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É só cabelo?

Desde que consigo me lembrar, eu sempre cultivei cabelos bem compridos – exceto quando aos cinco anos eu cortei minhas próprias madeixas na altura do queixo ou quando acreditei fortemente que poderia ser uma Paquita se minha mãe caprichasse no repicado e naquele franjão que começava lá no alto da cabeça. Fora esses grandes marcos capilares, os fios longos sempre foram parte importante de quem eu era e por muitos anos eles chegavam até a cintura quase. Aquele cabelo fazia sentido pra mim.

Conforme fui crescendo, amadurecendo, me tornando responsável por outras vidas além da minha, me perdendo e me reencontrando em caminhos diferentes, fui sentindo também um anseio enorme de mudar tudo aquilo que estivesse ao meu alcance – o que nem sempre consegui. Mas ainda assim, mudanças e transformações foram acontecendo em diversas fases minhas. Mudanças grandes, pequenas, internas, externas, outras perceptíveis somente para mim.

No meio disso, o cabelo foi encurtando também – e aqui, eu poderia fazer uma piadinha bem sem graça e dizer que eles diminuíram assim como a minha paciência ou as minhas horas de sono, mas deixemos isso pra lá.
Acontece que, ainda que eu sempre estivesse vislumbrando uma tesoura a trabalhar nos meus fios vez ou outra, eu tinha medo.

“corta só dois dedinhos, tá?!” – com aquele pavor de que o cabeleireiro não me desse bola e jogasse a minha “feminilidade” no chão junto com os fiapos recém cortados.

Mas é compreensível. Eu cresci ouvindo por todos os lados que “homem gosta de mulher de cabelos compridos” (assim como batom vermelho ou roupa curta é “coisa de puta”, sabe? mas felizmente para esses e outros machismos, a minha alma tratou logo de gritar bem alto “é uma cilada, Bino!” e eu não me deixei atingir). Mas esse “dogma” do cabelo ficou por muitos e muitos anos incutido e enraizado dentro de mim.

Até que um dia, eu parei de ter medo de assumir uma atitude diferente daquela que as pessoas esperavam e de sustentar as minhas escolhas mesmo que elas não estivessem “de acordo” para os demais. E, sim, pode ser “só cabelo” para algumas pessoas. Mas eu digo com plena convicção: eu nunca me senti tão livre e dona de mim nessa vida 💜

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