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A cama (des)compartilhada: e todos dormiram felizes para sempre?

melanie_blog vida materna

Como eu já tinha contado para vocês nos posts anteriores, depois de quase dois anos de cama compartilhada, sentimos que a hora de descompartilhar tinha chegado. Para nós e para a Melanie. Principalmente, pelos motivos que citei no post anterior:

– apesar da cama ser grande, estamos dormindo mal. ela cresceu e naturalmente passou a ocupar mais espaço. com isso, dormimos apertados, sem poder trocar muito de posição para dormir. acordamos com dores no corpo todo, quase todos os dias.

– ela tem um quarto lindo, que foi feito com muito carinho só para ela. achamos que é uma mudança boa, natural, assim como o crescimento dela. queremos que ela tenha essa autonomia de dormir em seu próprio quarto.

– sentimos falta dos nossos momentos a dois na hora de dormir. e aqui, vale ressaltar que não estou falando de sexo porque ele pode acontecer em vários outros lugares, além do quarto e da cama. estou falando de momentos como dormir de conchinha, de ler um livro enquanto o outro joga Candy Crush no celular, de conversar sobre amenidades ou sobre aquelas questões que não tivemos tempo de discutir durante o dia.

Desde o começo eu decidi que não queria nada feito à força, de maneira traumática. Eu não queria impor que ela dormisse na própria cama e sim incentivar que ela dormisse na própria cama. Queria que o fato dela passar a dormir sozinha fosse visto como uma mudança boa, um crescimento natural, uma conquista. E olha, não foram fáceis os dias em que tentamos assim, só na conversa. Mel chorava como se não houvesse amanhã e a gente acabava cedendo por três motivos: por pena dela, porque não estávamos cem por cento preparados e para que ela não acordasse o Leo.

Agora, não vou mentir para vocês: rolou um chuncho/maracutaia/barganha para que a gente conseguisse dar um start nessa transição sem que ela envolvesse choro e drama. E foi assim.

Na Páscoa desse ano fizemos todo um esquema de pegadas de coelho e esconde esconde de cestinha para Melanie achar. Ela amou e desde então o Coelho ficou sendo o carinha bacana que traz as coisas legais para as crianças, quando elas se comportam.

Assim que assistiu Frozen – como a maioria das outras crianças – Mel ficou encantada e apaixonada pelos personagens, pela história e pelas músicas. Não demorou muito para que ela começasse a nos pedir as fantasias da Elsa e da Anna. E, por algum motivo que eu não sei explicar, foi exatamente esse o gancho que eu resolvi usar.

Conversamos com ela explicando que as roupas de Elsa e de Anna eram para crianças maiores. E que crianças maiores dormiam em suas camas também, além de dormirem na cama de seus pais. Explicamos que dormir no próprio quarto era tão bacana e gostoso quanto dormir conosco e que ela sempre poderia voltar a dormir com a gente, se quisesse. Que apenas queríamos que ela sentisse o quanto poderia ser bom dormir na “cama da casa da árvore”, como ela chama. Que ela teria mais espaço e ficaria mais confortável.

Ela passou os dias seguintes dizendo que iria dormir no seu quarto, mas assim que a hora chegava, ela dava meia volta e ia para o nosso quarto. E sempre falava “amanhã, mamãe, amanhã eu vou dormir na cama da casa da árvore”. E emendava dizendo “aí o Coelho vai trazer a minha fantasia de Anna e de Elsa, né, mamãe?”.

Encontramos a roupa à venda numa loja aqui de Curitiba e deixamos guardada por uns dias. Mostrei a foto da fantasia para ela no computador, para dar um incentivo a mais. Naquele mesmo dia ela decidiu que iria dormir na própria cama. E foi.

Lá pelas 2h30 da manhã, ela acordou chorando e me chamou. Eu já estava acordada acompanhando ela se virar para lá e para cá na cama, pela babá eletrônica. Fui até lá e ela disse, chorando, que queria ir dormir na nossa cama. Respirei fundo e pensei: “É agora ou nunca. Me ajuda aí seu Coelho!”

Disse para ela que faltava muito pouco para que ela dormisse a noite toda na própria cama e para que o Coelho trouxesse o presente que ela queria. Tentei me manter positiva o tempo todo, dizendo o quanto era legal ela dormir ali e usando a mesma metodologia que usei na retirada da chupeta. Dizendo que ela era muito forte, valente, uma guerreira. E que eu estava ali para ajudá-la a vencer mais aquele obstáculo, que ela podia contar comigo. Isso em meio a inúmeros abraços, cafunés e beijinhos.

Deitei com ela e prometi que ficaria até ela adormecer novamente. Demorou uns vinte minutos e voltei para a nossa cama. Às 6 da manhã desci e coloquei a caixa com a fantasia de Anna em frente à porta. Assim, quando a Mel levantasse já a encontraria ali.

Ela despertou lá pelas 7h30. Foi ao nosso quarto e disse “Viu só, mamãe?! eu dormi na minha cama da casa da árvore a noite toda inteirinha sem chorar! Eu sou muito valente! Será que o Coelho trouxe meu presente, mamãe?!” e desceu apressada para ver se havia algo para ela.

Vocês não imaginam a felicidade dela em ver aquela caixa de presente em frente à porta. Quando ela abriu então e viu a roupinha que ela tanto queria, os olhinhos brilhavam, ela nem conseguia falar direito.

O que eu percebi depois, foi que a felicidade maior não era pelo presente em si e sim por ela ter conseguido dormir bem na própria cama. Ainda assim, fiquei me sentindo mega culpada por mentir e por usar esse esquema de recompensa para isso. As pessoas cobram que sejamos politicamente corretos o tempo todo, especialmente na maternidade. Eu também não acho bacana mentir, inventar histórias. Acho que abala a confiança que seu filho deve ter em você. Mas ali, naquela situação, foi o que me ocorreu para que ela conseguisse subir aquele primeiro e tão alto degrau.

Os dias foram passando e ela continuou indo para a própria cama, mas encontrou outra muleta: nas primeiras noites ela pedia para ver um desenho no celular lá na cama, antes de dormir. Nós deixamos, mas com aquele sentimento de que não estava certo, de que um péssimo hábito poderia se criar ali, com o nosso consentimento.

Quando eu já estava me sentindo a pior mãe do mundo e com medo de ser apedrejada pelo batalhão da maternidade perfeita que nunca falha, não pode falhar e nem comete erros (ainda mais eu, né?!), eis que minha própria cria me mostra que sim, eu fiz algumas (ou muitas) escolhas acertadas. Para os meus filhos.

Passados sete dias desde o início do processo, dormir na própria cama passou a ser algo simples, corriqueiro, comum, normal. E a prova disso foi neste final de semana, em que dormimos fora de casa e minha mãe dormiu aqui com os pequenos. Mesmo com a grande insistência da vovó para que elas dormissem juntas, Melanie foi firme e disse que não, que ela tinha que dormir na sua própria cama. E dormiu.

Ela percebeu que dormir em seu quarto não muda em nada a relação que ela tem conosco e que todos dormem melhor, com mais espaço, mais confortáveis e com mais liberdade. Percebeu que era uma mudança simples e boa. Ah, e sem celular, sem tv ou qualquer outra tela para ajudá-la a dormir (ufa! cessem as pedras!). Apenas ela, suas bonecas preferidas, seu travesseiro, seu cheirinho, uma oração e uma ou outra história antes de dormir.

E por fim, sobre o Coelho bom que traz presentes ou mau que leva as coisas embora quando as crianças não se comportam, eis o diálogo de ontem que tirou um peso enorme das minhas costas e me mostrou, mais uma vez, que nossos filhos sabem mais do que a gente imagina.

– Mel, onde o Coelho mora? Onde ele dorme?

– Na toca dele, mamãe. Ele é branquinho e peludo e tem os olhos vermelhos. Bem fofinho. 

– Mas aonde é a casa dele?

– Mamãe, o Coelho é de mentirinha, ele não existe de verdade. É só uma brincadeira.

pausa para o choque (tipo ser informado que papai noel não existe)

Hoje, vendo ela ir para o próprio quarto, toda crescida, cheia de autonomia, subir a escadinha, deitar na cama e se cobrir, sozinha (e feliz!), vejo que aquele incentivo se fez necessário para que ela desse o primeiro passo. Se foi certo ou errado? Provavelmente foi errado. A gente sempre deve jogar limpo. Mas eu sempre sigo a minha intuição com meus filhos porque os conheço como ninguém. Normalmente ela não falha. Mesmo que eu precise cometer alguns erros para acertar no final.

Agora, seguimos dormindo todos felizes (sabe-se lá até quando…): Melanie chutando as cobertas a vontade e dormindo em X numa cama só para ela e nós de conchinha, com nossos momentos a dois e nosso espaço resgatados. E como tem sido bom!

Não me arrependo de termos praticado a cama compartilhada. Tivemos momentos de saco cheio sim, mas na grande maioria dos dias foi maravilhoso para ela e para nós. É algo que ficará na memória. E tanto ela quanto Leo sempre podem dar uma fugidinha para o nosso quarto se a saudade apertar. Ou numa noite especial de acampamento no quarto do papai e da mamãe, quem sabe.

A porta não se fechou. Apenas abrimos uma janela.

comentários via facebook

16 comments

  1. Ah, Michelle…. Não sei se gosto mais de vc por compartilhar suas histórias, ou porque vivo em situações semelhantes às suas, rs…. Minha filhota acabou de completar 3 anos e sempre leio seus posts como se fossem meu próximo passo!!! (Aliás, até deixei um comentário esses dias naquele seu post dos 3 anos da Mel…. Acabei de entender perfeitamente como elas se transformam nessa idade! Ainda bem….)
    Entendo sua preocupação em relação a como vc começou esse processo da Melanie dormir em seu próprio quarto, afinal, vc se expõe a todos os tipos de crítica. Mas se posso expressar minha humilde opinião… Acho que, assim como vc mesma mencionou, seguindo a intuição de mãe, tudo é válido! Encontrar o meio termo nessa vida de mãe não é nada fácil!
    Estou nessa história de cama compartilhada tb há algum tempo. O frio me desmotivava a encorajar minha baixinha a ir para o quarto, afinal, quem iria levantar quando ela chamasse?? A mamãe, lógico! Por conveniência, preguiça…. vai ficando. Agora, está esquentando. Com ajuda da sua experiência… quem sabe!
    Mais uma vez, te agradeço (assim como no post dos 3 anos, da chupeta…) por nos mostrar que há uma luz no fim do túnel.
    Beijo grande pra vcs! Amo seu blog! ;)

  2. Mais um post perfeito! E nada de atirar pedras… Maternidade é difícil demais e quem julga é pq não a exerce, terceiriza os filhos. No outro post eu tinha dito que não fazemos a cama compartilhada aqui pq não gostamos, pq não funciona para nós, pq optamos assim. Mas não condeno quem faz. Até pq todos nós precisamos de um descanso, seja ele compartilhado ou não. Heitor sempre dormiu no berço dele, no quarto dele e a transição do berço para a mini cama não foi fácil. Demoramos uns dias até ele entender que ali era para dormir tbm e que a cama lhe dá uma “liberdade” que o berço não dava. Hoje quando falo que é hora de descansar, ele já deita na cama e me dá tchau. Mas a maternidade é um caminho de pedras, pq não é simples para ninguém! E viva o coelho!

  3. Por aqui todas as tentativas fracassaram exatamente por cauda desse pensamento politicamente correto. No final eu me sentia mas frustrada do que feliz por não ter cedido a nenhuma artimanha. Lendo seu post eu vejo que as duvidas que temos e os erros que cometemos nos aproxima muito (vc e o blog e nós, leitoras.) E é sempre bom olhar o desafio que vc têm em casa, vivido por outra pessoa,outra família. Quando você compartilha dessa forma clara e simples, me parece tão normal… que não pode acontecer outra coisa: agente sempre aprende.

    Bjos, obrigada e parabéns.

  4. Michelle, identificação total com o que escreveu! Tenho uma menina de 3 anos e 3 meses, em cama compartilhada há 2 anos. Eu não consigo me desligar dela, trabalho fora e sinto como se deixando ela dormir comigo pudesse minimizar a falta que ela sente de durante o dia. Quando falo em ela ir dormir no quartinho dela ela fala ” eu tenho tanta saudade de você durante o dia…” Vamos mudar de casa em 2 meses e minha esperança é que nessa mudança para um quarto menos de bebe ela tenha interesse em ficar na cama dela.
    Beijos e parabéns pelo blog!

  5. Eu aqui Michelle, como se já não bastasse no face haha.
    Sério, eu chorei =’)(estou sentimental).Que linda a Mel. Como é bom ver cada vitória deles, né? Ser mãe é isso mesmo. As vezes erramos, acertamos, mas sempre estamos com todo amor do mundo para dar e dar sem nos cansar.
    Mais uma vitória de vocês.

  6. Ah, chorei!
    Nunca quis cama compartilhada e sempre fui contra, mas por n motivos, muitos parecidos com os seus, acabei adotando.
    Aqui também estamos em um processo na tentativa de colocar ela pra dormir no próprio quarto. Vou aproveitar suas dicas.
    Muito obrigada por compartilhar!
    Bjs…

  7. Também não queria ter cama compartilhada,mas enfim aqui estamos nos dormindo a os três numa cama pequena para nos. Quero tenta desconpartilhar o quanto antes. Vai ser melhor para todos. E mãe e assim mesmo as vezes acetar da maneira certa e outras vezes vai pela mais “acessível”, o importante é o bem que fazemos e o amor que mostramos para nossos filhos.

  8. Oi, desde que engravidei e tive de ficar de repouso a internet passou a ser minha companheira e com ela encontrei blogs tão bacanas quanto o seu… Acompanho seus post’s com muita atenção e carinho, sempre quis dividir um pouco de minha experiencia mas por uma inexplicável timidez me contive, este é meu primeiro comentário na internet. Ando ao revés das mães perfeitas, sofri por ter de voltar a trabalhar, continuei amamentação até hoje (minha pequena conta com 2 anos e 6 meses), e está sendo bem difícil desfazer esse vinculo, por isso estou indo no tempo dela. Minha cama é compartilhada com ela também, e já vemos a necessidade de descompartilhar mas confesso que não sabia nem por onde começar. Adorei o Post de hoje pois agora sei que essa transição pode acontecer sem traumas! Obrigada por me permitir ler suas experiencias :)

  9. Amei esse post, como sempre muito bem escrito! É muito bom poder compartilhar experiencias, a Laura dorme no berço que fica no nosso quarto. Agora no verao estou querendo muda-la para seu quartinho de novo. Ser mae é dureza, ter que levantar de madrugada nao é facil…mas passa rápido, ela já fez 1 aninho e eu comecei a seguir o blog quando ainda era uma tentante..heheh

  10. Comecei a acompanhar seu blog a poucos dias, mas estou amando e no momento passo pela mesma situação e fico com com coração apertado e ao mesmo tempo pensando em tudo o que VC disse no post. Acho que vai ser difícil, porém não impossível, teve a fase da fralda, da chupeta e agora tem que que ser a da cama compartilhada.

  11. Olá Michelle. Muito fofo este post. Sou psicóloga e mãe de um bebê de 1ano e 10 meses. Olha, pra começar, a gente precisa parar de sentir tanta culpa e principalmente, parar de achar que existe um jeito certo de fazer as coisas. O jeito certo é o jeito que a gente dá conta!!!! No mais, os filhos sempre nos ensinam como fazer. Os outros? Que cuidem das suas camas!!! rs. O que nos diferencia de quem faz as coisas de forma errada, é o amor. Só erra quem não ama e isso tá na cara que vc tem de sobra! Parabéns! bjs

  12. Oi Michelle, “descobri” o teu blog faz poucos dias e estou amando as leituras. Tenho uma filhota de 1 ano e 5 meses e estamos vivendo essa fase da cama compartilhada. Por diversas vezes acordei irritada e de saco cheio, pois estamos dormindo mal, desconfortáveis pois a Larissa está crescendo e ocupando mais espaço pra dormir e para que ela durma bem e meu marido também, eu é que tenho dormido mal, encolhida na ponta sem poder me mexer direito, acordando com o corpo dolorido. Amo dormir agarradinha com ela mas sinto que está na hora de acostumar ela no berço novamente. Sei que acostumamos assim por conveniência, preguiça, frio… mas é assim mesmo com nossos erros e acertos e aprendendo diariamente que seguimos nessa linda jornada de criar e educar um filho, mas com a certeza que sempre queremos fazer o melhor para eles.

    Obrigada por compartilhar todos esses momentos com outras mamães para que assim possamos aprender com essas trocas de experiências.

    Bjsss e que Deus abençoe essa família linda..

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