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Das coisas que tenho aprendido com a maternidade

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Olhando para trás, mas não tão distante dos dias atuais, percebo claramente as enormes mudanças que a maternidade promoveu na minha vida. Desde coisas pequenas e corriqueiras do dia a dia até as mais complexas, aquelas que envolvem nossos sentimentos, que envolvem outras pessoas e, principalmente, que envolvem tamanhas possibilidades e caminhos diferentes.

Quem já me acompanha há bastante tempo aqui no blog, deve ter notado que eu sempre estou mudando, sempre analisando tudo ao meu redor, especialmente a mim mesma. Eu não diria que eu gosto de errar, mas vejo certa beleza no erro. Porque ele sempre me dá a oportunidade de fazer melhor, de acertar, enfim. De travar batalhas e ora vencê-las, ora não. É um aprendizado tão intenso e diário, que muitas vezes se torna pesado nos nossos ombros. Mas é um aprendizado necessário. E, com certeza, recompensador. Não só para a maternidade mas para a vida.

Hoje, queria falar um pouquinho sobre algumas das coisas que tenho aprendido ou reforçado desde que me tornei mãe, há pouco mais de cinco anos atrás. Algumas talvez bastante óbvias, mas que me vejo tendo que relembrá-las todos os dias.

Tenho aprendido que, por mais difícil que seja ter paciência e manter a calma em meio a rotina agitada e corrida que costumamos levar, é essencial exercitá-la para que possamos ensinar aos nossos filhos que sejam pacientes também. Não há como ensinar algo que você não pratica, mesmo que eventualmente você falhe nisso e sim, você irá falhar. É algo que precisamos nos policiar constantemente.

Tenho aprendido o quanto nossas atitudes influenciam na educação dos nossos filhos. Quando estamos estressados, quando discutimos, quando levantamos o tom da nossa voz, quando somos ásperos ou intolerantes com as outras pessoas. O comportamento dos nossos filhos é resultado desse reflexo, que vem de nós e da nossa forma de ver a vida e lidar com os problemas. E confesso que isso me assusta um bocado. Acredito que seja a parte mais difícil de ser pai, de ser mãe, de educar um ser humano. Você é cheio de falhas, comete erros, contudo, está ali para moldar o caráter de outra pessoa. É algo que precisa ser lembrado, todos os dias.

Quando se trata da criação e educação dos nossos filhos, tenho aprendido a duras penas que seguir pelo caminho que nos parece ser o mais fácil – no auge da nossa inércia e cansaço – quase sempre nos força a percorrê-lo novamente, porém, dessa vez indo pela estrada certa. Aquela cheia de curvas sinuosas, com pedaços esburacados de estrada de chão, mas que nos leva exatamente onde queremos e precisamos chegar.

Descobri que tenho uma força maior do que jamais imaginava ter. Para gestar, para parir, para me doar por completo – mesmo quando me sentia exausta e impotente – a alguém que acabara de chegar na minha vida. Força para continuar com os pés fincados no chão porque existe alguém que simplesmente precisa que eu esteja ali, mesmo quando a vontade é de entregar os pontos.

Por outro lado, descobri que essa força pode me levar a testar meus limites além do aceitável, a forçar demais a barra sobre mim mesma, a achar que sou insubstituível, a sempre tomar as rédeas da situação em vez de deixar que outras pessoas que deveriam estar diretamente envolvidas, de fato, estejam. Tenho aprendido que sim, sempre irei achar que ninguém cuidará dos meus filhos tão bem quanto eu, mas que, ainda assim, isso não é algo ruim. Não quer dizer que eles serão mal cuidados, apenas que as outras pessoas agem de formas diferentes e dão um peso maior ou menor a certas coisas do que eu. No final, todos saem vivos.

Tenho aprendido a ter mais compaixão e a constantemente tentar me colocar no lugar dos outros. No trânsito, por exemplo. Me tornei uma motorista muito mais consciente e menos estressada. Sempre imagino que dentro daquele carro que está parado com a seta ligada esperando para virar, existem crianças impacientes para chegar em casa, com sede, com fome, com sono, ou até doentes. E uma mãe ou um pai desejando somente chegar em casa ou no hospital o quanto antes. E que não custa esperar por alguns minutos ou dar a vez e deixar que eles sigam o seu caminho. No dia a dia, me tornei uma pessoa mais gentil e solícita, especialmente com mães ou pais carregando sacolas, uma criança no colo e outra pela mão. Me ofereço para ajudar com muito mais frequência do que antes de me tornar mãe, porque sei o quão valioso isso é. Ainda mais nos dias de hoje. São pequenas atitudes que fazem diferença. E não é nada de mais não, é minha obrigação ser gentil e educada se quero um mundo assim para os meus filhos.

Tenho aprendido a aceitar melhor os meus erros e a minha condição de ser humano. Aceitar que tenho muitos medos e nem sempre terei a coragem e a disposição necessárias para enfrentar a difícil tarefa de ser mãe. Aceitar que nem sempre terei todas as respostas, nem saberei quais perguntas devo fazer. Tenho aprendido a aceitar que jamais serei aquela mãe que eu imaginava que seria, simplesmente porque é impossível prever e planejar tudo na vida de uma criança, é impossível nunca sair do curso que você traçou. Crianças são únicas e imprevisíveis, estão num ciclo de crescimento e mudança constante, a cada minuto precisando de um suporte diferente – emocional, físico, material, entre tantos outros. Não dá para ter total controle e essa consciência ajuda e muito a evitar algo que nos faz muito mal – mesmo que faça parte da vida: a frustração.

Tenho aprendido a lidar melhor com a culpa, aquela que sentimos todos os dias da nossa vida. Culpa por ter feito de mais, culpa por ter feito de menos, culpa por não ter feito ou por ter agido por impulso. Eu nunca fui uma mãe anti culpa, na verdade. Acho que a culpa nos ajuda a melhorar. Mas uma culpa consciente, não uma que nos torture. Culpa pode e vai acontecer, mas ela não precisa acabar com você nem te deixar mal. Culpa não é chibatada, é só um aviso de “veja só, você pode fazer melhor que isso, se você quiser.”

Tenho aprendido a apreciar as coisas simples da vida novamente, porque, depois da chegada dos filhos, elas recuperam o seu sentido de ser. Pode ser uma caminhada, aquele vento no rosto, uma ida ao supermercado sozinha, dez minutos em silêncio debaixo do chuveiro, um livro, um filme, uma comidinha recém preparada e quentinha, um vinho, uma boa conversa, uma escapada para encontrar uma amiga, algo novo que você aprende, ouvir aquelas músicas que te fazem bem, uma companhia que conforta, um beijo, um abraço, um olhar, um momento de intimidade a dois. Tudo isso retoma o seu verdadeiro sentido depois que os filhos chegam às nossas vidas. Porque eles fazem a vida ser o que deveria ser novamente: simples, especial, que merece ser vivida.

Tenho aprendido que ter uma rotina é muito importante para as crianças e até mesmo para nós e a nossa sanidade mental, mas que não conseguiremos segui-la todos os dias. E que isso é ok, desde que se mantenha um equilíbrio. Um dia teremos que ir ao supermercado à noite porque durante o dia não pudemos ir, no outro teremos uma festa, visitas em casa, um jantar na casa de amigos, um compromisso que apareceu de última hora. Nesses dias as crianças ficam mais agitadas e estimuladas, é claro. Saem da sua rotina e horários de banho e de ir para a cama e é normal que não tenham um sono tranquilo como o de uma noite comum, em que tudo acontece como esperado. Nesses dias, já nos preparamos para uma madrugada difícil, sabendo que, tudo bem, desde que não aconteça sempre. Afinal, a vida está aí para ser vivida por nós, os pais, também. Tudo precisa ser adaptado conforme as demandas e assim todo mundo fica bem.

Tenho aprendido me conhecer melhor, a descobrir e exercitar minhas paixões – as novas e as antigas. Encontrei a minha voz. Descobri que o que eu mais amo fazer, o que mais me realiza como pessoa, é escrever. Fotografar e registrar momentos das formas mais lindas que eu encontrar, vem em seguida. E isso eu só descobri depois de me tornar mãe. Todas as minhas qualidades e defeitos afloraram de forma nua e crua depois da maternidade. Sem ter para onde fugir, você acaba aprendendo a lidar com você mesma, de uma forma que nunca fez antes. É lindo, doloroso e magnífico ao mesmo tempo. A gente aprende muito sobre essa pessoa que mora dentro de nós mesmas.

E, por fim, tenho aprendido que existirão dias tão perfeitos, mas tão perfeitos, que me farão questionar porque todos eles não podem ser assim também. Mas, logo em seguida, assimilar que a perfeição desses dias vem justamente do fato de que eles serão raros na nossa vida. Porque a vida com filhos é assim: tumultuada, por vezes até caótica, mas acima de tudo, muito, muito rara.

E o aprendizado – assim como o amor – continua. Para toda a vida. Assim espero.

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26 comments

  1. Acho que isto faz diferença na vida de um escritor: Que o leitor suspire ao terminar de ler sua obra. E eu suspiro, e muito, com seus textos.

    Obrigada por compartilhar seus sentimentos e experiências. Eu me identifico, me motivo e, por muitas vezes, me torno uma mãe e uma mulher melhor. Um beijão ❤

  2. Adorei o post, da mesma maneira que adoro o Blog! Já sigo há algum tempo, desde quando pintou a vontade de ser mãe e descobri na semana passada meu positivo! Vontade de ir pra Curitiba, tomar um café e conversar com você…rsrs

    Bjão

  3. Quanta coisa maravilhosa você escreve…uma verdade tão bonita…me identifico tanto com a sua forma de ver a vida, apesar de na maioria das vezes não conseguir colocar em prática…mas, seus textos sempre me inspiram e motivam a continuar tentando acertar. Muito obrigada. Bjs

  4. Lindo Michelle. Acho que tudo é a forma como olhamos para a vida. Na Bíblia tem uma passagem em que Jesus disse que, se seus olhos forem bons, todo o seu corpo será luminoso, mas se forem ruins, todo o seu corpo estará em trevas. Até dias – e madrugadas – difíceis podem se tornar menos caóticas se nosso olhar for bom, se focarmos nas bênçãos, em vez dos problemas. Abraço!

  5. Um minutinho que estou indo ali buscar uma caneta (fofa com pingente ♡) para assinar embaixo e já volto!

    ….

    Como sempre perfeito, Mi! Suas colocações se encaixam perfeitamente para mim, e acredite, alguns destes momentos citados por vc nesse post e em outros, sobre ter um tempo para nós mesmas, para reflexão, sozinhas… eu tenho pouquíssimos por aqui, mas quando tenho, seu blog é um dos meus passatempos!

    Obrigada por me fazer sentir melhor sempre!!!!

    Beijos!!!

    Gi

  6. Oi Michelle, tudo bem? Nunca comentei em alguma postagem, mas sempre de olho para ver se tem alguma atualização.
    Queria te parabenizar por escrever coisas tão maravilhosas que enchem nossos corações de amor, força e além de tudo, muito aprendizado. Quando leio algo que escreve, não ouço nada ao meu redor pois me prende de um jeito que não quero parar de ler, e as vezes quando não leio mais de uma vez.
    Sou recém casada e não tenho filhos ainda, mas quando entro no Vida Materna a vontade bate forte. Mas isso está em planejamentos ainda.
    Obrigada pela pessoa que é, e por transmitir esse amor.
    Sou de Curitiba também :)

    Beijos no coração.
    Que Deus abençoe você e toda sua família.

  7. Esse texto serviu como um abraço pra mim!
    Desde que descobri que estou grávida (hj de 5 meses) minha vida toda mudou, e já estou “submersa” neste mundo da maternidade, tentando me preparar para o maior desafio e também a maior felicidade da minha vida.
    Parabéns pelo blog… já é um amigo pra mim! :)

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