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E enfim, demos adeus à chupeta

A primeira vez que eu quis retirar a chupeta da Melanie, foi no início do ano passado. Como estávamos em processo de desfralde, achei melhor esperar e fazer uma coisa de cada vez. O desfralde deu super certo e em pouco mais de uma semana demos adeus às fraldas – pelo menos de dia.

Logo depois disso, em fevereiro, eu engravidei do Leo. Como ela ficou mais manhosa, sentiu bastante a mudança que estava por vir, decidimos esperar aquela fase passar. A gravidez foi chegando ao fim e ela ainda usava chupeta. Em outubro nos mudamos para a casa nova e com isso ela teria mais uma mudança à vista: dormir no próprio quarto. Mais uma vez, a retirada da chupeta foi adiada.

Em novembro, Leonardo nasceu e claro, era o pior momento possível para tirar da Mel algo que ela tinha tanto apego. Resolvemos esperar, mais uma vez.

No Natal, Mel pediu uma bicicleta e combinamos que ela entregaria a chupeta ao papai noel então. Fizemos toda uma cena de colocar as chupetas num potinho e deixar na frente da porta. Depois de alguns minutos a bicicleta apareceu no lugar do pote. A felicidade dela foi imensa, mas ficar sem as chupetas durou apenas algumas horas, duas, eu acho. No primeiro choro, cedemos e demos as chupetas para ela novamente. Definitivamente, não estávamos prontos.

Alguns meses se passaram, fomos adaptando nossa vida e nossa rotina, agora com duas crianças, e de repente senti que era o momento certo, realmente, para a chupeta ir embora. As crianças têm uma necessidade grande de sucção até os dois anos de idade, mas depois disso, ela é substituída por outras formas de satisfação como comer, brincar, falar, enfim, descobrir o mundo.

Melanie estava com 3 anos e meio, daqui a pouco com quatro já. Não era mais aceitável usar chupeta e acima de tudo, a chupeta não tinha mais nenhum benefício para ela, ao contrário. Era uma situação que estava me incomodando demais.

Li diversos textos, conversei com muitas pessoas antes de começar o processo. As dicas eram as mais variadas possíveis: cortar ou fazer um furo na chupeta a fim de burlar a sucção, substituí-la por uma menor para dar a impressão de que a criança cresceu, trocar a chupeta por algo com o papai noel ou o coelho da páscoa, dar a chupeta para o macaco no zoológico, enfim, inúmeras opções e histórias que deram certo com vários pais. Mas eu não sentia que nenhuma dessas alternativas seria a nossa solução.

Conversei então com a pedagoga da escola, ela me esclareceu muitas dúvidas e mais uma vez reforçou o ensinamento mais importante que ela me passou nesses anos em que convivemos: usar a firmeza aliada ao amor nas atitudes.

Depois de viver alguns processos com a Mel – adaptação na escola, desfralde, gravidez, chegada do irmão e agora retirada da chupeta – percebi que não só as crianças precisam estar prontas para as mudanças, mas nós principalmente.

Sentindo que o momento tinha chegado, conversei bastante com ela, sempre devagar, sempre aos poucos. Disse que ela já era uma criança e não mais um bebê e que não precisava mais de chupeta. Que a chupeta iria deixar seus dentinhos tortos, que causava um cheiro ruim na boca e outras verdades, fáceis dela entender. E o mais importante: informei à ela que, a partir do dia seguinte, ela não usaria mais pepê.

Aproveitei o feriado de Carnaval, em que ela estaria todos os dias em casa e meu marido idem, para me ajudar no que fosse necessário.

O primeiro dia sem a chupeta

Assim que acordamos, peguei as duas chupetas que ela tinha e escondi. Minha intenção era jogar fora, o quanto antes, para não correr o risco de voltar atrás.

Passamos pelo café da manhã, algumas brincadeiras, almoço e nos arrumamos para ir na casa da vovó. Melanie sempre ia para o carro já com o kit chupeta e cheirinho em mãos. Sempre. Nesse dia, ela procurou, procurou, pediu que nós achássemos e eu, muito calma porém firme, disse que havia avisado que a partir daquele dia ela não usaria mais chupeta. Ela chorou um pouco, ficou repetindo “quero minha pepê” infinitas vezes. Eu a abracei e assim ficamos por algum tempo. Chorosa ela foi para o carro e seguimos para a casa da minha sogra. No caminho, muitos “eu quero a minha pepê” foram repetidos, em tom choroso. Conversávamos com ela a fim de distraí-la e deu certo.

Lá na casa da vovó ela brincou muito com os primos, fizemos um lanche e enfim chegou o momento mais temido por mim: a hora da soneca, a primeira soneca sem a chupeta.

Mel chegou perto de mim, cheirinho na mão, carinha de poucos amigos, e disse: “mamãe, eu quero a minha pepê, por favor”. Nessa hora, tia, tio, dinda, pai, to-do mun-do me olhou com a maior cara de pena da criança. Parecia que a qualquer momento alguém sacaria uma chupeta mágica do bolso e acabaria com tudo. Mas ufa, ninguém fez isso.

Ela sempre diz que é uma princesa, e aqui em casa gostamos de atribuir outros adjetivos a isso, além da beleza. Por isso, ali, na casa da minha sogra, comecei o meu discurso, cheio de amor, carinho e paciência, que dizia: “filha, você cresceu. você é uma princesa guerreira, forte, valente, vai conseguir superar esse obstáculo. eu estou aqui pra te ajudar. eu sei que você gostava da pepê, sei que ela está te fazendo falta. eu te entendo. mas vai passar, eu prometo. vou estar ao seu lado pra te ajudar e você vai conseguir.”

E nada disso foi dito da boca para fora. Eu realmente acreditava que nós podíamos vencer aquilo.

Ela chorou baixinho – nada comparado ao escândalo que eu achei que ela faria. Percebi que ela se sentia compreendida, acolhida, muito embora eu continuasse firme na minha decisão. Pediu colo e ali nos meus braços, depois de muitos cafunés, dormiu. Sim, dormiu. Sem chupeta, pela primeira vez. E meu sorriso chegou nas orelhas.

Vindo para casa, eu sabia que teria a batalha mais difícil pela frente: o sono noturno, sem chupeta. Seguimos com nossa rotina normalmente: jantar, brincar um pouquinho, banho, pijama, mamá e cama. Mel pediu para dormir conosco – o que para falar bem a verdade, acontece quase todos os dias –  e eu a levei para a nossa cama. Lá ela choramingou um pouco, disse várias vezes que queria muito sua pepê. Mas surpreendentemente, ela parecia entender que aquilo realmente tinha chegado ao fim. Estava resignada já, embora estivesse triste. Poucos minutos se passaram e entre abraços e beijos, ela adormeceu vitoriosa, sem chupeta. Não acordou durante a madrugada, somente quando o dia nasceu.

O segundo dia sem a chupeta

Mel pediu seu mamá matutino e ficamos ali um tempinho, conversando, contando nossas historinhas imaginárias. Eu a olhei e disse que estava muito, muito orgulhosa dela. Que ela era uma guerreira muito forte e valente e que estava conseguindo vencer um grande obstáculo, que só traria coisas boas para a vida dela, que seria para o melhor. Ela sempre abaixava a cabeça, ainda um pouco triste, e vinha me abraçar, como num pedido de conforto.

Mel estava mais manhosa e carente e nós nos esforçamos para garantir que ela tivesse todo o apoio que precisava naquele momento. Afinal, tiramos dela uma coisa que ela gostava muito e estava acostumada a mais de três anos. Era difícil mesmo.

Na soneca da tarde, novamente ela choramingou pedindo a chupeta. Eu apenas dizia, com muita calma, que ela não usava mais chupeta. Fiquei ao seu lado até que ela dormiu, pela terceira vez, sem chupeta.

À noite foi igual a anterior, praticamente. Com um pedido tímido pela pepê, sem insistir muito. Ela já tinha assimilado que não teria mais a chupeta dentro da sua rotina.

Durante esses dias, ela esteve mais apegada do que nunca à uma de suas bonecas. Acho que isso foi importante também, ter um objeto de segurança na hora de dormir, além do cheirinho dela.

O terceiro dia sem a chupeta

Acordei antes que todos, como sempre. Sentei na cama e fiquei ali, olhando a Mel dormir. Sono tranquilo, boca fechada, respirando corretamente pelo nariz. Nesse momento me senti tão feliz, tão feliz, que palavras não poderiam descrever. Minha menina tinha conseguido, tinha vencido o desafio. Nós vencemos, juntas.

Nesse dia ela veio para perto de mim, me olhou e quando foi pedir pela chupeta, fez uma pausa, pensou e disse apenas que queria o titi, que é como ela chama o cobertorzinho dela. Enfim, ela estava livre daquele hábito e da dependência da chupeta.

Desde então, pediu pouquíssimas vezes por ela e quando isso acontece, apenas a lembro de que ela não usa mais.

O que me deixou mais feliz em todo esse processo, além, claro, do fato de termos conseguido retirar a chupeta, foi como tudo aconteceu de forma clara e consciente. Sem truques, sem histórias. Porque assim foi a forma como senti que daria certo para nós.

Todas as vezes que pensei em retirar a chupeta da Mel, tive medo da reação dela. Achava que ela se jogaria no chão, choraria como se não houvesse amanhã, ficaria agressiva. Mas felizmente nada disso aconteceu.

Ao meu ver, o fato de eu estar tão convicta de que ela não precisava mais da chupeta, de que era uma mudança boa e necessária, fez toda a diferença. Em nenhum momento senti pena dela. Ficava triste por vê-la triste, claro. Mas pena, isso não. E em nenhum momento fiquei irritada com os pedidos insistentes pela pepê. Apenas aceitei que era difícil para ela e a acolhi com carinho.

Acho que isso foi crucial para que ela conseguisse se livrar do hábito de chupar chupeta – se sentir acolhida, compreendida. E com certeza foi uma das coisas que me deixaram mais contente nessa minha vida de mãe, até hoje. Mais um desafio vencido :)

Parabéns, minha guerreira.

melanie_blog vida materna

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19 comments

  1. Muitas vezes a gente não consegue vencer esses desafios por não entender o quanto uma coisinha pequena é importante para a criança. Por aqui Heitor largou sozinho a chupeta com 4 meses. Cuspia de todo jeito, eu insisti um pouco, mas ele não quis mesmo. Talvez tenha sido melhor assim. O desmame do peito que eu achei que ia ser trágico, tbm aconteceu naturalmente, sem choro, sem problemas nenhum há 4 meses. Eu o amamentei até 1 ano, indo contra a minha obstetra, pq eu já estava grávida de 3 meses. Mas criança nos surpreende mesmo. Minha mãe queria desfraldá-lo. Não deixei. Pq eu não estou pronta para isso e daqui umas 7 semanas mais ou menos, a irmã chegará e as mudanças que a chegada dela trarão já são o suficiente para ele. Fica a fralda, fica a mamadeira, fica o berço dele, o quartinho dele, sem alterações. Sua experiência fica de exemplo para muitas outras situações que ainda vamos passar!

  2. Que lindo! Saiba que você me inspira muito!
    Aqui rolou a história do Papai Noel. Eu expliquei que elas não voltariam mais, que seriam dadas de presente para os bebês. Ela eventualmente pedia, mas explicávamos e a distraíamos com algo. Ela pedia normalmente pro pai, que é mais coração mole (espertinha!). Cerca de uma semana depois ela fez um mega escândalo por uma coisa boba (que nem lembro o que é)e uma luzinha acendeu: é a falta da chupeta! Então peguei no colo e conversei. Depois disso não pediu mais.
    Nos ajudou também o livro “Adeus chupeta”. Acho que a fez compreender melhor o que estava acontecendo.
    Parabéns por mais essa conquista! Ser mãe não é um negócio fácil, né?
    Bjs…

  3. Parabens a mais uma conquista…principalmente sua pequena que foi guerreira e forte! A minha pequena, a madrinha dela simplesmente um dia chegou e disse que ia levar para o Papai Noel porque ja nao era mais um bebezinho e ela entregou….(isso ja era de noite) pediu a chupeta para dormir, lembrei que ela tinha mandado para o Papai Noel… e ela concordou, virou para o cantinho e dormir….para um grande alivio no meu coração… no outro dia, no decorrer, pediu mais uma vez…lembrei a novamente e tudo certo….acho q no decorrer dos dias lembrou mais uma vez…..e nunca mais pediu. Me surpreendi, quase que nao acreditei…achei que seria uma tarefa muito difícil.

    Um grande bj no seu coração Miii (bem intima já…rs) e que Deus abencoe sua linda familia….e mais uma vez muito obrigada por compartilhar seus momentos pode ter certeza que é muito importante para mim….como demais pessoas.

  4. Muito legal o jeito que vc usou… a minha está com quase 4 e usa a chupeta apenas a noite… já tentei tirar várias vezes (troca por brinquedo, cortar chupeta, dar uma que ela não gosta) mas nada adiantou… uma vez ficou 5 noites sem, mas começou a ter crises de “abstinência”, acordava de madrugada gritando!!! Vou tentar do jeito que vc fez… me deseje sorte!!! Bjo

  5. Quanta inspiração…. Estou nessa fase com minha filha de 2 anos e meio, também tentando saber se é a hora certa pra nós duas! Estamos no início das conversas, tentando tirar aos poucos, vamos lá, fé e coragem!
    Me emocionei com seu relato. Lindo como todos!
    Beijos a vcs!

  6. Oi , seus relatos sempre lindos ! mi, eu super sigo seu blog desde q me mudei para curitiba, amo. Acho demais. Eu queria te dar um promocode do meu e-book, para baixar de graça da iBook store, é um livro digital que tem um cardápio de uma semana para uma família, com receitinhas bem pensadas para crianças e adultos, tem as receitas e a lista de comprinhas para fazer durante a semana, gostaria de te dar para você testar e se gostar falar sobre ele no seu blog. vende na ibookstore, custa 0,99 U$ , mas posso dar para vc e caso você aprecie, algumas leitoras no seu blog. Se puder me passe seu e mail que lhe envio o código promocional. Obrigada pela atenção e parabéns.

  7. por aqui, 2 anos e 9 meses e o bico dia e noite, os dentes já estão tortinhos – se ela usasse só pra dormir eu até não me importava, mas ela quer usar enquanto brinca, por exemplo. Vou tentar agora na Páscoa, com a história do coelhinho, aliado ao teu exemplo.
    Obrigada por tudo! e a Mel é mesmo uma princesa, linda essa foto!

  8. Ai nem quero pensar quando for minha vez!! O Pedro é mega viciado na “pepe”… Fica o dia todo com a chupeta, as vezes não quer tirar nem pra comer kkkk… Parabéns pela conquista!! E nem preciso dizer que a Mel está linda demais né!!

  9. Parabéns Michelle!!!
    É muito gratificante para nós, quando os nossos pequenos mostram sinais de maturidade. Eu também gosto das coisas claras, sem historinhas. Acho importante não mentir para a criança e conversando é que a gente se entende.
    Eu estou penando aqui com o desfralde, meu filhote tem dois anos e meio e ainda não consegui nem xixi nem cocô. Ele sente que está vazando e fica nervoso e fica prendendo o xixi. Eu acho que ele não está pronto, mas a verdade é que eu não estou pronta, assim como você disse sobre a chupeta da Mel.
    Ele já dorme no quarto dele, não usou chupeta, mas o desfralde…está uma loucura. Espero apoio pedagógico para quando ele tiver pronto.

  10. Eu usei chupeta por muito tempo, minha mãe também veio com história de dar para o Papai Noel e eu topei…mas ela já tinha tentado tirar antes e me lembro de chorar e ela devolver…rs…no Natal eu joguei fora mesmo. Tenho uma amiga que a própria bebê nunca quis, todo mundo achava estranho…a menina chorava e pegava no sono assim, do nada…a gente tem o costume da chupeta mesmo.

    Bjs!

  11. Nós sempre imaginamos que este tipo de coisa é um bicho de 7 cabeças, mas depois que passamos pela “prova” é que percebemos o quanto as coisas são simples!! Parabéns para Mel!!

  12. Que lindo o seu relato! Me deu uma tranquilidade enorme de ler, porque eu estava querendo muito que minha pequena largasse a chupeta, mas ela está em fase de adaptação escolar e está mais apegada do que nunca à chupeta! Terei tranquilidade e paciência com ela.
    Obrigada por compartilhar.

  13. Muito bom ler o seu relato de forma detalhada, pois pretendo fazer exatamente igual, jogar a real com o meu pequeno que vai completar 3 anos. Ele reage muito bem com a conversa, tentar engana-lo é a pior coisa que faço, e você disse tudo, ta na hora com 3 anos, mas mudanças mexem com eles e temos de ter sabedoria de estar no momento certo e recuar se necessário não é nenhum erro…..bjs e parabéns

  14. É sempre bom ler texto de outras mães que passaram ou estão passando pelas mesmas coisas que a gente, estou na terceira noite sem a chupeta, e as sonecas da tarde são com um pouco de manha, mas converso muito com ela, e explico da mesma forma que vc. Só queria ter certeza que não causei nenhum trauma.

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