08 nov 2012

A influência da mídia na educação das crianças

Educação se faz à base de valores, e os verdadeiros valores são assimilados através do exemplo. São os reais valores que norteiam a vida do ser humano no mundo para que ele possa ser verdadeiramente feliz.

Ser mais antes de querer ter mais é um bem que leva o ser humano à sua essência, ao seu eu espiritual, portanto deve estar acima de bens materiais. O que é mais importante na vida não são as coisas e sim os valores que estão nelas contidos.

Na prática, de que forma podemos fazer valer estes princípios sendo que contamos com fortes concorrentes que são os meios de comunicação veiculados principalmente através da televisão, e até pela internet, que apregoam a inversão desses reais valores?

Ao longo do dia, quanto tempo uma criança fica diante de uma televisão recebendo um bombardeio de estímulos para comprar… comprar… instigando o consumo de produtos que nem sempre são úteis ou necessários?

Até que ponto os pais são livres para ajudar seus filhos na escolha de roupas, brinquedos, alimentos, materiais escolares, etc. que não venham estampados com “super-heróis”, desenhos ou marcas que estão na moda influenciados ou determinados pela propaganda? E ao concordar em comprar tais produtos, pagam por eles um preço mais alto do que seria justo?

Quando falo em preço alto não me refiro somente ao custo material, mas também ao preço da escravidão ao consumismo. É claro que a mídia tem seu papel que é estimular o consumo, esta é sua incumbência no mercado.

Há que se questionar a respeito do público alvo da mídia, que são as crianças.  Assim como ela tem seu papel, os educadores também têm o seu, ou seja, preservá-las desse ataque pernicioso que influência na formação de valores, que são atemporais.

Há que se considerar, também, o seguinte: com quem a criança fica mais tempo? Com os pais ou com a televisão?

Tendo a propaganda grande poder de convencimento, os argumentos dos pais se diluem diante de sua tamanha força de persuasão.

A publicidade estimula as crianças a se inserirem no mundo dos adultos, “adultizando-os”. Brincar de bonecas já não é mais um ato maternal, pois a criança não é mais a mãe da boneca bebê e sim se torna a própria boneca, que usa roupas e acessórios de uma pessoa adulta.  E o que é pior: a boneca tem que ser de uma marca determinada, projetando um “modelo ideal” de mulher e não de criança. Este modelo é o de uma mulher loira, magra e alta. Esta é uma fase em que a criança necessita viver representações simbólicas para a estruturação dos reais valores que a ajudarão a entender a vida adulta. O faz de conta tem como função inerente ajudar a criança a assimilar isso, embora do ponto de vista infantil seja apenas uma diversão.

A indústria de cosméticos está investindo pesado no mercado infantil, produzindo esmaltes, perfumes, batons, bases, sombras, desodorantes corporais e loções para meninas e meninos. É comum hoje ser oferecido como lembrancinhas de aniversário, vidros de esmaltes de diversas cores e brilhos. Esta nova forma de presentear é gerada pela mentalidade de que crianças podem usar coisas de adultos como sendo normal.

Diante dessa realidade, a ANVISA abriu consulta pública (n.50-2012) para que pais e especialistas possam indicar 33 produtos que possam ou não ser usados por crianças sem trazer danos ou riscos para sua saúde. Consultando uma profissional na área de beleza, ela me informou que produtos de beleza infantil são feitos de matéria prima de baixa qualidade, por isso é vendido por baixo preço, sob o argumento de que é “de brincadeirinha”. Onde ficam os cuidados com a saúde da criança? Que critérios são estes?

E onde fica a preocupação com a saúde psicológica da criança? Criança tem que ser tratada como criança para que cresça saudavelmente em todos os aspectos, seja físico, emocional ou mental.

Apesar dos pediatras e dermatologistas alertarem sobre o risco destes produtos causarem intoxicação e reação alérgica, além de retirar as defesas naturais do corpo da criança, o apelo da propaganda  é maior  e convence  muitos  pais a comprá-los para satisfazer os desejos dos filhos. Isto porque, diante de tanta insistência, não sabem lidar com os “sins” e os “nãos” para educar seus filhos.

A influência da mídia vai além das roupas, calçados e brinquedos. Entram nesta lista os eletrônicos como notebooks, celulares, etc… A pergunta é: criança precisa disso, como faz crer a publicidade?

Esta é uma questão de educação, na qual estão implícitos valores fundamentais para a formação de um ser humano livre de condicionamentos atrelados a uma pseudonecessidade.

O estímulo ao consumismo não pode ter como alvo a criança. Ela não tem condição de lidar com a complexidade desse conteúdo, pois ainda não tem posse de um raciocínio lógico para discernir entre o certo e o errado, entre o que é bom e o que não é. Conhecer a natureza da criança e as fases do seu desenvolvimento é pré-requisito para saber o que é bom e necessário para ela em cada fase do seu desenvolvimento.

Se quisermos pensar no futuro de nossas crianças para viver nesse planeta com qualidade de vida, temos que repensar já as questões do consumismo de hoje. É uma questão também ecológica.

Parece-me que os pais estão usando pouco o poder que têm de educar, agindo sem critérios estabelecidos, deixando, assim, por conta de outrem a educação de seus filhos, papel este que cabe fundamentalmente aos pais e educadores.

Cabe aqui um alerta: a real força que influencia a educação da criança ainda é a dos pais, que se faz através dos exemplos.

Falta clareza e determinação por parte dos próprios pais que não deixam claro para os filhos que existem coisas que servem para as crianças e coisas que servem exclusivamente para adultos. Por exemplo: uma criança não pode usar roupas e outros acessórios de adulto assim como fazer coisas que eles fazem, só porque gosta de imitar os pais. Esta é uma questão que vai para além da imitação. As crianças gostam sim de imitar os pais. Devem, no entanto, saber o que devem e o que não devem imitar. Caso contrário, perderiam a identidade que é própria de cada fase do ser humano, descaracterizando-as.

Um exemplo disso são os concursos de beleza para crianças que não têm como objetivo mostrar a beleza própria da criança e sim transformá-la numa miniatura de adulto expondo-a ao ridículo ao invés de valorizá-la. As próprias mães estimulam esta falsa beleza levando a criança ao salão de beleza para pintar as unhas, fazer chapinha nos cabelos e maquiagens carregadas assim como fazem as pessoas adultas. Além disso, se vestem como adultas, com vestidos de noite, usam sapatos de salto alto, e fazem botox para melhorar a performance e assim ganhar o concurso de miss mirim, pondo assim em risco a sua própria integridade física.

Vale lembrar que cada coisa tem sua finalidade independente de ter agregado um atrativo a um objeto para estimular a criança a querer comprá-lo. Ele deve ser adquirido pela sua função e não pelo atrativo que oferece como acontece com aquela borracha com cheirinho que nem apaga direito e custa mais caro. A criança precisa ser orientada a comprá-la pelo que ela serve e não pelo cheiro que tem. Se o interesse é pelo cheiro, é mais justo comprar um sabonete, que cheira e é útil. Além do que, o cheiro pode ser prejudicial à criança e pode desenvolver uma reação alérgica. É importante saber discernir entre uma real necessidade e um desejo manifestado por influência.

Uma boa opção diante de um impasse é estimular a escolha entre duas possibilidades. A criança ganha uma roupa sem a estampa escolhida ou fica sem nenhuma roupa.

Outro ponto de reflexão são os alimentos que são oferecidos para as crianças, mesmo sabendo-se que não são recomendáveis para a sua saúde, como salgadinhos e refrigerantes, que são consumidos com o aval dos pais. Como uma criança pode não querer estas ofertas, se está vendo a todo o momento ser oferecido na TV como sendo a melhor coisa do mundo? Novamente a TV é a vilã. Faz-se necessário que os pais sejam muito conscientes e coerentes para ajudá-los a fazer a coisa certa em todos os momentos.

E os brinquedos que são oferecidos junto aos alimentos para estimular o seu consumo? Eles são uma forma de chantageá-las, visto que muitas vezes a criança nem os come e se regala com o brinquedo. Quanta inversão!

O que fazer no meio desse fogo cruzado?

A melhor atitude é ter bom senso e não partir para o confronto. Uma eficaz ação pedagógica é negociar, nem ser permissivo e nem radical, considerando cada caso. Não se pode ceder sempre, comprando tudo o que ela deseja, porém concordar com alguma escolha é conveniente para que ela saiba que às vezes dá para comprar e outras vezes não dá.

A mentalidade é: não é necessário sermos escravos do consumo, podemos ser nós mesmos, sem ter que fazer o que outros determinam para nós.

Faço um alerta a certos brinquedos que trazem uma mentalidade agressiva, originados de desenhos violentos de televisão, e que são comprados pelos pais, dando seu aval para que sejam usados sem nenhum critério. Há crianças por exemplo, que só aceitam coisas que tragam a marca de um determinado desenho.

Recomendo que os pais procurem ter uma ação educativa eficiente, oferecendo aos seus filhos condições para desenvolver seu potencial latente através do exercício das virtudes: bondade, beleza, justiça e verdade.

7 comentários no blog

  1. Camila em

    TEXTO MARAVILHOSO!CONCORDO PLENAMENTE. É NECESSÁRIO DEIXAR DE PREGUIÇA E PARTICIPAR MAIS DA VIDA DE NOSSOS FILHOS DE MANEIRA QUE MÍDIA NÃO SE TORNE A BABÁ DELES! E SERMOS FIRMES TAMBÉM DIANTE DOS DOCES!REFRIGERANTES E PERSONSGENS FOFINHOS…

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    1. Michelle Amorim respondeu Camila em

      Oi Camila!

      Bacana né? Esse foi o último tema da reunião de pais e olha, rendeu o bate papo!

      Bjo

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      1. joanna respondeu Michelle Amorim em

        oiiiiiii, adorei o texto!!! muito bom! irei me dedicar a cada dia mas para meus filhos ! :)

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  2. Isabel Teles em

    Adorei seu texto, é simplesmente maravilhoso. Fiquei surpresa com tamanha capacidade de selecionar bem as palavras para falar de um tema tão abrangente usando uma linguagem simples e inteligente. Parabéns!

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  3. Geremias Barbosa em

    Muito bom o texto. Agradeço a autora, foi muito útil as informações que pude acessar, bastante esclarecedoras sobre a influência da mídia na formação das crianças.

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  4. Carmem Barreto em

    Maravilhoso! Parabéns.

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  5. Ana em

    Muito bom o texto, irá me inspirar para o meu tcc!

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