Categories: Comportamento e Educação/ Crianças

2 anos e pouco: a fase da autonomia, da independência e do não, obrigado.

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É engraçado que existem assuntos que sempre reaparecem por aqui, não é? Acho que talvez seja porque enquanto eu escrevo, eu reafirmo e reaprendo as coisas também. E um dos assuntos em voga ultimamente aqui na minha cabeça, é esse, dos “terrible twos”.

Sim, eu fui descaradamente ludibriada pela vida ao pensar que os “fantásticos terríveis dois anos” do Leo já haviam atingido o seu ápice – como relatei neste post há pouco tempo atrás. Que nada. A maior onda ainda estava por vir ainda e me pegou totalmente de surpresa – como aquelas ondas que vêm do nada e tiram a calcinha e o top do biquini do lugar, sabem? Pois é. Foi tipo pegadinha do Malandro.

Leonardo, aos dois anos e dois meses, deu seu grito de autonomia e independência – ainda que ele nem saiba direito o que isso significa e que ainda não possua toda a motricidade e o discernimento necessários. E mais: decretou que, não, por mais difícil que esteja tentar amarrar seu cadarço sozinho, ele não precisa de ajuda. Ele quer fazer sozinho. Contudo, a frustração por não conseguir vem em seguida e, ainda assim, ai (!) daqueles que tentarem ajudar. O choro é certo. E daqueles que espantam quem estiver por perto. Ô fase cansativa – porém necessária – essa! O que fazer se não chegar pertinho, olhar nos olhos dele e dizer que, se ele quiser, estamos ali para ajudar, não é?

Além disso, a fase da negação – que para mim é também uma espécie de teste de limites – da própria criança e dos outros – chegou igualmente forte por aqui. Com isso, pequenas coisas que sempre foram parte da rotina e realizadas sem maiores problemas, se tornaram um caos. Trocar a fralda ou trocar de roupa. Tirar uma camiseta que molhou. Sair ou voltar para casa. Tomar os remédios. Comer nas horas certas. Entrar ou sair do banho. Tudo se tornou um drama – tipo daqueles filmes clássicos que fazem até o mais insensível dos seres chorar.

Obviamente que o sono e a alimentação não poderiam ficar de fora e também foram afetados por esse turbilhão de emoções infantis: Leo passou os últimos meses comendo menos, recusando algumas coisas que sempre adorou, tendo um sono menos tranquilo de madrugada, acordando muito cedo, enfim, mexeu com tudo. Ou seja, estou um caco, obrigada. :)

Houveram dias admiráveis, em que mantivemos a calma e a serenidade que se espera de um adulto (hahaha). Outros em que o cansaço virou exaustão, que consequentemente acabou com a santa paciência que tentamos praticar sempre. Isso, claro, depois de impedir o rapazinho mais de vinte vezes de escalar radicalmente a lateral da escada. Sim, socorro. (e só para esclarecer as entrelinhas, quando digo que “perdemos a paciência” ou que “cometemos erros”, isso quer dizer que deixamos o estresse tomar conta da situação, que falamos em tom mais alto do que deveríamos ou demos uma bronca mais dura do que gostaríamos. mas isso não resulta em palmada ou qualquer agressão física, nunca, jamais, deus me livre, obrigada. de nada. simplesmente porque não acredito que palmada educa, pelo contrário).

Voltando ao assunto principal do post.

Outro dia, pude atestar mais uma vez o poder que a serenidade pode ter. Aquela de não se deixar envolver no caos, de não colocar mais uma carga emocional (negativa, na grande maioria das vezes) naquele contexto, já tão conturbado. O cenário era este:

Leo tentando escalar a lateral da escada agarrado ao corrimão. Conversamos, explicamos de maneira simples e concisa o quão perigoso aquilo era para ele, tão pequeno. Mas não adiantou, óbvio. Uma novidade assim para uma criança de dois anos não seria impedida por um discurso qualquer. Então eu, muito cansada, tirei o pequeno aventureiro do quinto… sexto…sétimo degraus, umas vinte vezes. Quanto mais irritada, nervosa e impaciente eu ficava – por que afinal esse menino não entende que não pode, poxa vida?! – mais e mais ele teimava em subir. Daí me deu aquele estalo e lembrei do que eu já tinha aprendido antes. Algo que muitas vezes escrevi aqui, mas que, por algum motivo humano, eu muitas vezes esqueço de colocar em prática.

Fui até a cozinha, tomei um copo d’água, respirei fundo. Ele lá, subindo novamente. Durante a expiração, tentei liberar toda aquela tensão acerca da escada e da insistência dele em subir. Parece que até os sons ficam mais abafados, vindos lá do fundo – quando na verdade a gritaria está acontecendo bem ao seu lado. Eu sei que em dois minutos, eu parecia outra pessoa. Tirei ele mais umas dez vezes de lá, porém, com a diferença de que não estava mais irritada. Estava “apenas fazendo o meu trabalho”. E funcionou. Ele compreendeu que não deve escalar a lateral da escada porque é perigoso e ele pode se machucar. Mas, acima de tudo, vejo que ele compreendeu porque foi compreendido antes, sabem? A aceitação vem muito mais fácil quando nos sentimos acolhidos, isso é fato. É só lembrarmos das nossas próprias frustrações e do quanto sermos acolhidos ajudava.

Tanto com a Melanie quanto com o Leonardo, o que nos fez passar de forma mais calma por essa fase – passar parcialmente, né, porque ainda temos muitos dramas e muita insistência em praticar aventuras radicais pela casa – foi justamente termos insistido em lembrar a nós mesmos de que era uma fase e que iria passar, eventualmente. E, depois dessa, viriam muitas outras ainda. Mais fáceis, mais difíceis. Porque, como já sabemos, a estrada trilhada por quem cria e educa outros seres humanos, é feita essencialmente de desafios. Não há como evitá-los. Por isso, nós respiramos fundo, treinamos nossa paciência ao extremo, entoamos o mantra “é uma fase, vai passar” algumas centenas de vezes, temos vontade de pegar a bolsa e sair correndo em algumas outras e até explodimos naquele choro sentido e exausto num cantinho da cozinha, enquanto ninguém está olhando. E o barco segue. Porque, sim, vai passar. E dali sairá uma criança e um adulto mais fortes, que juntos, entre risadas e lágrimas,  aprenderam tantas coisas novas e necessárias para a vida de ambos.

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trilha sonora do post de hoje: coldplay – adventure of a lifetime

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13 comments

  1. Nossa! Me vi no seu relato. Com a diferença que não consigo ter a sua calma. Pois sou extremamente nervosa e na maioria das vezes, perco a paciência. Meu garotinho está com 2a 6m. E está cada dia mais teimoso, desobediente e enfrenta quem o repreende. É uma fase tão difícil e ao mesmo tempo deliciosa. Ele é muito carinhoso, pede beijo e abraço, diz q ama. Morro de amor.Só torço pra essa parte difícil passar logo. Tô mais cansada que o pente da Maria Bethânia. Kkkk. Força para nós! ??

  2. Mi, primeiro, quero te deixar um abraço e um beijo.. por compartilhar conosco sempre de forma tão transparente esses problemas.. e porque nossos problemas aparecem em momentos parecidos.

    Aqui aconteceu a MESMA coisa.. o Leo começou a melhorar e do nada voltou com força total em algumas birras. o pior é justamente as birrinhas em fatos cotidianos.. a comida é o que me tira o chao. dizendo que nao quer feijao e arroz.. tipo, oi? tu sempre comeu isso e agora nao quer? pra mim tem sido dificil. Os horarios de sono também melhorou um pouco.. mas, que fase heim?
    Força pra nós!

  3. Michelle, o seu post da Melanie ainda e eu nem era mãe, foi o que mais que marcou. Que existem brigas que precisam ser compradas e outras não. Heitor com 3 anos e meio está me testando como pode e Bruna com 1 ano e 11 meses já está mostrando as suas garrinhas no terrible two! Ele é uma criança fofa demais, mas se percebe que estou me descontrolando, não perde a oportunidade de testar mais! E ela quando quer calçar o chinelinho e está no pé trocado, vai ficar assim, pq não me estresso com isso. Explico que está trocado, mostro, mas ela diz que está bom. Ok. Sim, pq a fala dela nessa idade está desenvolvida como a do irmão aos 3. Mas eu não mantenho a calma como deveria, grito em muitos momentos, e dou umas palmadas tbm, apesar de ter certeza que elas não educam ninguém. Já percebi que o carinho funciona muito melhor. Mas em muitos momentos não consigo por em prática tudo o que sei…

  4. Nossa super me identifiquei com o seu texto (para variar né…rs) Sou mãe de gêmeas que na semana que vem completam 2 anos. Pode até soar estranho o que vou dizer, mas atualmente e nessa “terrivel fase” as duas estão me dando mais trabalho do que quando nasceram! Fico pensando que é dificil ser só mãe quando você precisa administrar tantas outras coisas juntas em um só dia, em um só momento e em uma unica pessoa. Isso certamente exige muito de todas nós. É difícil manter a serenidade, porém concordo plenamente com o que vc disse, temos que entender o tempo deles, essas descobertas… Uma assisti uma reportagem que falava sobre a educação indígena, onde o papel da mãe é acompanhar, mas basicamente “entender a fase” que aquela criança esta passando… Na reportagem uma das crianças mexia incessantemente em algumas tigelas sempre dessarumando-as. O repórter ficou intrigado e questionou: vc não ira falar nada ao seu filho? Ela apenas acenou com a cabeça negativamente e disse: ele é apenas uma criança e logo vai aprender que deve deixar as coisas ali. Acho que isso resume né! Beijokjas

  5. Ola Michele, me identifiquei muito com seu texto, eu sempre achei que sabia de tudo mas quando chegou a fase dos 2 anos do meu filho que começou ate meio tarde com 2 anos e 5 meses eu não soube como lidar com aquilo… e perdi varias vezes a paciência e ate o que eu não aceitava que era as palmadas cheguei a dar ( hoje me sinto horrível por isso) mas por ouvir as outras pessoas que sempre falam (nada que uma boa palmada não resolva). So que não estava resolvendo muito pelo contrario estava piorando meu filho estava cada vez mais agressivo, foi ai que eu parei e pensei e chorei meu deus onde eu estou errando… vi nele minhas atitudes, ele estava absorvendo minha agressividade em gritar e outras coisas mais… me imitava. Comecei a agir diferente com ele com calma mais atenciosa falando baixo… achando dentro da minha alma uma paciência que não tenho, e não é que ta dando certo, nem estou acreditando e bastaram 1 semana pra eu ver que a culpa também era minha, não sabia lidar com aquela situação.. Adorei seu Post… foi bom desabafar…..bjss

  6. Ô fase chata essa, só penso passa logo de uma vez! Aí lembro das surpresinhas maravilhosas de cada dia, e que depois dá uma baita saudade, e fico mais tranquila. Vai passar mesmo, e tenho mais é que aproveitar ao máximo… Mas que tem horas que penso que vou ficar louca,… Tem.

  7. Espero do fundo do meu ser consegui me aperfeiçoar e me tornar cada vez melhor nessa fase. Mas há dias em que a paciência me foge, e falo alto. Bater também não concordo,por isso não faço. Mas a fase é bem exaustiva

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