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Criando pessoas

“– Mel, o Leo pode ir pro ballet com você?

– Não, mamãe.

– Por que não, filha?

– Porque o Leo é muito pequenininho, mamãe. Só quando ele crescer um pouco.

Esse diálogo aconteceu enquanto eu arrumava a Melanie para a aula de ballet. Com certeza você não precisa pensar muito antes de concluir qual seria a resposta da maioria das pessoas, ao invés dessa, que minha filha de 4 anos me deu – e que me encheu de orgulho.

Mais uma vez, um acontecimento corriqueiro me fez refletir bastante e ter aquela pontinha de esperança de que eu esteja indo pelo caminho certo na criação dos meus filhos. De que eu esteja conseguindo desconstruir um pouco – para nós e para eles – aquilo que nos é ensinado, ou melhor, aquilo que nos é imposto todos os dias, como sendo “o padrão a ser seguido”.

Eu tenho dois filhos. Um menino e uma menina. E obviamente eles têm suas particularidades e preferências naturais desde que nasceram. Mas a criação, a educação base de ambos, é exatamente a mesma, porque ambos são pessoas, ambos são seres humanos, independente de qualquer outra denominação que eles tenham ou venham a ter.

Acho que por esse motivo, aqueles livros “criando meninos” e “criando meninas” nunca me despertaram muito interesse. Porque sempre tive para mim que estou criando pessoas acima de tudo – com alma, coração e preferências próprias, cheios de partes que eu ainda desconheço. Que muito têm me ensinado e ainda irão ensinar. E que me dão todos os dias o privilégio de guiá-los pelos caminhos que meu coração me diz serem os melhores.

Independente de serem menino ou menina, ambos merecem e precisam do mesmo amor, do mesmo respeito, do mesmo carinho, do mesmo cuidado e atenção, das mesmas broncas e sermões que forem necessários, da mesma preocupação, do mesmo incentivo e da mesma compreensão.

Ambos merecem tudo de tudo, por igual, na mesma medida – talvez de formas diferentes, apenas.

Muitas pessoas ainda estranham essa linha de pensamento. Especialmente quando digo que meus filhos podem ser o que quiserem ser, e que eu, como mãe, apenas desejo que sejam felizes e que não façam mal aos outros nem a si mesmos. Porque, basicamente, é isso mesmo.

Claro que penso e desejo que eles estudem, que tenham uma educação bacana e se tornem profissionais competentes e realizados. Mas, acho que minha principal preocupação está no desejo de que eles sejam pessoas boas, amorosas, educadas e tolerantes. E que tenham compaixão dentro de si.

O mundo já tem tanto preconceito, ódio e intolerância… daqui, quero que saiam apenas pessoas cheias de amor dentro do coração. Que julguem menos e que compreendam mais. Que entendam que aquilo que foge do comum não é ruim, é apenas diferente. E que mesmo não concordando com algumas pessoas ou ideias, que saibam que existe lugar para cada uma delas nesse mundo. Pelo menos deveria existir.

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21 comments

  1. Lindo e concordo totalmente, tenho um bebê de dez meses e as vezes me deparo com situações que ainda vou ter que passar com ele e espero me sair bem assim. Ensinar a ele que mesmo descordando de alguma coisa ou alguém, primeiro vem o respeito e que cada um é cada um, com seu modo de viver, sem certos ou errados, cada um tem seu ponto de vista. Adorei o post!!

  2. É isso aí Michelle! Essa questão de gêneros tbm nunca me agradou, semana passada o meu filho (4 anos) quis levar para escola um bebezão (que pertencia a prima já crescida) vestido com um macacão que era dele qndo bebê. Na imaginação dele, era o irmão! Passou dois dias alisando aquele boneco, lavando pra dormir e dividindo as refeições! Em casa entramos no clima, era uma brincadeira!!! Ai na porta da escola, ele me solta: “mamãe acho que os meus amigos não vão gostar” Aquilo me quebrou…lembrei de alguns meninos que poderiam tirar sarro ou fazer algum comentário maldoso e respondi ” vc pode deixar o boneco no carro” e assim que ele me disse “eu não quero” o incentivei “então, não importe com que vão falar, se vc gosta é o que importa”. Na volta ele disse que dividiu o irmão com outras crianças e que foi divertido! :)

  3. Belo texto, Michelle! É isso mesmo!
    Na escola da minha filha tem uma sala de “jogo” (na verdade são brinquedos). Um belo dia ele chega com o seguinte papo: mãe, menina brinca de boneca e menino brinca de carrinho. Eu corrigi e disse que ela podia brincar do que quisesse, boneca ou carrinho. Acho que essa mudança de mentalidade é necessária.
    Bjs…

  4. Foto e pensamentos lindos!
    Ontem meu marido compartilhou uma situação que achei o cúmulo: Diz ele que quando criança não levava bolachinhas ou wafle de morango pra merenda porque a embalagem neste caso sempre tem tons de rosa !!! Choquei né?!
    E ele complementou: “Pergunta pros teus irmãos se eles não pensavam parecido?!”
    Não perguntei mas lembrei que no sul os guris não chupam pirulito.

    Não sei dizer o quanto esse preconceito é ridículo e espero que atitudes de mãe como a sua mudem esse mundo!
    Parabéns, grande exemplo!
    Bjos

  5. Que texto maravilhoso! É muito bom saber que apesar de uma sociedade cheia de sexismo, muitas pessoas deixam os filhos livres, agindo naturalmente, sendo apenas crianças. O essencial é o caráter, respeito e amor. Independente de cor, religião ou orientação sexual todos nós temos o direito a igualdade e a um espaço neste mundo. Parabéns pelo texto.

  6. Michelle,
    Os livros Criando Meninos e Criando meninas não são tão sexistas quanto você descreve, não. Eu li o Criando meninos quando estava grávida do meu filhote pois não tinha ideia de como era o mundo masculino. Na minha casa éramos cinco mulheres e o meu pai que infelizmente, faleceu quando tinha treze anos.
    Li e gostei bastante. Tudo o que estava descrito no livro está acontecendo. Meu filho era um espoleta na barriga mas quando nasceu demorou para falar, demorou a andar, dorme bastante. Tem uma menina aqui na vizinhança que tem seis meses a mais do que ele é já fala superbem e ainda tira sarro dele que ainda é um bebê. Se eu não tivesse lido o livro assimilaria esse conceito de “preguiçoso” que as pessoas adoram colocar nas crianças que demoram a se desenvolver.
    Outro tópico do livro é a referência materna até os sete anos do menino. Ele não vai te largar assim como meu filhote não me larga. A mãe é a referência maior na vida no menino até os sete anos, depois é o pai e depois algum adulto em que ele vai se referenciar para crescer e pode não ser preferencialmente o pai. Colocar ele na escola pode demorar, pois pode sentir mais a sua falta. O meu filhote ainda está comigo em casa (ele vai três anos em Outubro)e mais uma vez não ligo para os comentários maldosos dos outros.
    O Criando Meninas ainda não li, mas quero muito ler pois estou grávida de uma menininha. E como a minha vida mudou para criar meu filho, agora quero entender mais o universo feminino e não colocar meus traumas na criação dela, sabe?
    Não estou aqui pregando que vou criar um ogro e uma Amélia, mas que entendo que as necessidades deles são diferentes, a personalidade com certeza será e evitar “rotular” e “comparar” as crianças.
    Uma coisa que você vai ver muito é como o menino tem força, fica louco atrás do carrinho, da bola. Outro dia o meu foi parar no hospital e tiveram que vir três homens segurá-lo para colocar o soro. E eu morri de rir quando ele entrou no time dos garotos maiores para jogar uma bolinha do play. E ainda chorou quando tirei de lá.
    O mundo é sexista sim e podemos criar nossos filhos diferentes, afinal tarefas domésticas e inteligência independem do gênero. Mas o mais importante é entender o que eles querem. O Leo pode querer ir no balé com a irmã no futuro. Ou não. Mas dar a chance de escolha é o que não tínhamos na nossa infância e vamos dar aos nossos filhos. Sem preconceitos.

  7. Que bacana!Automaticamente eu conclui o dialogo com :”Por que ele é menino.” Mas, a Mel surpreendeu. Ainda não sou mãe,mas uma das minhas preocupações é essa, não fazer diferença entre os sexos,(apesar de algumas são inevitáveis).

  8. Olá Michelle!!
    Encontrei seu blog há pouco tempo e me identifiquei muito com a tua maneira de pensar….adoro o que vc escreve!
    Tenho uma menininha de 4 anos e estou no início “dos trabalhos” para o segundo…
    Realmente, acima de tudo, temos que preparar pessoas de bem, que é isso que falta nesse mundo…pessoas bem resolvidas e que tenham o suporte em nós naquilo que precisarem… acho que com esse propósito teremos sucesso, com certeza!
    Parabéns pelo blog, adorei e estarei sempre por aqui! :)
    Beijos

  9. por isso sou tua fã. minha linha de pensamento é bem parecida com a tua. mesmo enfrentando barreiras dentro da família. alias ja vem dando uns perrengues com meu marido por conta disso. hehe
    Bjos!

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