29 maio 2017

Do primeiro para o segundo ano

 

Vocês lembram que em meados de 2015 houve todo aquele debate sobre a nova data de corte para ingresso no ensino fundamental? Na época, Melanie estava no Infantil IV, com quase 5 anos de idade (que foram completados em agosto do mesmo ano). Lembro de termos ficado com uma dúvida tremenda a respeito disso: se ela faria o Infantil V na mesma escola ou se iria direto para o primeiro ano do Fundamental, em outra escola. Tivemos duas reuniões com a coordenação da escola e debatemos todos os aspectos que seriam afetados com essa mudança. Lá em 2015, Melanie ainda tinha muitas restrições alimentares, por ser extremamente seletiva desde pequenininha. Também tinha certa insegurança e alguma dificuldade em lidar com conflitos normais entre crianças daquela idade: liderança, autonomia, aceitação, acolhimento, enfim, tudo bem comum até ali. Demos uma ligeira sondada sobre o que ela pensava sobre mudar de escola antes de realmente finalizar a educação infantil, explicamos todo os processo de ida para o primeiro ano. E a reação não foi nada boa.

Analisamos todos esses fatores, e, com a eminente decisão de que a data de corte seria em 31 de março (ou seja, crianças que completassem 6 anos de idade até 31 de março do mesmo ano, poderiam ir para o primeiro ano do ensino fundamental), decidimos que ela permaneceria na escola que estava e faria o Infantil V. Sairia de lá com 6 anos – que seriam completados em agosto – para então, em 2017, ingressar no ensino fundamental e no primeiro ano. Ela não estaria atrasada de forma nenhuma, mas também não estaria adiantada. Essa decisão depois acabou não “pegando” aqui no Paraná (vou me abster de explicar em termos jurídicos, haha), e a maioria das escolas não seguiu essa data de corte. Foi o que ouvi e percebi conforme os amigos e conhecidos foram matriculando seus pequenos em diversas escolas.

O ano de 2016 foi um ano muito importante para ela. Muitas conquistas foram sendo colhidas pelo caminho, ela amadureceu um pouco mais e superou vários obstáculos. Com a formatura no final do ano passado, vimos que ela estava realmente pronta para a troca de escola e para o ingresso no ensino fundamental. Percebemos que aquela decisão tão difícil lá de trás, foi de extrema importância para ela e para o que vinha a seguir. E, claro, foi um alívio. Mas a confirmação disso tudo só pudemos ter neste ano, depois que ela realmente mudou de escola e foi nos surpreendendo a cada dia.

Lembro de ter ouvido algumas frases como “nossa, mas por que vocês atrasaram ela?”, ou “ah, você preferiu reter ela?” ou “nossa, mais o Zequinha é mais novo que ela e está indo para o primeiro ano!”. Lá no fundo, eu apenas pensava: mas… ela foi retida de quê? ela estaria atrasada para quê? Vestibular, faculdade, mestrado, doutorado, cursos em geral… eles têm dia exato e hora marcada para serem feitos? Onde está essa “regra” exata de idade a não ser na nossa vivência do dia a dia, em que cada ser humano é um? Ter alguns meses a mais ou a menos que os demais não a impediria de fazer NADA que ela QUISESSE fazer. E esse pensamento, para mim, era o que bastava. Eu sempre me recusei a fazer algo pelos meus filhos primordialmente baseado na pressão da sociedade e do que ela julga ser o correto. Nós conhecemos nossos filhos como ninguém mais conhece, assim como a realidade em que vivemos, lá dentro da nossa casa. O que os outros sabem ou veem, é muito raso e superficial para ser julgado.

Continuando, a adaptação na escola nova foi muito tranquila e até brincávamos, eu e a professora do primeiro ano, que essa adaptação nem existiu na verdade, de tão bem que ela se inseriu dentro daquele novo contexto. A profe me contava que ela ajudava a enturmar os amiguinhos mais tímidos, que era sempre a que chamava para brincar. E nisso se passaram pouco mais de trinta dias, eu acho. Tempo no qual ela pode demonstrar os conhecimentos que já tinha e também um pouco da sua personalidade. E olha, eu agradeço muito essa professora que Mel teve nesse início de ano letivo e de primeiro ano – até hoje, quando a encontro pela escola, ainda agradeço – porque ela teve o olhar atento para perceber que a Mel tinha muita vontade, potencial e estava um pouco mais “adiantada” do que o restante da turma. E, ainda, ela tinha idade para, por lei, poder ingressar no segundo ano do fundamental, já que completa 7 anos em agosto.

Tivemos inúmeras conversas – eu e Alexandre, eu e a professora, nós e a coordenadora, nós e Melanie – sobre essa ida dela do primeiro para o segundo ano. Expliquei para a Mel o que essa mudança significava, o que mudaria, o que continuaria igual, o que poderia ser bom ou, então, ruim. Claro que, para uma cabecinha de seis anos e meio de idade, as coisas não tem o peso e não significam tamanha responsabilidade quanto para um adulto. Por isso tivemos que apurar nossos sentidos para realmente “sentir” o que ela queria, os medos que estava tendo e acolher tudo isso, dar a segurança que ela precisava ter para “decidir”, sabendo que estaríamos lá por ela.

Marcamos primeiramente uma sondagem para que fosse avaliado o lado pedagógico da Mel. Ela passou bem, fez um desenho tão lindo que pedi para guardar até. Em seguida, marcamos uma vivência de algumas horas na turma do segundo ano que ela iria, caso a mudança realmente acontecesse. Quando chegamos na porta, ela se agarrou em mim, chorou um pouco e assim ficou na primeira aula. Os coleguinhas novos foram super queridos e receptivos, se apresentando, dando as boas vindas do jeitinho deles, dividindo os brinquedos, o lanche, enfim, coisas que me deixaram contente e com certeza a deixaram também. Depois desse primeiro momento mais tenso e choroso, ela se soltou e conseguiu acompanhar as aulas e as tarefas. Cheguei para buscá-la no horário de sempre e ela veio saltitante até mim, dizendo que havia sido muito legal e que sim, ela queria passar para o segundo ano.

No dia seguinte tivemos outra uma reunião com a coordenação, enquanto Melanie – bem contrariada – retornou para sua sala do primeiro ano. E lá a coordenadora nos disse que não haviam dúvidas de que, em relação a parte pedagógica, a Mel estava apta e preparada para entrar no segundo ano. A única coisa que a preocupava um pouco era a questão da maturidade para encarar essa mudança, já que ela havia chorado no dia da vivência. E, nesse caso, não havia como prevermos o que aconteceria. Haviam as reclassificações fáceis, as difíceis… as que eram um sucesso, as que as crianças sofriam um bocado para se adaptar. Ela deixou bem claro que, feita essa reclassificação, não poderíamos voltar atrás. E isso pesou bastante naquele dia. Deu um pouco de medo, sabem? Dela não se adaptar e não poder retornar ao primeiro ano. Mas esse medo durou tão pouco, que hoje quase nem lembro que o sentimos.

Acho que o maior medo era o de deixá-la no primeiro ano e que, de repente, ela se sentisse desestimulada – em relação ao conhecimento que ela já havia adquirido e ao que aprenderia naquele ano. Isso pesou bastante na nossa avaliação.

Pensamos em vários fatores antes de bater o martelo sobre a mudança. Até aquele momento, Mel sempre tinha convivido com crianças um pouco mais novas que ela – algumas com diferença de poucos meses e outras quase um ano mais novas. Ela sempre teve um sentido de liderança muito forte, assim como a autonomia. Seria diferente exercer essa liderança e essa autonomia, dentro de uma turma mais crescida, assim como ela. Justamente por isso, achamos que seria bom para ela lidar com isso de igual para igual, aprender a ceder mais vezes, aprender a assimilar melhor os outros pontos de vista – já que defender os seus pontos de vista e as suas preferências, ela já fazia bem até ali.

Fomos avisados de que teríamos muita lição de casa e leituras para recuperar, ou seja, Mel teria lição de casa em dobro por um bom tempo. Além disso, ficamos de passar com ela todo o conteúdo das aulas de inglês do primeiro ano, para garantir que ela não ficasse sem essa base. No segundo ano, ela teria quatro aulas semanais de inglês, num ritmo um pouquinho mais puxado. Por isso seria bom repassar o conteúdo perdido. Esse foi um dos motivos do meu sumiço por aqui, aliás.

Depois de analisar tudo isso que contei para vocês, o que nos fez optar e autorizar a mudança para o segundo ano, foi perceber a vontade imensa que ela tinha de aprender mais, de se aprofundar na leitura e na escrita. Quando perguntávamos por que ela queria ir para o segundo ano, ela sempre dizia: “porque eu quero aprender a ler e a escrever logo! quero aprender a ler meus livros sozinha, a escrever histórias também… mas quero continuar fazendo meus desenhos, tá? eu acho que eu vou gostar de ter mais aulas e aprender um montão de coisas novas!” :)

Lá trás, quando ela tinha quase cinco anos, não me parecia certo pular etapas, eu não a via pronta para isso. Mas, desta vez, sim.

A primeira semana passou voando, quase nem nos demos conta. Como se ela sempre estivesse lá, naquela turma nova, aprendendo aquele conteúdo novo. E assim foram as semanas seguintes.

Nesse curto período, pudemos ver todo o desenvolvimento pedagógico dela acontecer dia após dia. A escrita e a leitura deram um salto enorme, enchendo a gente de orgulho. Ela adquiriu um pouco mais de maturidade, fez novas amizades, aprendeu a conviver de pertinho com mais crianças do que sempre esteve acostumada, e com indivíduos tão diferentes e tão parecidos entre si. Ela cresceu. Aprendeu mais sobre responsabilidade, sobre as regras e a importância de as seguirmos, sobre o direito de ir e vir, sobre segurança – tudo isso agora dentro de um mundinho muito maior e mais desafiador que o anterior.

Hoje, há alguns poucos meses cursando o segundo ano do fundamental, vemos uma criança feliz, totalmente adaptada, satisfeita com os desafios que tem todos os dias e com aquela mesma sede de aprender mais.

Sinto meu coração em paz, quentinho aqui dentro, porque sei que decidimos de forma totalmente consciente algo que era e é tão importante na vida dela – baseados em inúmeros fatores, mas, essencialmente, no quanto conhecemos sobre a nossa filha, no que ela sentia e queria, dentro da realidade que apresentamos a ela. Mudamos o caminho por ela, para ela, na hora dela.

Me sinto imensamente agradecida também pela escolha que fizemos lá trás, quando com quase 2 anos de idade, ela entrou na Vila Sofia. Uma escola tão especial, que se tornou parte tão importante do crescimento e do desenvolvimento da Mel. Os anos que ela passou por lá – aprendendo, vivenciando, e, acima de tudo, sendo a criança que é – deixaram uma saudade grande, mas, principalmente, a prepararam para o que viria a seguir, numa escola maior, cheia de desafios e novidades.

Nós já falamos muito aqui do quanto é importante sentir e respeitar o tempo da criança. Eles têm uma sabedoria e uma capacidade que nós muitas vezes subjulgamos, e acabamos passando por cima de algo que poderia ser melhor, mais simples, mais feliz. Apenas por esperarmos o tempo deles. Sem pressão alheia. Isso é algo que venho aprendendo mais e mais nesses quase sete anos de maternagem. Ouvir e sentir, sempre em primeiro lugar, o meu coração e o deles. O restante vêm a seguir.

Agora, deixa eu me preparar que tem semana de provas logo logo. Coisa chique e apavorante isso, né? Filho tendo prova já. Cadê o bebê que estava aqui ontem? <3

7 comentários no blog

  1. Julie Santos em

    Parabéns, Mi. Não ha nada mais importante do que conhecer e ouvir nossos filhos. No fundo sempre sabemos o que é melhor. Há muito pitaco. Muita gente que acha que sabe mais que nós. Precisamos ser firmes e lutar pelo melhor para eles. E que lindo deve ser ver todo esse crescimento dela. Eu fico maravilhada com cada coisinha que a minha filha aprende. Parabéns a você e a Mel.

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    1. Michelle Amorim respondeu Julie Santos em

      Obrigada, Julie! <3

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  2. Lindayanna Palhano em

    a Mel é uma menina linda e doce… vai passar fácil nessa “nova fase”! é tão bom quando entendemos a necessidade de nossos filhos. com o meu pequeno tá sendo um “sofrimento” pra colocá-lo na escola.. ele tá doido pra ir, só foi uma vez e se apaixonou.. mas a escola não aceita a idade dele. queria colocar ele logo pela convivência com outras crianças da mesma idade dele, mas não é consegui.. então me resta esperar até o ano que vem, quando ele vai ter quase 3 anos!

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  3. Mirela Costa em

    Eu sempre penso nisso! Que devemos respeitar o momento da criança! Eles nos mostram quando estão prontos e nos encorajam a dar um passo adiante junto com eles! Uma graças essas suas crianças, Michelle!

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  4. Well em

    Nossa, vi seu site aqui e só quero parabenizar, é ótimo e quanto a essa questão de mãe parabéns a todas não deve ser fácil não :)

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  5. Ana Paula em

    Tenho um bebê de 5 anos, estou começando a me preparar para a segunda gravidez, só quem vive esse mundo de maternidade pra entender a grandiosidade e complexidade dele. Amei sei blog, parabéns pelo conteúdo… Salvando nos favoritos!! 📌

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  6. Milena em

    Super legal você compartilhar todas essas dicas aqui estou prestes a ser mãe de primeira viagem e procurando informações rsrs obrigado!

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