25 jan 2017

Deixa o menino brincar ô iaiá, deixa o menino aprender ô iaiá…

Dia desses estávamos de bobeira em casa e, depois que o tédio bateu e as crianças começaram a brigar pelo último pedaço de maçã/avião de papel amassado/quem ia sentar no meio do sofá com a almofada roxa – e essas coisas assim… suuuuper relevantes – resolvemos dar uma saída para acalmar os ânimos. Estávamos perto de um dos shoppings aqui de Curitiba e, como sabemos que nessa época de férias escolares também existem coisas legais (e gratuitas) para se fazer dentro dos nossos pólos de consumo, demos uma pausa por lá.

Depois do cadastro e identificação feitos, esperamos por uns quinze minutos do lado de fora da atração, até que a próxima turminha pudesse entrar. Acabei adentrando a floresta junto com eles porque Leo chorou ao me ver do lado de fora. Com isso, pude observar de pertinho as atividades.

Meus pequenos tiveram pouco menos de meia hora dentro do espaço, o que foi suficiente para que eu sentisse vontade de aproveitar o ensejo e fazer uma breve reflexão/observação de mãe – já que me vi ali também, há alguns bons anos atrás. 

Sabem esses espaços com atividades que os shoppings montam especialmente para a criançada? Pois então. As meninas que coordenam e atendem os pequenos, são, em sua maioria, gentis e simpáticas até. Mas, às vezes, tenho a impressão de que esse pessoal esquece que justamente aqueles espaços e atividades lúdicas, coloridas e instigantes, foram planejados para as crianças. E as crianças, são… ? Crianças, ora bolas. Crianças pulam, são seres inquietos por natureza, se empolgam diante das novidades, querem correr para explorar, tocar para conhecer, querem ficar em pé quando deveriam sentar, querem ficar como estão ao invés de usar uma fantasia ou um chapéu quando estes lhe são oferecidos, querem fazer xixi bem no meio da colagem dos palitinhos. E tudo isso é absolutamente normal, compreensível e esperado até. Por isso, ansiar por muita organização e harmonia nessas horas, é desperdício de energia, de tempo, de momento, sabem? Acredito que, dentro de uma ordem previamente estabelecida – e flexível, se necessário – o mais importante é que todos se respeitem e sejam respeitados. Que possam se divertir como crianças que são, sem que tenham que seguir exatamente a ordem dos protocolos.

Falando agora desse passeio, em específico, houve um momento em que Leo encontrou um poço de mentirinha, que fazia parte do cenário. Ele tentou pegar o balde e viu que a corda não desenrolava. Depois, esboçou que iria erguer uma das pernas para, quem sabe, entrar dentro do poço. Imagina que bacana, né? Eu estava ao lado dele o tempo todo, uns quatro passos de distância – distância, aliás, em que eu seria perfeitamente capaz de agir, se necessário. Porém, antes que eu pudesse ter qualquer pensamento (quem dirá uma reação), duas das moças já vieram afoitas para avisar ao “amigo” Leonardo, que ali ele não podia mexer – enquanto tentavam, mais uma vez, direcioná-lo para o local em que ele “deveria” estar. Nessa hora eu apenas consegui sorrir mecanicamente e dizer “viu, ele não vai entrar dentro do poço. fique tranquila”. Mas Leo, dentro do seu instinto explorador, ficou mais um pouco ao redor do bendito poço. (Leo, amor, se você tivesse assistido O Chamado, pensaria duas vezes. mas, ok). E então, percebeu que dentro dele haviam pedaços de papel celofane, meio furta cor, brilhando na frente dos seus olhinhos curiosos. Claro que ele quis pegar o papel, sentir a textura, o peso, dar uma amassada, ver aquele brilho de perto. Mas foram apenas alguns segundos de alegria, antes que novamente viessem lhe dizer “amigo, não pode mexer aí”. E sim, eu continuava a poucos passos dali, observando tudo como a coruja enrustida que sou.

Parando para pensar nessa situação. Era ok entrar dentro de um poço que provavelmente se desmontaria no mesmo instante? Não, não era ok. Mas era ok dar uma amassadinha no papel celofane de dentro do poço para sentir a textura e o escorregar do papel por entre os dedinhos? Claro que era ok, gente! Nessa hora quase cantei em voz alta – enquanto dava uma dançada estilo reggae music – deeeeeixa o menino brincar ô iaiá! deeeeixa o menino aprender ô iaiá!”… (mas achei que, como eu estava meio bravinha, não seria minha melhor performance).

Acredito que, a não ser que um perigo eminente esteja ameaçando a integridade física desses pequenos, não se deve banalizar o não. Porque isso muitas vezes barra o ganho de conhecimento, o experimento, o aprendizado. Também não é necessário supervisionar tão insistente e avidamente cada pequeno passo que eles dão. Como se a qualquer momento uma bomba fosse explodir. Eles têm muito mais autonomia, capacidade e inteligência do que a gente imagina. É só deixar que eles sejam o que são.

E, vejam: ninguém nasce sabendo lidar com crianças nem é obrigado a morrer de amores pelos pequeninos. Mas é essencial entender que crianças serão crianças – com todos os direitos e características que elas possuem – ainda mais em espaços infantis, que foram especialmente planejados para elas. Acho que falta apenas um pouquinho mais de orientação por parte de quem planeja ou contrata esses eventos e seleciona o pessoal. Partindo dessa premissa, dá para tornar a experiência melhor para todos – para quem está lá a trabalho e para quem está lá a lazer.

Claro que essa serenidade no olhar de quem espera para ver como a criança irá agir antes de interferir, veio ao longo dos meus vinte anos sendo mãe de nove filhos (mentira, são seis anos e pouco de maternagem apenas, sendo mãe de dois mesmo – mas que, por vezes, parecem quatro). Foi algo construído aos poucos, mesmo para mim, que sou mãe. Então, eu não me atreveria a exigir ou esperar isso das pessoas que não vivem a mesma realidade. No meu caso, felizmente, a banalização do não e a insistência adulta em subestimar a autonomia e a capacidade infantil, chamaram a atenção logo no primeiro ano de vida da Mel. Com isso pude mudar algumas atitudes e ir aprendendo junto com ela.

Contudo, ainda hoje me pego interferindo quando não deveria interferir, subestimando quando deveria encorajar apenas. Às vezes rola uma certa preguiça de estimular a autonomia, eu sei. Porque deixar que eles mesmos façam é sinônimo de termos menos pressa, mais tempo, mais sujeira, às vezes até um pouco de caos. Mas é necessário e vale tanto a pena! Especialmente por eles.

O meu ponto é: sempre podemos melhorar e aprender. E sempre podemos agir de forma diferente, mais empática, mais paciente – tendo filhos ou não. Quando falamos de espaços infantis – planejados e pensados justamente para as crianças – o mínimo seria que elas pudessem ser o que são. Crianças, apenas.

E nós, que temos essas criaturinhas incríveis em casa, podemos parar para pensar em quantas vezes nos pegamos dizendo um “não” sem razão de ser. Um “não” meio mecânico que, na verdade, poderia ser um “sim” – cheio de descobertas e desafios – dos menores, como amassar aquele papel celofane brilhoso, aos maiores.

Por menos “nãos” que tirem oportunidades, vivências e alegrias pequeninas.

Então é isso. Esse texto não é uma crítica às mocinhas do shopping, nem a ninguém. Nem sei o que é. Acho que só uma coisinha que ficou pipocando aqui na cabeça e quis dividir com vocês.

meu lobinho dizendo auuuuuuuu

5 comentários no blog

  1. Juliana em

    é estranho mesmo como nós adultos esquecemos o quanto crianças sao seres curiosos e criativos. aqui em casa rola muita briga com o marido por causa disso.. eu libero geral mesmo, ja ele espera atitudes do filho que nao condizem com a idade.. é um aprendizado diario criar filhos. abraçao

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    1. Angela Carneiro respondeu Juliana em

      Oi Mi, Oi Juliana rsrsrs mais será que é mal de homem pois o meu marido é a mesma coisa, é muito estranho e eu me irrito bastante com isso, me lembro de um dia que estavamos em uma apresentação de teatro em um shopping aqui em ctba, estavamos sentados mais atrás e quando vagou um banco na primeira fila eu logo pulei pra la e ali estavam várias crianças ao redor do picadeiro, pois não é que o ” homi” encrespou da nossa filha se juntar as crianças, ele falou tanto na minha cabeça que ela ia fazer bagunça, invadir o picadeiro e tocar o terror geral que foi exatamente isso que aconteceu, parece que esses pensamentos atraem exatamente nossos maiores medos rsrsrs. Enfim as vezes até eu me pego nessa paranóia, mas sou um pouco pior quando se trata de segurança. .mas vivendo e aprendendo, ameeeeeeeei o texto linda reflexão, só sendo mãe pra entender essas filosofias. Um beijooo

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  2. Lorena Colares em

    Já trabalhei nesses eventos e o preparo que temos para lidar com as crianças é algo semelhante a zero, só perguntavam se a gente gostava de criança, como se isso fosse suficiente. Hahahahhah

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  3. Danielle em

    Adorei a reflexão! Tenho dois meninos – um de 6 e um de 4 anos – que são difíceis de segurar!!! Mas acho que nós mães precisamos ter esse olhar mais “materno” e menos “controlador” mesmo! Não é fácil! Mas vou me esforçar! Bjs!

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  4. elisa em

    amei o blog perfeito

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