeto para uma vida,
Eduque uma criança.

(Provérbio Africano)

Não existe escola especializada em preparar pais para a tarefa mais importante de todas que é educar, ou seja, saber atuar como pais e mães, educando com amor. Isso supõe sabedoria. “Não se nasce pai e mãe, mas sim, torna-se pai e mãe”. Este é um processo que inicia na infância, quando o exemplo dado pelos nossos pais é tão forte que perpetua até o final da nossa vida.

Educar é um ato de amor, e o amor abriga em si, virtudes como: o bem, a verdade e a vida. Por esta razão requer sabedoria e coragem. A sabedoria se revela através de ideias, ações e muito coração. Sábio é aquele que é capaz de sentir e praticar o que diz com coragem. Coragem porque requer coração e ação (cor + agem).

É comum os pais repetirem o mesmo modelo de educação usado pelos seus próprios pais, tendo eles acertado ou não, isto prova a força do exemplo. Há casos em que os pais usam exatamente o modelo inverso por se sentirem injustiçados ou muito castrados pelos seus pais na infância, gerando assim a falta de limites, ingrediente tão necessário para uma educação de verdade.

Uma educação feita com sabedoria dá condições para que a criança tenha uma autoimagem positiva, e assim relacionar consigo mesmo, com o outro e com seu entorno acertadamente e com mais facilidade.

Ter uma boa imagem de si mesmo é condição fundamental para o equilíbrio e a felicidade de todo ser humano.

Após muitas conversas com os pais, ao longo de muitos anos, detectei quais as maiores dificuldades que eles encontram para educar seus filhos, dentro de um mundo essencialmente materialista, onde os contravalores imperam.

Com o intuito de ajudá-los nessa árdua tarefa, proponho que ela aconteça dentro de uma visão humanista de educação, preservando valores e virtudes primordiais.

As três maiores virtudes de acordo com o filósofo Jorge Angel Livraga são: a bondade, a beleza e a justiça. Todas as demais nascem delas, sendo que para praticar a bondade, todas as demais estão implícitas.

Jorge Angel Livraga, fundador da Escola de Filosofia a Maneira Clássica Nova Acrópole, merece ser citado aqui pela maneira profunda e brilhante que aborda esses temas, me inspirando também a abordá-lo hoje, com vocês.

Os temas, que respondem às três virtudes referidas acima, estão relacionados abaixo. Proponho uma reflexão detalhada de cada uma. Isso garantirá a posse de ferramentas valiosas para que possam educar suas crianças com sabedoria.

– Despertar na criança o senso de bondade, de beleza e de justiça.

– Preservar e promover a saúde, valorizando e cultivando hábitos corretos de higiene, de sono, de alimentação e brincadeiras.

– Fazer uso correto da linguagem, de forma clara e objetiva, com comandos precisos, evitando o tom irônico, pois ele fere tanto quanto a agressão física.

– Fazer uso de uma metodologia adequada para corrigir, promovendo assim uma verdadeira ação educativa para que não gere permissividade.

– Exercer a legítima autoridade, determinando com clareza os limites para que a ordem e a disciplina prevaleçam, sem fazer uso de punições e ameaças para instaurá-las.

– Exercer a liderança com regras claras, posicionando a criança dentro da família. Os pais são os líderes e determinam as regras; os filhos as cumprem. O poder de decisão será sempre dos pais. Cabe aos filhos acatar as regras e as decisões, cumprindo-as com respeito.

– Tomar decisões cabíveis e bem pensadas para poder cumpri-las. Caso contrário, os pais ficarão desacreditados e perderão a autoridade.

– Manter-se firme diante dos desafios da criança; não perder o controle manifestando irritação e carga emocional, pois assim estará sendo exposta sua fragilidade, e perdendo a rédea da situação. Mostrar a ela que tem a posse do poder de decisão.

– Toda ação inadequada da criança deverá ser corrigida no ato. Corrigir não significa punir. Porém, jamais a ignore, pois assim estará dando espaço para a permissividade. Ao corrigir faça-o sempre com serenidade, segurança e respeito, com a certeza de quem sabe o que faz e porque o faz. Só assim conseguirá o resultado almejado.

– Adote sempre uma metodologia de correção que deverá ser de comum acordo entre as pessoas envolvidas com o processo educativo da criança, dentro da família.

– Agir sempre com honestidade, falando sempre a verdade. Lembre-se que o exemplo é o meio mais eficaz que podemos utilizar para educar.

– A disciplina é estabelecida com a determinação dos limites, através de regras claras e sábias, e com posturas e posicionamentos fortes.

– Agressividade é diferente de manifestação de insatisfação, através da ação corporal como atos instintivos e impulsivos gerados pela falta de domínio da comunicação verbal, pela ausência de um raciocínio lógico elaborado.

Em posse destes conhecimentos, os pais estarão aptos a educar suas crianças com muito mais tranquilidade, e o convívio familiar será muito mais harmonioso e feliz.

Afinal o maior sonho de todo ser humano não é ser feliz?

5 comentários no blog

  1. Lorena Leandro em

    Não esqueçamos que os conceitos de beleza, bondade e justiça na filosofia vêm lá de Sócrates e Platão.

    Quanto à punição, ela não precisa ser física. Ela é necessária, de algumas formas, para que uma criança entenda que existem consequências para seus atos. Afinal, não se deve ignorar a existência dos antagonismos certo e errado, beleza e feiura, bondade e maldade, justiça e injustiça. Sem qualquer tipo de punição, e sem limites definidos entre o que é bom e ruim (e seus efeitos), como ela entenderá a correção?

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    1. Michelle Amorim respondeu Lorena Leandro em

      Olá Lorena, tudo bem?

      Passei o seu questionamento para a Dona Lourdes e ela nos enviou uma resposta:

      “Prezada leitora,

      Primeiramente quero me desculpar por ter omitido Platão ao citar o filósofo Jorge Angel Livraga, grande filósofo da atualidade, que, baseado em Platão, aborda tão sabiamente as virtudes: beleza, bondade e justiça. Segundo Platão, há outros entre estes arquétipos – esse pode ser um tema para uma pesquisa muito interessante.

      Quanto à punição, suponho que é só uma questão de interpretação, pois a punição por si só não educa. Faço essa afirmação com base em estudos e experiência de mais de cinquenta anos em educação e também como filósofa, há mais de dez anos.

      Precisamos considerar que a forma de educar em base a punição não nos trouxe bom resultado – constatamos isso nas escolas e nas famílias que usam esse processo, tendo como resultado a sociedade que aí está. Estamos satisfeitos com essa sociedade? Quem são as pessoas que a compõem? São frutos de que modelo de educação?

      Entendo e afirmo que todo ato inadequado cometido por uma criança precisa ser corrigido sim, porém através de uma metodologia adequada que leve a criança a perceber a consequência de seus atos, respeitando-a como aprendiz que é e enquanto ser humano.

      Esta metodologia consiste em fazer valer três forças infalíveis que são: intenção, palavra e ação.

      Primeiramente é preciso que o educador tenha claras as regras estabelecidas, que também deve ter para a criança.

      Segundo, a criança deve ser alertada sobre sua ação inadequada, mas tão somente alertada e não condenada, o que é comum se ver, quando o educador não possui competência para educar.

      Terceiro, se a criança não respeitou a regra, retire-a da ação, trazendo-a para junto de si, contendo-a com a intenção de ajudá-la a entender que só continuará na ação anterior se praticá-la corretamente. Assim, ela arcará com a consequência de seu ato e conseguirá discernir entre o certo e o errado, tendo condições para optar pela ação correta, pois não vai querer ficar contido por muito tempo. Além de tudo, exercitará a escolha, tão necessária para o desenvolvimento saudável da criança. Não estou falando de castigo e nem de exclusão, mas sim de educação.

      Reafirmo, assim, que punir não é educar. Educamos quando damos à criança a oportunidade de assumir a consequência de seus atos, para que haja responsabilidade e a ação correta prevaleça.

      Nesse contexto, disciplina e limites são fundamentais, porém dentro do conceito de justiça tão bem colocado pelo grande sábio Platão, norteador do processo de educação na Escola Giordano Bruno (ver texto Disciplina e Limites anteriormente postado aqui no Vida Materna).

      Meu intuito é levar uma reflexão sobre educação a leitores que de alguma forma contribuem para construir um mundo novo e melhor.

      Espero ter contribuído com sua questão!”

      Maria de Lourdes Barduco

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  2. Camila em

    Lorena, pelo o que entendi do que a dona Lourdes falou, é possível sim você determinar os limites para a criança sem que seja necessário puní-la. Ela não falou de ignorar antagonismos e não dar limites definidos, pelo contrário. Ela prega a correção do comportamento inadequado desde cedo para que não seja necessário punir a criança. Corrigir é diferente de punir. É anterior!
    Por exemplo: seu filho está brincando do seu lado e começa a bater com um brinquedo em você. Ao invés de punir ele dizendo que fazer isso é feio (ou que ele é um menino feio) e tirando o brinquedo da mão dele; você vai dizer que fazer isso machuca a mamãe (isso é ruim) e vai mostrar que ao invés de bater em você, seria mais legal se ele fizesse carinho em você (isso é bom). Dessa forma você corrigiu a criança, impôs e ensinou o limite (bater não é legal porque machuca a mamãe, mas fazer carinho pode) e não precisou punir. Consegue ver a diferença?

    Acho que foi isso que a dona Lourdes tentou dizer. Esse “método” citado hoje pela dona Lourdes, é algo que eu uso desde que minha filha nasceu. Li muito a respeito disso quando minha filha nem engatinhava ainda e foi o método que escolhi para criar minha filha. E nem estou dizendo isso porque a dona Lourdes é colunista do blog! hehe A Tracy Hogg mesmo fala muito sobre isso nos livros dela. Eu, particularmente, acredito muito no respeito ao indivíduo como método de criação de um filho e por isso a punição nunca foi um método que considerei em usar com minha filha. Ela não é nenhuma santa, mas todos que a conhecem vão afirmar que ela é educada. Claro que por esse método ser o escolhido por mim, não quer dizer que ele vá ser o certo ou o melhor. Cada um cria seu filho como bem entende. É apenas o modo como eu escolhi.

    As pessoas confundem muito corrigir com punir e acham que não é possível educar sem punir e não resultar em crianças desajustadas, sem limites e mal criadas por aí. É possivel sim. :)

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  3. Carla em

    “Toda ação inadequada da criança deverá ser corrigida no ato. Corrigir não significa punir. Porém, jamais a ignore, pois assim estará dando espaço para a permissividade. Ao corrigir faça-o sempre com serenidade, segurança e respeito, com a certeza de quem sabe o que faz e porque o faz. Só assim conseguirá o resultado almejado.”
    Essa serenidade é muito difícil de conseguir né? sempre q a Bruna vai pegar alguma coisa q não deve a gente diz “Bruna, não! vai fazer dodói” e ela olha pra gente e faz q não com a cabeça (uma fofa, vontade de morder mas tem q segurar e se manter firme no propósito).
    Se a gente fica de olho e consegue EVITAR q ela pegue a tal coisa, evitamos choros e xingões, pq depois q pegou, machucou ou estragou tal coisa, daí é tarde.
    Adoro vcs gurias! Me ajudam muito a me “tornar” mãe.
    bjos

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    1. Michelle Amorim respondeu Carla em

      Oi Carla! A gente fica muito feliz por poder de alguma forma, ajudar! =) Obrigada pelo carinho!

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