25 jul 2016

As melhores férias: grudados com o pai

Hoje nossa rotina voltou ao normal com a volta às aulas e arrisco-me a dizer que essas foram as melhores férias para os pequenos até hoje. Não por termos feito uma viagem bacana, nem por termos programado dias inteiros de diversão. Mas sim, por um motivo muito simples e carregado de amor: Mel e Leo passaram as últimas duas semanas grudados com o pai.

Não me lembro de termos feito isso nos anos anteriores, mas neste, Alexandre conseguiu tirar duas semanas de férias em julho, durante o período de férias escolares das crianças. Então foram dias seguidos de companhia, bagunça, diversão e coisas pequeninas e corriqueiras, mas que com certeza são as mais valiosas para eles.

Acordaram mais vezes ao lado do pai ou foram até o nosso quarto para dar bom dia com aquele sorriso de orelha a orelha. Prepararam o café da manhã juntos, ajudaram a quebrar os ovos, fizeram tapioca e deixaram a cozinha coberta de massinha branca. Foram a diversos parques, andaram de bicicleta, de skate, jogaram bola e correram soltos por aí. Brincaram em piscinas de bolinhas imensas, de pega pela, de jogo da memória, de carrinho e de bichinhos de pelúcia. Fizeram passatempos, desenharam suas próprias obras de arte e também coloriram os desenhos elaborados que o pai faz para eles. Fizeram circuito de almofadas e obstáculos, ou melhor, circuito de desafios num pântano cheio de crocodilos famintos. Brincaram com os primos e com os amiguinhos, deram muitas risadas e inventaram muitas histórias. Espalharam roupas e brinquedos pela casa, guardaram e voltaram a bagunçar tudo depois.

Nas duas semanas que se passaram, eles andaram para cima e para baixo com o pai – que não deixou de fazer nada do que precisava ser feito por causa dos grudinhos. Em alguns dias, eles foram dormir mais tarde do que eu gostaria, comeram menos do que eu gostaria e saíram menos agasalhados do que eu gostaria – ou, então, vestindo uma meia diferente da outra ou com uma combinação de cores duvidosa, hahaha. E tudo bem quanto a isso.

Dividiram o pai como quem divide o último pedaço de bolo – aquela parte que a gente guarda para o final, porque é a mais gostosa, sabem? Estavam felizes, animados, satisfeitos da presença do pai e mais apegados a ele do que nunca.

Eu, por consequência, tive um estranho sossego ao longo dos dias. Consegui ficar na cama um pouquinho mais, arrumar alguns armários que pediam faxina há tempos, assobiar enquanto colocava as roupas na máquina de lavar (com a serenidade no olhar de quem não tinha almoço para fazer naquele dia), tomar meu café da manhã sem deixar que ele esfriasse. Mas, acima de tudo, tive duas semanas de treino sobre uma coisa muito difícil para mim: deixar que os outros façam a parte que lhes cabe e confiar que sim, eles farão o seu melhor.

Nas duas últimas semanas, mesmo estando presente em boa parte do tempo, deixei que o pai fosse o comandante (quase solo) desse navio chamado “Mel & Leo” e escolhesse as direções. Fiquei menos tensa, menos estressada e mais disposta a bagunçar junto.

Talvez eles tenham apanhado vento sem um gorro na cabeça. Talvez tenham comido alguma porcaria sem que eu visse. Talvez tenham até ido dormir sem banho num dia de muito cansaço. Mas talvez, também, tenham se divertido como nunca com coisas simples. Talvez tenham alcançado exatamente o que mais desejavam apenas por esse tempo a mais ao lado do pai. Talvez tenham estado tão contentes que nem sentiram falta da rotina da escola ou de brincar com os amigos.

7 comentários no blog

  1. Thais em

    Espero fazer com cuidado e respeito, mas gostaria de levantar algumas problematizaçoes sobre esse assunto. Não é necessariamente sobre o seu caso, mas de maneira mais geral porque é algo relativamente comum em blogs e redes sociais.
    1) isso de “delegar” eu acho que perpetua a ideia misógina de que os cuidados com casa e filhos são responsabilidade da mulher. E consequentemente o homem “ajuda”. De novo, não é um ataque à sua família pois pelo que costumo acompanhar sua família tem equilíbrio nisso. Mas a linguagem é importante e o uso de “delegar” mostra que mesmo qundo temos uma prceria de fato, ainda sentimos (mesmo que sub ou inconscientemente) que o cuidado com os filhos no dia a dia são nossa responsabilidade ou que “mãe que sabe cuidar ou cuida melhor”. Acho que todas devemos ter cuidado com as sutilezas da linguagem e tentar mudar essa percepção, dentro de nós e para o mundo.
    2) outra percepção machista é a glamurização da paternidade. Todas as férias (e todos os dias) milhares de mulheres passam o tempo todo grudadas nos filhos, cuidando e entretendo, e isso passa batido. Mas quando um pai o faz… fogos de artifício!!!! Há uns anos vi um post de uma mãe celebrando o marido por ter trocado a primeira fralda do filho aos 4 meses. Derramando-se em elogios, chamando de “melhor pai do mundo” (oi?) Por isso essa glamurização e salvas de palmas quando os pais cuidam e brincam com os filhos me incomodam. Li algo hoje bastante pertinente: “for society, it takes very little to be a great dad and very little to be a shitty mom.” Um pai troca uma fralda e vira o melhor pai do mundo. Uma mãe esquece de trocar por uns minutos e vira a pior mãe (seja aos olhos dos outros ou de si mesma, pois a culpa que sentimos o.tempo.todo.por tudo é reflexo desse sistema).
    3) uma consequência dos pontos anteriores é a criação de uma dinâmica nas famílias de que a mãe é o bad cop e o pai o good cop. Mãe briga, chama a atenção, proíbe, diz mais “sim” do que “não”, faz comer saudável, dá remédio, manda dormir na hora etc. Pai vira o legalzão, que diverte, permite, diz “sim”, dá guloseimas, faz farra etc. Isso perpetua o ponto 1 de que a RESPONSABILIDADE (i.e. A parte responsável e “chata” de parenting é campo da mulher). O resultado é um círculo vicioso de pais que não fazem sua parte e mulheres sobrecarregadas e ressentidas. E para as crianças isso também é ruim. Na minha casa conversamos muito para sempre tentar equilibrar isso de good/bad cop pois não quero que um de nós seja o/a chato/a e o/a outro/a legalzão/ona, pois isso enfraquece a relação com os filhos mais tarde, especialmente na pré e adolescência.

    Enfim, são coisas que todos nós, socializados e ainda vivendo em sociedades sexistas vivemos e tentamos navegar todos os dias. Todos tentamos e falhamos e mudamos e obtemos sucesso aqui e ali. Por isso mesmo quis levantar esses pontos, para podermos todos pensar sobre as sutilezas e entrelinhas de atitudes cotidianas.

    Beijos

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    1. Michelle Amorim respondeu Thais em

      Oi Thais! Obrigada por comentar levantando questões tão pertinentes e importantes, especialmente nos dias de hoje. Concordo com tudo que você escreveu, sem tirar nem por.

      Nesse texto específico, você deve ter notado que em nenhum momento houve uma glamurização da paternidade. Não houve agradecimento, nem troféu, nem pódio. O texto serviu apenas como um registro de que a coisa que meus filhos mais curtiram nestas férias foi estar mais tempo ao lado do pai. Não porque ele foi “um paizão que fez o favor de ajudar”, nem pela “disponibilidade” em dedicar tempo aos próprios filhos. Mas sim, pelo simples fato de ter conseguido tirar férias exatamente naquelas semanas. Alexandre tem uma escala puxada. Ficamos sem tê-lo por perto por 24, 30 horas. Por esse motivo, ter o pai acordando e indo dormir junto a eles, todos os dias durante essas semanas, fez diferença. E para mim também, óbvio.

      Sobre delegar, concordo com você de que o uso dessa expressão dá a entender que é algo somente de minha responsabilidade. Mas, na verdade, delegar é um problema para mim, na vida! Por isso sempre comento sobre o assunto. Tenho muita dificuldade em “delegar” – com a casa, com os filhos, com o trabalho, com projetos, enfim, com tudo. Talvez a palavra nem fosse delegar, no caso dos filhos. Talvez ali encaixasse melhor a expressão “deixar que o pai faça a sua parte e assuma suas responsabilidades – sem intervir”.

      E, por fim, o fator good/bad cop é algo que me preocupa bastante por aqui. Exatamente por esses motivos que você citou. Com certza será alvo de muitas conversas por aqui também.

      Bjo

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  2. Letícia Medeiros em

    Michele,

    Acompanho o blog há alguns anos e me identifiquei com o post.
    Aqui também temos uma rotina puxada e o papai, por conta do trabalho, muitas vezes passa alguns dias sem ver a filhota.
    Minha pequena tem 4 anos e pela primeira vez consegui tirar férias e fazer uma programação bem bacana. Embora o papai trabalhe muito conseguimos incluí-lo também.
    Assim, programamos dois dias inteiros de passeio com o papai e a pequena escolheu ir ao Beto Carrero. Com o post do último passeio da Mel salvo no celular conseguimos desfrutar do melhor do Parque e principalmente da presença do papai.
    Ao final do segundo dia ver a felicidade estampada no rosto da minha filha em poder desfrutar da companhia do pai, mesmo por poucos dias, foi maravilhoso.
    Parabéns pelo texto.

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  3. Simone Thomé em

    Michelle que maravilha eles terem curtido o pai, nos dias de hoje em que se trabalha jornadas extensivas para não faltar o básico em casa, é de se comemorar essas oportunidades! Concordo com o que a Thais falou também, embora acho que está muito longe de ser um mero machismo, se o homem trabalha fora e sustenta a casa e a mulher trabalha em casa, “dona de casa”, normal se responsabilizar pelas tarefas como almoço, etc. Bem como poderia ser a mulher a trabalhar fora e o homem a cuidar da rotina da casa e dos filhos. São ambas formas de trabalho e nos empenhamos a exercer nossas responsabilidades.
    http://www.quemaesoueublog.wordpress.com

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  4. Josi Miranda em

    micheli onde voce compra essa fralda pull ups , pode me passar o contato
    :)

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  5. Valéria em

    Olá Michelle!
    Vi seu blog hoje pela primeira vez e estou amando.
    Parabéns pela linda família e pelos seus relatos maravilhosos.
    Super me identifiquei em tudo!
    Bjos e parabéns.

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  6. Cris em

    Concordo com as mamães que se colocaram a respeito do auxilio dos pais com os filhos ou mesmo em casa.
    Apesar de terem uma rotina de trabalho, as vezes, mais carregada, ou com mais horas, poderiam pelo menos olhar para nós mães (24hs por dia) e que precisam de um tempo para se cuidarem e se arrumarem como Mulheres e não só como mães. Tenho a impressão, em várias conversas com amigas minhas, que todas passam por isso. Dar conta dos filhos (alimentação, roupas, banho, escola…) e organizar tempo para nós, são duas coisas que não se encaixam !!! Obrigado por este blog !

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